O POTENCIAL REJEITADO PELAS SALINAS DO RN
O Rio Grande do Norte ostenta, com orgulho, o título de maior produtor de sal marinho do Brasil, respondendo por cerca de 95% da produção nacional. Cruzar as rodovias que cortam a Costa Branca potiguar é deparar-se com montanhas brancas que reluzem sob o sol escaldante. No entanto, por trás dessa engrenagem econômica tradicional, esconde-se um desperdício de proporções bilionárias. O processo de cristalização do cloreto de sódio gera um resíduo líquido de alta concentração conhecido como água-mãe. Frequentemente descartado de volta ao mar como rejeito, esse efluente é, na verdade, uma “salmoura preciosa” saturada de minerais de alto valor comercial, como magnésio, potássio, bromo e cálcio.
Para o empresariado visionário e para as autoridades governamentais, a água-mãe não deveria ser vista como passivo ambiental, mas como o passaporte para a criação de um inédito Polo de Indústria Química Verde nas proximidades das próprias salinas, a exemplo de uma fábrica de barrilha que estava projetada em Macau.
A proximidade geográfica é a chave para a viabilidade econômica. Transportar água é caro devido ao peso; logo, as indústrias que processam esse insumo precisam estar estrategicamente instaladas vizinhas às salinas de Macau, Mossoró e Areia Branca.
Pesquisadores e técnicos ouvidos pela coluna comungam com a opinião e sintetizam que se o Rio Grande do Norte desenhasse um distrito industrial planejado para essa finalidade, atrairia de imediato quatro grandes setores: 1) Indústria farmacêutica e de cosmético: O magnésio extraído da água-mãe possui pureza ideal para a fabricação de suplementos alimentares, antiácidos e compostos dermatológicos. O mercado global de bem-estar demanda, cada vez mais, minerais de origem natural; 2) Fábricas de fertilizantes: O Brasil é um dos maiores importadores mundiais de potássio. A extração do sulfato de potássio a partir do rejeito salineiro potiguar colocaria o estado no mapa estratégico da segurança alimentar nacional, fornecendo nutrientes diretamente para o Nordeste e o país; 3) Metalurgia de alta tecnologia: O magnésio metálico, obtido por processos eletroquímicos da salmoura, é o metal estrutural mais leve do mundo. Ele é peça-chave para ligas metálicas utilizadas na aviação, na indústria automobilística e na produção de eletrônicos; e 4) Hidrogênio Verde: Em plena era de transição energética, a combinação da salmoura residual com a abundante energia eólica e solar do RN abre espaço para plantas de eletrólise avançadas. É possível gerar hidrogênio verde e cloro-álcali sem competir pelo uso da escassa água potável da região semiárida.
A transformação desse cenário exige uma ruptura com o modelo de negócios do século passado. O Rio Grande do Norte não pode mais se dar ao luxo de exportar apenas commodities brutas de baixo valor agregado enquanto importa produtos químicos refinados a preços astronômicos. No entanto, para que as indústrias cheguem, o conhecimento precisa ser financiado.
O papel das universidades públicas potiguares (como a UFRN e a UFERSA) tem sido heroico.
Pesquisadores locais já provaram, em escala de laboratório, que é perfeitamente viável extrair esses minerais e até utilizar a água-mãe para tratar efluentes de outras indústrias. Falta, contudo, o combustível principal: o investimento privado em pesquisas. A indústria salineira não pode ficar só em busca de benefícios fiscais quando há alternativas palpáveis para o seu desenvolvimento.
Autoridades governamentais precisam desenhar urgentemente um plano de incentivos fiscais agressivos e segurança jurídica que atraem indústrias químicas de base para a Costa Branca. Por outro lado, o empresariado precisa abandonar a postura de mero extrativista e assumir o papel de coinvestidor da ciência. Financiar laboratórios, criar plantas-piloto e testar patentes locais não é filantropia; é estratégia de sobrevivência e expansão de mercado.
O rejeito que hoje retorna ao oceano poderia estar gerando milhares de empregos de alta qualificação, impostos tecnológicos e fixando cérebros brilhantes no nosso estado. O futuro do Rio Grande do Norte não está em produzir apenas mais sal, mas em refinar a inteligência que extraímos dele. A salmoura está gerada, o sol continua a brilhar, as mentes estão prontas. Falta a coragem política e empresarial de transformar rejeito em riqueza.
MINERAL
O deputado Francisco do PT quer audiência pública para discutir o tema “Mineração e terras raras no RN: potencial e desafios”. O tema é relevante exatamente depois da realização do Forum Mineral, acontecido em Currais Novos.
MINERAL 2
Para o parlamentar petista, “o assunto precisa ser debatido porque é uma importante fonte de geração de emprego e renda, sem descuidar da questão da sustentabilidade ambiental”.
MINERAL 3
O deputado Francisco do PT destacou que a região do Seridó “é uma região muita rica, de potencial mineral muito vasto, especialmente entre a divisão do Rio Grande do Norte com a Paraíba”.

