Junho chegou. Em outros tempos era mês de fogueira, milho assado e cozido, pamonha, canjica e quadrilha. Agora é época de um evento mais sofisticado: o Festival de Cinismo que Assola o País (Feciapá), termo criado pela jornalista Malu Gaspar, na edição de 06/06 último, na sua coluna d’O Globo.
Malu Gaspar é, hoje, uma das nossas mais competentes e brilhantes jornalistas e a sua criação – recorrendo ao jornalista Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta), o criador d’O Festival de Besteira que Assola o País (Febeapá) – é deliciosa.
O Feciapá ainda não consta nos calendários oficiais do Brasil, mas já movimenta mais autoridades do que muito feriado nacional. É a única festa em que sujeitos que passam o ano se acusando mutuamente de conspirar contra a República conseguem dividir a mesma mesa de jantar, brindar com vinho português, rir de todos nós e posar para fotografias como velhos companheiros de internato. A cena, ressalte-se, ocorre em Lisboa, porque a cara de pau nacional, quando amadurece, ganha sotaque lusinato e gasta em euro.
Lá desembarcam ministros, políticos, advogados, empresários, magistrados, jornalistas e demais espécies que habitam os corredores do poder. Todos movidos pelo elevado propósito de debater os destinos do Brasil a milhares de quilômetros do Brasil. Afinal, discutir os problemas nacionais em território nacional seria uma vulgaridade e, para mentes tão brilhantes e singulares, desperdício.
Os participantes justificam a viagem com argumentos elevados: intercâmbio acadêmico, reflexão institucional, aperfeiçoamento democrático e outras expressões que soam profundas justamente porque não dizem nada e/ou porque ninguém sabe ao certo o que significam.
Curiosamente, os debates mais importantes raramente acontecem nos auditórios. Sim, meus amigos, o verdadeiro congresso ocorre nos corredores, nos elevadores, nos cafés e, sobretudo, nos jantares. É ali que floresce a ciência política tropical. O painel oficial pode tratar da evolução regulatória dos ativos tokenizados, mas a conversa da sobremesa gira em torno de quem será salvo, quem será sacrificado e quem ainda conserva amigos suficientes para sobreviver à próxima manchete.
Neste ano havia um fantasma circulando pelos salões: Master. Aquele banco do escândalo que entrou na festa sem convite e ocupou a cabeceira da mesa. Como acontece em toda reunião da elite brasileira, ninguém queria falar dele e todos falavam dele. Os ausentes tornaram-se mais comentados do que os presentes. Cada café servia uma teoria, cada taça de vinho produzia uma conspiração, cada guardanapo escondia uma versão diferente dos fatos, cada cafezinho gerava cochichos. Lisboa não parecia a capital de Portugal; transformara-se numa sucursal de Brasília com vista para o Tejo.
O brasileiro desenvolveu uma resistência admirável ao absurdo. Depois de décadas convivendo com escândalos, aprendeu a encarar certas notícias com a serenidade de quem observa a previsão do tempo.
Corrupção? Pode chover. Tráfico de influência? Pancadas isoladas. Conchavos? Temperatura estável.
Nada mais surpreende. Provavelmente por isso as pesquisas eleitorais indiquem algo que deixaria qualquer cientista político arrancando os cabelos: parcela crescente da população já não reage a determinadas denúncias. Não porque as considere normais e, sim, porque as considera inevitáveis. É a institucionalização do suspiro. O cidadão lê a manchete, balança a cabeça e segue pagando boletos, enquanto o Feciapá prospera, com novos palestrantes, novos patrocinadores, novos escândalos e novas justificativas. O elenco muda, o roteiro permanece. Entram personagens, saem personagens e a peça continua em cartaz.
O Brasil produz crises em quantidade industrial, mas produz também uma extraordinária capacidade de convivência entre adversários ocasionais. Aqui, a indignação costuma ter prazo de validade menor do que um iogurte. O escândalo de hoje é engolido pelo escândalo de amanhã e o espanto dura até a próxima notificação. Por isso o Feciapá tem futuro garantido.
Enquanto houver autoridades dispostas a atravessar oceanos para discutir ética em salões luxuosos, enquanto houver escândalos circulando pelos corredores como garçons invisíveis e enquanto houver brasileiros assistindo a tudo com uma mistura de revolta, cansaço, indiferença e humor involuntário, o festival seguirá firme. Talvez até mereça reconhecimento oficial. Quem sabe um dia entre para o patrimônio imaterial da República, afinal poucas tradições nacionais demonstram tamanha regularidade.
Carnaval às vezes falha. A seleção brasileira, estamos vendo há vinte quatro anos, também. A economia nem se fala. O que nunca falha é a cara de pau institucional. Essa joia genuinamente brasileira continua invicta. E, pelo visto, já tem reserva confirmada para o próximo junho em lisboeta.
*Historiador
