Uma cena se repete no Brasil com a fidelidade das marés. Não importa quem ocupe o palco, tampouco quem comprou ingresso para a torcida.
Numa mesa de bar, dessas onde o cerveja chega antes da opinião, um sujeito golpeava o tampo com o dedo: “Agora acabou. Esse escândalo liquida o homem.” Referia-se ao presidente da república. O companheiro ao lado concordava com a solenidade dos profetas. Pareciam dois promotores da República. Alguns dias depois, encontrei a mesma dupla, no mesmo lugar. A notícia da vez envolvia um dos sobrenomes mais conhecidos da oposição. Curiosamente, os dois haviam descoberto uma virtude nova: a prudência. “É preciso esperar as investigações”, disseram, como quem acabara de ler Montesquieu no intervalo do almoço.
Não demorou muito para assistir ao espetáculo contrário. Na mesa vizinha, os defensores apaixonados do governo exigiam cadeia, confisco e exílio quando o escândalo atingia os adversários. Mas, bastou a fumaça rondar o próprio quintal para que surgisse uma súbita confiança nas instituições, na presunção de inocência e nos perigos do julgamento precipitado.
O Brasil talvez não padeça apenas de corrupção e, sim, de uma estranha economia moral. Cada cidadão distribui sua indignação como um comerciante distribui fiado: concede crédito apenas aos amigos. A bússola ética, que deveria apontar para o norte, resolveu filiar-se a partidos, girando conforme o vento das conveniências. O mesmo fato muda de peso segundo a posição ideológica do acusado. A mesma manchete recebe aplausos ou vaias de acordo com a cor da bandeira hasteada na varanda.
Balzac, que conhecia as vaidades humanas como um relojoeiro conhece as engrenagens, sorriria diante do Brasil. Provavelmente enxergasse nesse espetáculo deprimente apenas mais um capítulo da velha comédia humana, conforme o fez em Ilusões Perdidas e O Pai Goriot, mostrando que a hipocrisia raramente se apresenta como vício; quase sempre ela se veste com a respeitável roupa da virtude.
Mudam os personagens, mudam os regimes, mas a conveniência continua sendo a mais influente das ideologias. Aqui a virtude tem militância. Não basta ser honesto; é preciso ser honesto do lado certo. O pecador adversário é um monstro. O pecador doméstico é vítima de perseguição, de narrativas, de interesses ocultos ou de algum complô cuidadosamente fabricado na oficina da imaginação. Quase ninguém parece realmente interessado na moral. O interesse está no placar. A corrupção virou esporte de arquibancada e o torcedor não deseja um campeonato limpo. O seu interesse é apenas que o juiz expulse os jogadores do outro time.
O Brasil segue firme no caminho da desordem, com cada grupo carregando seu bandido como quem leva um papagaio no ombro: alimenta-o, acarinha-o, justifica seus gritos e garante aos vizinhos que, apesar da aparência, é um animal de excelente caráter.
É, entre outras coisa, por isso que a política brasileira produza tão poucos estadistas e tantos messias.
Os primeiros exigem cidadãos; os segundos contentam-se com fiéis. E assim a República vai atravessando a rua com a elegância de uma senhora antiga, desviando das poças de lama. Assim procede não porque a lama seja pouca, mas porque já se acostumou a vê-la espalhada dos dois lados da calçada.
Historiador
