No Rio Grande do Norte, o PT parece hoje aquele equilibrista de circo mambembe que atravessa a corda bamba carregando dois pesos contraditórios: de um lado, a força eleitoral de Lula; do outro, o desgaste administrativo de Fátima Bezerra. O desafio não é pequeno. Trata-se de convencer o eleitor de que o futuro pode ser diferente sem romper completamente com o presente. Em bom português: o PT precisa fazer uma campanha de continuidade que pareça mudança. E é aí que entra a tentativa de construir a candidatura de Cadu, figura ainda em processo de consolidação popular, como uma espécie de novo personagem, alguém que pertença ao universo político do lulismo, sem carregar integralmente o peso da gestão estadual. Parece simples nas formulações do marqueteiro. Política não é, porém, aula de branding em MBA de fim de semana.
O cálculo estratégico do PT é evidente. No Nordeste, especialmente, Lula continua sendo um ativo eleitoral formidável, porquanto preservar uma conexão emocional com parcelas expressivas do eleitorado. Sua imagem está associada, para muitos, à expansão do consumo, programas sociais e períodos de crescimento econômico. Em campanhas petistas, esconder Lula equivaleria a um suicídio eleitoral. O problema é que a mesma lógica não se aplica automaticamente à governadora do estado. E a administração de Fátima enfrenta aquilo que governos chamam discretamente de “desgaste natural” e o eleitor chama apenas de cansaço. Segurança pública, infraestrutura precária, dificuldades fiscais e lentidão administrativa alimentam uma percepção de fadiga. Não importa, aqui, se as críticas são totalmente justas ou parcialmente exageradas. Em política, percepção vale mais que relatório técnico. Daí, caros leitores, nasce a operação delicada: aproximar o candidato de Lula sem deixá-lo excessivamente colado à governadora. É um exercício de separação simbólica. O eleitor precisa olhar para o candidato e enxergar algo além da mera continuidade burocrática do atual governo estadual.
O problema é que adversários não costumam colaborar com estratégias de marketing alheias. A oposição trabalhará exatamente no sentido contrário: transformar a eleição num plebiscito sobre o governo Fátima, reduzindo Cadu à condição de extensão administrativa da atual gestão. A campanha petista, portanto, terá duas tarefas simultâneas: defender o legado político do partido sem permitir que a eleição seja exclusivamente sobre os problemas acumulados do governo estadual. Toda campanha governista desgastada inventa um candidato que promete continuidade com renovação, uma fórmula antiga, que, às vezes, funciona e, às vezes, fracassa.
O roteiro provável é o seguinte: Lula surgirá como o fiador nacional. Não apenas como cabo eleitoral, mas como avalista institucional. A mensagem implícita será: “Com Cadu, Brasília estará aberta para o Rio Grande do Norte”. É o velho argumento federativo brasileiro: o governador alinhado ao Planalto consegue mais recursos, mais obras e mais facilidade política.
Paralelamente, Fátima tenderá a operar mais intensamente nos bastidores e não sob os holofotes, afinal governadores possuem instrumentos decisivos numa campanha estadual: relação com prefeitos, articulação regional, estrutura política, influência administrativa e presença consolidada no interior. Tudo isso pesa enormemente numa eleição. Mas exposição excessiva no horário eleitoral pode produzir o efeito inverso do desejado.
O problema é que campanhas políticas não são peças de engenharia perfeitamente controláveis.
O eleitor percebe artificialismos com rapidez surpreendente. Se a tentativa de dissociação parecer excessivamente calculada, o resultado pode ser desastroso. O candidato corre o risco de transmitir insegurança política, e o eleitor raramente se entusiasma com quem parece pedir desculpas pela própria aliança. Ademais, existe um fator estrutural frequentemente ignorado pelos marqueteiros: eleições estaduais possuem dinâmica própria. O eleitor distingue, cada vez mais, governo federal de governo estadual Pode votar em Lula para presidente e, simultaneamente, rejeitar administrações locais do PT – e as pesquisas têm demonstrado isso. O contrário também ocorre. A transferência automática de popularidade virou artigo raro na política brasileira contemporânea. E é justamente por isso que a identidade própria do candidato será decisiva. Não bastará repetir slogans genéricos sobre esperança, união ou reconstrução.
Será necessário apresentar diferenças concretas, ainda que discretas, em relação ao atual governo. O eleitor precisa identificar uma promessa específica de eficiência, prioridade ou estilo administrativo.
O marketing terá ainda um desafio estético. Se a comunicação lembrar excessivamente a gestão atual, reforça-se a sensação de continuidade pura. Se romper demais, cria-se constrangimento interno no próprio partido. Eis novamente o equilibrista sobre a corda. É a armadilha clássica dos partidos longevos no poder: como usufruir da força da máquina sem herdar integralmente o desgaste dela? Não existe fórmula mágica. Existe apenas gerenciamento de danos. Por isso, esta eleição poderá se transformar num laboratório interessante sobre os limites da transferência política no Brasil contemporâneo. Entre a bênção nacional de Lula e o desgaste regional de Fátima, o PT tentará fabricar um candidato capaz de parecer simultaneamente continuidade e novidade, uma tarefa possível, mas, como toda operação de ilusionismo político, depende menos da mágica do marqueteiro e mais da disposição do público em acreditar nela.
