Por Fernanda Sabino
Quatro anos depois de se tornar a primeira mulher eleita governadora do Rio Grande do Norte, Wilma de Faria voltou às urnas em 2006 para tentar renovar o mandato. A disputa colocou frente a frente duas das principais lideranças políticas do Estado naquele momento e teve uma particularidade até então inédita entre os potiguares: pela primeira vez, uma eleição para o Governo do RN precisou ser decidida no segundo turno.
Wilma, do PSB, disputava a reeleição ao lado de Iberê Ferreira de Souza. Do outro lado estava Garibaldi Alves Filho (PMDB), que havia governado o Estado por dois mandatos, entre 1995 e 2002, e exercia mandato de senador. O candidato a vice era o então deputado federal Ney Lopes (PFL).
O equilíbrio apareceu já no primeiro turno, realizado em 1º de outubro. Wilma recebeu 764.016 votos, equivalentes a 49,58% dos válidos, ficando a menos de meio ponto percentual da vitória.
Garibaldi alcançou 749.003 votos, ou 48,60%. A diferença entre os dois foi de apenas 15.013 votos.
Outros quatro candidatos completaram a disputa. Sandro Pimentel (PSOL) recebeu 14.172 votos (0,92%); José Geraldo Fernandes (PSL), 5.907 (0,38%); Humberto Silva (PTC), 5.582 (0,36%); e Antônio José Bezerra (PCB), 2.470 (0,16%). Com nenhum candidato alcançando a maioria absoluta dos votos válidos, a decisão ficou para 29 de outubro.

Primeiro segundo turno
Wilma e Garibaldi voltaram às urnas quatro semanas depois, inaugurando uma situação até então inédita no Rio Grande do Norte: desde que o sistema de dois turnos passou a vigorar, nenhuma disputa pelo Governo do Estado havia chegado à segunda votação.
O segundo turno trouxe uma particularidade nos números. Wilma passou de 764.016 para 824.101 votos, conquistando pouco mais de 60 mil novos eleitores. Garibaldi, por outro lado, praticamente repetiu o desempenho da primeira votação: saiu de 749.003 para 749.172, acréscimo de apenas 169 votos.
Ao final, Wilma venceu com 52,38% dos votos válidos, contra 47,62% de Garibaldi. Foram 824.101 votos para a governadora e 749.172 para o adversário, uma diferença de 74.929 votos. O resultado garantiu mais quatro anos no cargo e fez de Wilma a primeira mulher reeleita governadora do Rio Grande do Norte.
A vantagem também apareceu na distribuição territorial. No segundo turno, Wilma venceu em 115 dos 167 municípios potiguares, enquanto Garibaldi ficou à frente em 52.
A escolha de Ney
Vinte anos depois daquela disputa, Ney Lopes relembrou, em entrevista ao Diário do RN, os bastidores da eleição de 2006, quando integrou como candidato a vice a chapa de Garibaldi Alves Filho. À época deputado federal pelo PFL, ele conta que sua chegada à composição ocorreu depois de outros nomes terem sido considerados para a vaga.
“Em 2006, eu fui candidato a vice-governador com Garibaldi por acaso”, resume.
Segundo Ney, inicialmente o nome indicado para vice era o do deputado estadual Getúlio Rêgo. A composição, no entanto, encontrou resistência dentro do próprio grupo político. “Getúlio Rêgo tinha um atrito em Umarizal com o deputado Zé Dias, que é da família do senador Garibaldi, e Zé Dias vetou Getúlio”, relatou.
Depois, José Adécio (PFL) também chegou a ser cogitado, mas uma nova divergência dificultou a indicação. “Outra dificuldade foi que José Adécio era inimigo do pai de Garibaldi”, explicou Ney ao Diário do RN.
Foi nesse contexto que seu nome passou a ser considerado. Ney também relaciona a escolha às articulações internas do PFL naquele ano, quando José Agripino Maia buscava fortalecer a candidatura do filho, Felipe Maia, à Câmara dos Deputados.
“Dentro desse contexto, o meu nome foi indicado”, relembrou ao Diário do RN.
A composição reunia PMDB e PFL em torno da candidatura de Garibaldi. A coligação Vontade Popular, porém, contou ainda com PP, PSDB, PTN, PRP e PV. Wilma, por sua vez, liderava a Vitória do Povo, formada por PSB, PTB, PT, PL, PPS, PCdoB, PHS, PMN e PTdoB.

Disputa acirrada
Ao Diário do RN, Ney definiu o segundo turno como uma etapa especialmente difícil da campanha e apontou o apoio do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva como um dos fatores que contribuíram para o crescimento de Wilma na reta final da disputa. Na avaliação dele, a influência do Governo Federal teve peso no desfecho da eleição.
“O segundo turno foi uma luta muito acirrada, muito difícil. Lula teve uma participação muito grande no apoio a Wilma. Ela dispôs de recursos federais e pôde ampliar sua base de assistencialismo. A recordação que tenho é de uma disputa que terminou decidida, sobretudo, pela influência do Governo Federal”, afirmou Ney.
Um episódio na memória
Entre as lembranças que Ney guarda da campanha, uma ocorreu durante um debate promovido pela Federação do Comércio. Segundo ele, Garibaldi o havia credenciado para representar a chapa no evento, mas, ao chegar ao local, foi impedido de entrar.
“Garibaldi me credenciou, como eu era deputado federal e candidato a vice, para ir ao debate, para participar do debate. Chegando lá, fui barrado na porta”, relatou.
Ney afirma não guardar ressentimento, mas considera que o episódio merece ser lembrado. “Eu baixei a cabeça, saí e voltei”, recordou ao Diário do RN.
Apesar de ter estado no palanque adversário, duas décadas depois Ney faz uma avaliação elogiosa da trajetória de Wilma. Ao recordar o resultado de 2006, ele destaca a força política alcançada pela então governadora e reconhece o significado daquela vitória.
“A eleição de 2006 consolidou a liderança da governadora Wilma de Faria. Ela, inegavelmente, foi uma mulher que deixou uma marca de luta muito grande na política do Rio Grande do Norte”, afirmou.
Ney também presta uma homenagem à antiga adversária ao avaliar sua trajetória política. “Wilma foi uma pessoa que merece todas as homenagens póstumas pelas suas atitudes de grandeza e firmeza”, acrescentou.
Wilma permaneceu à frente do Governo até abril de 2010, quando deixou o cargo para disputar uma vaga no Senado. Mais tarde, retornou à política municipal de Natal, onde exerceu os cargos de vice-prefeita e vereadora. Morreu em 15 de junho de 2017, aos 72 anos, vítima de um câncer.
Senado e proporcionais
A eleição de 2006 também renovou a representação potiguar no Congresso. Na disputa pelo Senado, Rosalba Ciarlini (PFL) foi eleita com 645.869 votos, ou 44,18%. Fernando Bezerra (PTB) ficou logo atrás, com 634.738 votos (43,42%), enquanto Geraldo Melo (PSDB) alcançou 155.608 (10,65%). Paulinho Freire integrou, como segundo suplente, a chapa de Fernando Bezerra.
Para a Câmara dos Deputados, Fábio Faria foi o mais votado, com 195.148 votos, seguido por João Maia, com 193.296. Também foram eleitos Henrique Eduardo Alves, Rogério Marinho, Felipe Maia, Fátima Bezerra, Nélio Dias e Sandra Rosado.
Na Assembleia Legislativa, Robinson Faria liderou a votação, com 70.782 votos. Entre os 24 eleitos estavam ainda Walter Alves, Márcia Maia, Álvaro Dias, Ricardo Motta, Ezequiel Ferreira, Lavoisier Maia, Nelter Queiroz, Getúlio Rêgo e Fernando Mineiro.

