O conceito de sonho, estendido ao que chamamos de realidade existencial, está na essência dos célebres e proféticos versos de Calderón de la Barca: “La vida es sueño, y los sueños, sueños son”.
Um desses sonhos veio à luz da vigília em 22 de abril de 1500 e hoje é data nacional.
Neste último 22 de abril, quarta-feira passada, vimos Macau também exercer o seu direito de trazer a este lado iluminado da realidade um sonho há tempos alimentado por alguns de seus filhos idealistas, inclusive eu, o sonho da cultura, da criação artística, com impacto social, consolidado agora na criação de um espaço físico a que chamamos ACADEMIA MACAUENSE DE LETRAS E ARTES – AMLA. E esse espaço, em si, já constitui uma verdadeira obra de arte: um prédio centenário, de inegável beleza, cujo padrão estético, embora de traços neoclássicos, faz lembrar a poética leveza arquitetônica da Belle Époque.
Assim, a AMLA nasceu de um sonho, ou do despertar para a realização de um sonho! Não de um sonho qualquer ou sonho particular, desses que sempre nos surgem ao longo dos dias, sob a luz do sol ou das estrelas, mas de um sonho de muitos sonhos, de legítimos e adotivos filhos desta terra, um sonho de muitas vozes, de ontem e de hoje, um sonho sonhado por uma cidade entre o céu e o mar, conhecida, para usar a expressão carinhosa do amigo e poeta Diógenes da Cunha Lima, como “luzeiro de talentos multiformes nas artes e nas letras”.
Aceitando o desafio ético e estético da missão, na perspectiva de acrescentar benefícios ao nosso Município e à região em que ele se insere, um grupo de intelectuais idealistas reuniu-se em 10 de agosto de 2018, período em que se comemorava na cidade a festa de Nossa Senhora dos Navegantes, para pensar e projetar a constituição de uma entidade destinada à preservação e valorização da cultura regional, das artes e das letras. Daí surgiu o indicativo de criação de uma academia de letras e artes.
Finalmente, no dia 6 (seis) de dezembro de 2018, às 19h30min (dezenove horas e trinta minutos), na sede do Lions Clube de Macau, Rio Grande do Norte, situada na rua São José, ratificando o ideário desenvolvido nas reuniões preparatórias informais realizadas em 10/08/2018 e 22/10/2018, nessa mesma cidade, reuniram-se escritores e artistas macauenses, representativos das diversas áreas da produção intelectual – contando, releve-se, com a presença estimulante de muitos outros cidadãos e cidadãs macauenses, inclusive de autoridades locais (como o então prefeito Túlio Bezerra Lemos e ex-prefeitos José Antônio de Menezes e Flávio Vieira Veras) – e ali fundaram a ACADEMIA MACAUENSE DE LETRAS E ARTES – AMLA, associação civil e sem fins lucrativos, com a finalidade de desenvolver, promover e estimular a criação artística e científica, em suas diversas modalidades de expressão, através da literatura, da música, das artes visuais e cênicas, da história e demais ciências.
Nesse evento memorável, que contou com numeroso público (cerca de trezentas pessoas), o prefeito Túlio Lemos, em discurso visionário e firme, garantiu a cessão da Casa do Conde – prédio (hoje público) assim chamado porque construído pela antiga Companhia Comércio e Navegação, na primeira metade do século XX, para hospedar o Conde Pereira Carneiro, dono da grande e próspera empresa salineira, sempre que este viesse a Macau. Com efeito, logo oficializou a promessa, com a Cessão de Uso outorgada através do Decreto nº 2.491, de 28 de dezembro de 2020, publicado no Diário Oficial da Prefeitura Municipal de Macau, edição nº 1.715, de 30/12/2020.
Sensíveis à grandeza do ato foram os prefeitos que o sucederam, José Antônio de Menezes, que negociou com o empresário Jorge Medeiros a restauração do prédio, e Flávia Veras, que acompanhou todo o processo de restauração, até o recebimento de suas chaves, e que logo providenciará a compra do mobiliário e o complemento de alguns serviços, fazendo, afinal, o seu repasse à entidade cessionária e assim completando mais um ciclo deste grandioso sonho da comunidade.
Criei, em latim, para a nossa Academia, um lema que homenageia a nossa querida Ilha: “LUMEN INTER MARE ET CAELUM” (“Lume entre mar e céu”). E em meu pronunciamento público, na solenidade de entrega das chaves do prédio restaurado, recitei esses versos que fiz, dedicados à minha amada terra:
“A MACAU
- Lumen inter mare et caelum
Nada damos a Macau que ela não tenha.
Exceto
o sonho à luz do dia,
movendo-o
de sua realidade onírica
à realidade da vigília.”
(*) Horácio de Paiva Oliveira – Poeta, escritor, advogado, membro do Instituto Histórico e Geográfico do RN, da União Brasileira de Escritores do RN e presidente da Academia Macauense de Letras e Artes – AMLA.
