Por Elane Nascimento
O caso de uma adolescente de 16 anos que morreu em Mossoró após uma situação de sofrimento relacionada ao ambiente escolar trouxe novamente ao debate a importância do combate ao bullying e da atenção à saúde mental dos jovens.
A adolescente, que possuía vitiligo, uma doença de pele crônica e não contagiosa, teria relatado à família dificuldades enfrentadas dentro do Colégio Diocesano Santa Luzia, além de tristeza, crises de ansiedade e sentimento de isolamento. Em mensagens enviadas à mãe, a jovem pediu para não frequentar mais o ambiente escolar e afirmou que não se sentia bem no local.
“Mãe, deixa eu faltar, por favor, eu não me sinto bem na escola, eu fico chorando o tempo todo. Eu fico com vergonha, eu não consigo parar de chorar, fica todo mundo me olhando”, escreveu a adolescente em uma das mensagens.
Em outro momento, ela relatou dificuldades emocionais e disse: “Eu só queria sair daqui logo”.
As provocações foram tantas que chegou ao ponto em que a menina não suportou mais e acabou tirando a própria vida.
Após a repercussão do caso, familiares e ex-alunos passaram a compartilhar relatos nas redes sociais sobre outras situações de bullying envolvendo estudantes do Colégio Diocesano Santa Luzia, em Mossoró.
Um familiar da adolescente afirmou que pretende buscar esclarecimentos na Justiça e pediu que outras pessoas compartilhassem relatos que pudessem ajudar a compreender o que teria acontecido. “Sou o primo de ***, vítima de bullying na escola Diocesano, Mossoró-RN. Vamos levar isso à justiça, e eu preciso da ajuda de todos vocês nisso. Me mandem relatos, caso ela tenha citado os nomes das pessoas, desabafos dela, tudo ajuda, por favor”, relatou um familiar na rede social X.
Psicóloga alerta para sinais de sofrimento entre adolescentes
Para a psicóloga Débora Sampaio, situações envolvendo suicídio entre adolescentes exigem cuidado, acolhimento e uma análise ampla, sem julgamentos precipitados.
“Uma morte por suicídio deixa muita dor, muitas perguntas sem respostas, sentimento de culpa e impotência entre todos aqueles que amavam esse adolescente”, afirmou.
Segundo a profissional, o suicídio é um fenômeno complexo e não pode ser explicado por uma única causa ou por um único acontecimento.
“A gente precisa entender que o suicídio é um fenômeno complexo, multifatorial, que não existe uma única causa, uma única conversa ou uma única pessoa que possa explicar uma morte como essa”, destacou.
A psicóloga ressaltou ainda que familiares, escolas e a sociedade precisam estar atentos aos sinais apresentados pelos adolescentes.
“Quando um adolescente diz que não está bem, que está se sentindo sozinho, que não está conseguindo dormir, que está ansioso, que não consegue frequentar determinado ambiente ou que já não suporta alguma situação, a gente precisa tentar compreender o que aquela fala está comunicando”, explicou.
Débora destacou que o sofrimento emocional nem sempre aparece de forma clara e pode ser percebido por mudanças de comportamento.
“Às vezes isso vai aparecendo assim, nas faltas na escola, em uma mudança de comportamento, no isolamento, na irritabilidade, na queda do rendimento ou no afastamento das pessoas e até das atividades que ele gostava”, afirmou.
Para a psicóloga, é necessário abandonar a ideia de que o sofrimento dos jovens é apenas uma fase ou exagero.
“A gente ainda comete o erro de chamar esse sofrimento do adolescente de exagero, drama, preguiça, falta de vontade ou coisa da aborrecência”, disse.
Ela reforçou que validar a dor de um adolescente não significa concordar com tudo, mas reconhecer o sofrimento e oferecer apoio.
“Validar é a gente poder dizer: eu não compreendo tudo que você está sentindo, mas eu reconheço que isso está sendo muito difícil para você. Eu acredito no seu sofrimento e eu estou do seu lado para lhe ajudar”, explicou.

“Eu fui aluna do Diocesano e desde minha época já era alastrado o bullying e a omissão da escola”
Além do caso envolvendo a adolescente, outros estudantes e familiares relataram nas redes sociais possíveis episódios de intolerância e violência entre alunos da instituição.
Entre os relatos divulgados, há a denúncia de que um estudante com Transtorno do Espectro Autista (TEA) teria sido vítima de agressões praticadas por colegas, com registro em vídeo. O caso também passou a circular nas redes sociais e gerou manifestações de pessoas que afirmam ter estudado na instituição.
Ex-alunos também relataram experiências relacionadas ao bullying.
“Meus três anos no Diocesano foram implorando para coordenação se importar com bullying e ultimamente tem acontecido tanta coisa naquela escola que parece que eu estava prevendo que ia piorar muito”, escreveu uma ex-aluna.
Outra ex-estudante afirmou: “Eu fui aluna do Diocesano e desde minha época já era alastrado o bullying e a omissão da escola. Os casos vêm se repetindo todos os anos e nada é feito e nenhuma medida é tomada”.
Uma mãe de alunos também relatou preocupação com a situação.
“Meus filhos estudam nessa escola, posso confirmar que acontecem casos de bullying com frequência e a escola se omite sim”, afirmou.
Em maio, um vídeo compartilhado nas redes sociais ganhou ampla repercussão. Nas imagens, alunos da instituição aparecem humilhando e proferindo ofensas de cunho racista contra um menino que vendia paçoca em um sinal no bairro Nova Betânia. Nas imagens, é possível ver o momento em que os jovens fingem comprar os produtos e derrubam parte deles no chão.
A Polícia Civil do Rio Grande do Norte, por meio da Delegacia Especializada em Atendimento ao Adolescente Infrator (DEA), identificou e ouviu os adolescentes envolvidos. O ato foi classificado como análogo ao crime de injúria racial.
O caso foi encaminhado ao Poder Judiciário (Vara da Infância e da Juventude) e ao Ministério Público do Rio Grande do Norte (MPRN) para as providências legais cabíveis. O adolescente que dirigia o veículo também foi responsabilizado por dirigir sem CNH.
Escola foi procurada pelo Diário do RN e silenciou
A psicóloga Débora Sampaio reforça que a prevenção passa pela construção de uma rede de apoio capaz de acolher os adolescentes.
“Famílias e escolas não precisam ter todas as respostas, mas precisam formar uma rede capaz de escutar, acolher, compartilhar preocupações e buscar ajuda profissional quando é necessário”, afirmou.
Segundo ela, o caminho passa pela atenção aos sinais e pela disponibilidade para ouvir.
“Talvez a gente não possa antecipar todos os desfechos, mas a gente pode estar mais atentos aos sinais, mais disponíveis para escutar e mais preparados para intervir”, concluiu.
A reportagem do Diário do RN procurou o Colégio Diocesano Santa Luzia, em Mossoró, para solicitar um posicionamento sobre os relatos e as denúncias divulgadas.
O contato foi realizado pelo telefone disponibilizado pela instituição. Inicialmente, a equipe foi direcionada para o atendimento via WhatsApp. Após a tentativa de contato com os setores indicados pela assistente virtual da escola, não houve retorno da instituição até o fechamento desta matéria.

