A política tem dessas manias que atravessam os séculos como quem atravessa uma feira livre sem perder o rumo. Mudam roupa, língua, paisagem, mas certos costumes permanecem. Talvez por isso eu tenha me lembrado dos fatímidas ao olhar, outro dia, para os caminhos do Partido dos Trabalhadores no Rio Grande do Norte.
Quando Maomé morreu, em 632, o problema não era a religião. A fé continuava viva. O problema era o poder. Quem assumiria a condução dos fiéis? A partir dessa discussão surgiram correntes diferentes dentro do islamismo e, tempos depois, os fatímidas, uma dinastia que reivindicava sua legitimidade por descender de Fátima, filha do Profeta. O poder encontrava sua justificativa numa linhagem, real ou simbólica.
É curioso como a política gosta dessas continuidades. Quando não consegue construir uma família, constrói uma corrente. Quando não possui herdeiros de sangue, cria herdeiros políticos. A vocação é a mesma: preservar o comando.
O PT nasceu, diziam seus líderes, para ser diferente. Surgiu no Brasil e, também, no Rio Grande do Norte como uma novidade. Era o partido dos sindicatos, dos professores, dos movimentos populares, das comunidades eclesiais e da militância que sonhava mudar as velhas engrenagens do poder.
Apresentava-se como uma alternativa às oligarquias tradicionais que, durante décadas, dividiram o estado entre sobrenomes conhecidos. A vida política, entretanto, tem um senso de humor que beira a crueldade e, com o passar dos anos, o partido foi formando seus próprios centros de gravidade. Dois nomes acabaram ocupando lugar de destaque na constelação: Fernando Mineiro e Fátima Bezerra.
Mineiro ajudou a construir o partido tijolo por tijolo. Foi dirigente, vereador, deputado estadual e federal e uma espécie de referência permanente para várias gerações de militantes. Fátima veio do movimento sindical dos professores e percorreu uma trajetória rara: deputada estadual, deputada federal, senadora e governadora. Uma carreira longa, consistente e eleitoralmente bem-sucedida. Nada disso é demérito. Ao contrário. A democracia vive justamente da capacidade que algumas lideranças têm de conquistar confiança, reunir apoios e vencer eleições.
O interessante é observar como os partidos, mesmo aqueles que nasceram prometendo renovação permanente, acabam reproduzindo mecanismos antigos.
Foi o sociólogo político Robert Michels quem chamou atenção para esse fenômeno ao formular sua famosa lei de ferro das oligarquias. Para ele, toda organização complexa tende a concentrar poder em grupos dirigentes cada vez mais estáveis. Não importa se o discurso é revolucionário ou conservador. A lógica da organização empurra os mais experientes para o comando e dificulta a ascensão dos novos.
Michels escreveu pensando nos partidos operários da Europa. Se tivesse conhecido o Rio Grande do Norte, talvez acrescentasse algumas notas de rodapé. Porque aqui a política sempre gostou de permanências. Os Alves tiveram sua época. Os Maia tiveram a sua. Os Rosado construíram uma tradição própria em Mossoró. Mudavam os discursos, mas permanecia a tendência humana de organizar o poder em torno de lideranças duradouras.
O PT surgiu criticando esse modelo. E talvez por isso seja tão interessante observar o que aconteceu depois.
Ao longo dos anos, boa parte da vida partidária petista girou em torno dos grupos ligados a Mineiro e a Fátima. As candidaturas mais importantes, as disputas internas, os espaços institucionais e as estratégias eleitorais frequentemente passavam por essas duas referências. Enquanto novas lideranças apareciam, quase sempre precisavam se posicionar em relação a uma delas. Não se trata de uma conspiração nem de um desvio moral e, sim, de um processo político relativamente comum. Quem acumula experiência, mandato, visibilidade e capacidade de articulação tende naturalmente a ampliar sua influência.
As eleições continuam existindo. Os filiados votam, os eleitores escolhem. Tudo ocorre dentro das regras democráticas. Ainda assim, determinados nomes acabam largando sempre alguns passos à frente, porque possuem mais estrutura, mais reconhecimento e mais capacidade de definir os rumos da organização. O resultado é que a renovação se torna mais difícil do que parece.
A política continua sendo uma atividade profundamente humana. E os seres humanos, pelo visto, gostam de repetir certos hábitos. Não existe qualquer parentesco entre o antigo califado islâmico e a seção do partido brasileiro no Rio Grande do Norte. A semelhança está apenas na velha tentação humana de transformar liderança em continuidade e continuidade em poder.
O Rio Grande do Norte mudou muito. Palanques e partidos mudaram. Os discursos também mudaram.
Permanece, todavia, a tendência de organizar a vida pública em torno de lideranças duradouras, capazes de atravessar décadas e influenciar gerações.
Os antigos coronéis talvez não reconhecessem a linguagem das assembleias sindicais, das plenárias partidárias ou dos congressos de militantes. Mas certamente reconheceriam o mecanismo. E talvez sorrissem ao perceber que algumas das oligarquias mais interessantes não nasceram nos alpendres das fazendas nem nos salões das famílias tradicionais. Nasceram justamente entre aqueles que prometeram acabar com elas.
*Professor, pesquisador e escritor
