Dia desse lembrei-me das diversas vezes que fui a Brasília e mergulhei nos meus pensamentos e neles vi, na capital da nossa maltratada república, um homem olhando o céu. Não fazia nada além disso: olhava o céu de Brasília numa tarde meio cinzenta, meio amarela, dessas tardes que parecem ter poeira dentro da luz. O homem fumava devagar, como se o cigarro precisasse durar mais do que a esperança, e olhava os prédios públicos com uma tristeza cansada. Talvez se lembrasse de outros tempos. Talvez apenas estivesse velho.
Eu passei por ele e pensei nos velhos do Brasil, aqueles que sobreviveram a tudo: aos discursos inflamados, às marchas patrióticas, aos salvadores da pátria, aos revolucionários de gabinete, aos generais de peito estufado, aos estudantes de passeata, aos padres de passeata, aos ministros graves, aos jornalistas heroicos e aos canalhas eternos. O Brasil muda de roupa, mas conserva os mesmos cacoetes autoritários.
Agora mesmo há um decreto novo circulando pelos corredores da República. Veio embrulhado em boas intenções, como quase todas as coisas perigosas deste mundo. Fala em proteção digital, em defesa da democracia, em combate ao crime, em cuidado com mulheres e crianças. Tudo muito correto e muito civilizado. E, no meio dessas virtudes respeitáveis, apareceu um dispositivo meio enevoado e meio escorregadio, dando ao Estado o direito de vigiar aquilo que chama de “ataque à democracia”.
Sempre gosto de prestar atenção às expressões vagas. São elas que envelhecem mal.
Subversão da ordem, por exemplo, era uma expressão muito elegante em 1964. Dizia tudo e não dizia nada. Cabia um guerrilheiro armado, um estudante de barba, um padre progressista, um professor de sociologia e até um sujeito apenas mal-humorado num botequim de esquina. Depois vieram outras expressões igualmente elásticas: segurança nacional, guerra psicológica, inimigo interno, entre outras.
A ditadura brasileira não nasceu inteira. Foi engordando lentamente. Primeiro veio a promessa de excepcionalidade passageira. Depois, os pequenos endurecimentos administrativos. Mais adiante, os atos complementares, os inquéritos militares, as cassações seletivas, as prisões sem mandados. E quando o país percebeu, em dezembro de 1968, já estava sentado dentro do AI-5 como quem acorda tarde demais dentro de um quarto sem janelas.
As ditaduras não começam necessariamente com tanques na rua. Às vezes começam com funcionários bem-vestidos dizendo palavras moderadas. E é isso que me inquieta no novo entusiasmo censor da República. Não apenas a medida em si, mas a atmosfera moral que a acompanha. Criou-se no Brasil uma curiosa categoria de cidadãos: os democratas que têm medo da opinião alheia. Acham que a liberdade é bonita desde que supervisionada. Toleram a divergência desde que previamente homologada por alguma autoridade.
O homem da esquina continuava olhando o céu. Talvez ele soubesse que todo poder gosta profundamente de ampliar seus próprios limites. Nenhum governo cria instrumentos de controle imaginando usá-los pouco. O Estado sempre considera provisória apenas a liberdade; seus mecanismos de vigilância costumam ser permanentes.
Vejo ministros falando em responsabilidade informacional com o mesmo tom grave com que antigos coronéis falavam em preservação da ordem. Mudam os uniformes; permanece a tentação pedagógica do poder. O governante brasileiro possui uma compulsão antiga: ensinar o povo a pensar corretamente. E há ainda essa mania contemporânea de misturar coisas distintas para constranger quem discorda. O decreto veio acompanhado de medidas legítimas de proteção contra violência digital e feminicídio. Então, quem questiona os dispositivos vagos sobre opinião pública passa imediatamente a parecer cúmplice dos monstros. É truque antigo. O poder adora esconder suas ambições dentro de causas moralmente incontestáveis. Foi assim muitas vezes na História. Em nome da estabilidade, suspenderam direitos. Em nome da democracia, censuraram cidadãos.
O curioso é que quase ninguém se reconhece autoritário enquanto pratica autoritarismo. O censor moderno não se vê como censor. Vê-se como guardião da sociedade. Talvez seja isso o mais perigoso.
Anoitecia em Brasília. O homem da esquina jogou fora o cigarro e foi embora devagar. Fiquei olhando as luzes dos prédios públicos acenderem uma por uma. E tive a impressão melancólica de que o Brasil continua sendo um país onde a liberdade jamais morre de maneira espetacular.
Ela vai sendo abafada aos poucos, com voz mansa, assinatura elegante e justificativa virtuosa.
Como uma porta que se fecha sem fazer barulho.
