O tempo, um senhor que não perdoa os esquecidos, tem o estranho hábito de rimar as histórias do poder. Quem percorreu, como eu, as veredas do Rio Grande do Norte neste 2025 que terminou, seja pelo asfalto quente ou pelas conversas de calçada, certamente esbarrou em um nome que se repete como um mantra de esperança ou de espanto: Allyson Bezerra. O fenômeno não é estranho aos olhos de quem guarda a memória política no bolso da camisa. Há um perfume de 1988-89 no ar, aquele cheiro de pólvora e novidade que cercava um jovem governador das Alagoas chamado Fernando Collor de Mello.
As semelhanças não são meros acasos de biografia; são traços de uma mesma estética da conquista. Collor, o Caçador de Marajás, e Allyson, o Pobre de Mossoró, operam na mesma frequência da ambição indomada. Ambos compreenderam, cada um em seu tempo e nos limites geográficos, que o povo busca um administrador e também e acima de tudo um herói que fale a língua do seu tempo. Collor usava as camisetas de dizeres impactantes e o jet-ski; Allyson usa o chapéu de couro e a onipresença digital. É a política do gesto, na qual a imagem precede o projeto.
Na crônica política, o surgimento de Allyson como preferido espontâneo ao governo do Rio Grande do Norte guarda o mesmo DNA da ascensão de Collor ao Palácio Planalto.
Em 1988, o Brasil saía de uma transição longa, cansado de rostos carimbados e da inflação galopante. Collor surgiu como o “novo”, o jovem de fala rápida e olhar fixo que prometia moralizar a República com uma canetada. Allyson, guardadas as devidas proporções, ocupa hoje esse vácuo de liderança. Enquanto as oligarquias potiguares se digladiam em métodos do século passado, o prefeito de Mossoró circula pelo estado com a agilidade de quem não pede licença, apenas passagem.
Há neles – em Collor e em Allyson – a mesma lábia, aquela oratória que não se perde em tecnicismos e que atinge o fígado do eleitor. Eles transformam a juventude em um salvo-conduto para a audácia. A caminhada majoritária de ambos é marcada por um pretenso enfrentamento frontal ao status quo. Collor desafiou os barões da política nacional, ridicularizando o que chamava de velha guarda. Allyson faz o mesmo ao descer de Mossoró para os sertões do Seridó e para o litoral de Natal e região metropolitana. Ele não espera a benção dos palácios; ele vai buscar a legitimação no “chão da fábrica”, no abraço suado, na estética do homem comum que venceu pelo esforço.
Contudo, a história também serve de advertência. A política exige mais do que carisma para sustentar o edifício do poder. Se Collor galopou na crina da opinião pública até chegar à Presidência, também sentiu o peso da solidão institucional quando as câmeras se apagaram. O desafio de Allyson, ao mirar a governadoria em 2026, será provar que seu fenômeno não é apenas uma reação ao cansaço coletivo, mas uma construção sólida capaz de suportar as tempestades de um estado em crise fiscal crônica.
Ver o povo pronunciar o nome de Allyson espontaneamente é observar a repetição de um surto/ciclo de esperança messiânica. O potiguar, assim como o brasileiro de 1988-89, parece seduzido pela ideia de que a juventude, por si só, é o antídoto para os vícios da gestão pública. É uma aposta alta, um jogo de tudo ou nada que Collor jogou com maestria até o limite.
Allyson Bezerra caminha hoje sob os holofotes que um dia iluminaram o jovem político egresso de um clã oligarca do Nordeste. São espelhos de tempos diferentes, refletindo a mesma sede de poder e a mesma capacidade de encantar as massas. Resta saber se, ao fim da jornada, a crônica de Allyson será escrita como uma renovação duradoura ou apenas como mais um capítulo de um populismo que brilha intensamente, mas se consome na própria chama.
O fato é que o Rio Grande do Norte assiste, entre o fascínio e a cautela, ao ensaio de uma nova era. E, na política potiguar, o amanhã é sempre um território estrangeiro.
