Por Elane Nascimento
O mês de setembro marca mais uma edição da campanha Setembro Amarelo, movimento nacional de conscientização sobre a prevenção ao suicídio e a valorização da vida. Em 2026, o tema escolhido pelo Centro de Valorização da Vida (CVV) é “Escutar é estar presente”, destacando a importância da escuta acolhedora, empática e sem julgamentos para pessoas que enfrentam sofrimento emocional.
A campanha integra o lema global “Mudar a Narrativa”, adotado para o período de 2024 a 2026, incentivando conversas abertas e seguras sobre saúde mental. O Dia Mundial de Prevenção do Suicídio é celebrado em 10 de setembro.
Para o médico psiquiatra Hugo Saily, iniciativas como o Setembro Amarelo são fundamentais para combater o preconceito em torno das doenças mentais e estimular as pessoas a procurarem ajuda.
“A campanha do Setembro Amarelo é fundamental para que a gente perca o medo e vá aprendendo a lidar com essas situações tão difíceis, que é uma emergência médica, quando a gente pensa no risco de suicídio, numa depressão tão grave que leve alguém a perder esse tipo de pensamento de morte”, declarou.
Um dado recente revelou uma estatística preocupante: Quase 12% da população natalense apresenta algum quadro depressivo. O maior índice entre as capitais do Nordeste, segundo o psiquiatra.
“Hoje, Natal é a capital do Nordeste com maior índice de pessoas com depressão. Antes a gente era o segundo lugar, perdia para Recife, mas infelizmente hoje estamos na liderança em prevalência da população com depressão. Chega a quase 12% da nossa população, o que representa mais de 200 mil pessoas com depressão em Natal. É muita gente mesmo”, esclareceu.
Segundo o especialista, a sociedade precisa compreender que depressão e risco de suicídio são doenças que exigem tratamento, assim como qualquer outra enfermidade.
“Quando a gente faz uma campanha como essa, a gente está diminuindo o medo das pessoas, o preconceito contra as doenças mentais e o foco é mostrar que a depressão e risco de suicídio são doenças. E como a hipertensão é doença, a gente vai no cardiologista, a pneumologia trata as doenças do pulmão, a depressão e o risco de suicídio são doenças da mente, então a gente precisa de uma equipe multidisciplinar para tratar de forma farmacológica, psicoterápica e tantas outras medidas para tratar esse tipo de doença e hoje cada vez mais a gente tem sucesso nesse tratamento”, explicou.
Hugo Saily afirma que ainda existe uma barreira cultural que impede muitas pessoas de procurar atendimento especializado, mas ressalta que esse cenário precisa mudar.
“Então é uma campanha como a de setembro amarelo ela é fundamental para derrubar esses tabus e aí a gente perder essa última barreira que eu vejo na medicina como um todo das pessoas ainda não procurarem uma assistência médica adequada quando a gente de fato está tratando de doenças tão comuns. Eu lembro que antigamente você, por exemplo, não podia operar o coração.
Os primeiros cirurgiões cardíacos foram excomungados pela igreja porque o coração era considerado o local da alma. Hoje ninguém questiona mais se deve fazer uma cirurgia cardíaca quando há indicação porque, se não fizer, a pessoa pode morrer. Para depressão e suicídio é da mesma forma. Se a gente não trata quem tem necessidade, mais e mais pessoas vão continuar morrendo”, afirmou.

Escutar sem julgar pode salvar vidas
O tema escolhido para a campanha deste ano reforça justamente a importância da escuta como primeiro passo para acolher quem enfrenta sofrimento emocional.
Segundo Hugo Saily, familiares e amigos não precisam ter todas as respostas, mas podem oferecer apoio por meio da presença e da escuta.
“E aí o que é que você pode fazer se você passa por uma situação como essa de uma depressão grave, um pensamento suicida ou algum parente, alguma pessoa querida sua? É você emprestar seu ouvido de uma maneira muito isenta, sem julgamento. Você pode não concordar, você pode achar que é frescura. No final das contas, se você só pode oferecer sua ajuda e se não quiser ajudar, não souber como, fique calado. De fato, só empreste seu ouvido porque quando a pessoa que está no sofrimento intenso se sente validada, acolhida naquela dor dela, você já está fazendo um bem enorme”, orientou.
O médico reforça que, além da escuta, é indispensável buscar atendimento profissional o mais rapidamente possível.
“E o segundo passo é procure ajuda. Lembre: depressão e suicídio são emergências médicas quando são graves. Você não deixa alguém que está com início de infarto ficar em casa, você leva para a urgência. Alguém com risco de suicídio, da mesma forma, tem que ter um acompanhamento médico e psicológico o mais breve possível. O foco é mostrar: eu posso não entender ou não concordar com o que você está passando, mas existe esperança. Vamos buscar o tratamento para você melhorar”, disse.
Hugo Saily também destacou os avanços da psiquiatria no tratamento dos casos mais graves de depressão.
“E hoje a gente foca muito nos tratamentos mais atuais, por exemplo, o tratamento com escetamina. Ela é uma medicação que se faz em hospital, em uma sessão de duas horas, e a pessoa entra muito mal, deprimida, pensando em morrer, e sai da sessão feliz, tranquila. A gente chegou nesse nível de avanço científico”, explicou.
O psiquiatra comparou a evolução da psiquiatria ao avanço obtido em outras áreas da medicina.
“Assim como crianças que descobriam diabetes tipo 1 há um século morriam porque não existia insulina, hoje elas vivem plenamente graças ao tratamento. Pessoas com depressão grave e risco de suicídio também podem e devem ter uma vida plena e feliz, mas precisam de ajuda profissional. Esse medo de procurar um psiquiatra por achar que é coisa de doido é coisa do passado. Todo mundo, ao longo da vida, está sujeito a ter um episódio depressivo. Sabendo que um dia pode ser a gente, a gente vai ajudar quem está ao nosso lado”, afirmou.
Pessoas que enfrentam sofrimento emocional ou pensamentos suicidas podem procurar atendimento nas unidades de saúde, nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), em serviços de urgência e emergência ou entrar em contato com o Centro de Valorização da Vida (CVV), que oferece apoio emocional gratuito e sigiloso por telefone, chat, e-mail e atendimento presencial em diversas cidades do país. O atendimento pelo telefone 188 funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana.

