Por Wagner Guerra
A rotina da mãe moderna, durante a criação dos filhos ao longo da vida, exige muitos compromissos. Não são raras as vezes em que parece uma missão impossível conciliar todos esses papéis, principalmente quando a profissão envolve julgar situações delicadas, como violência doméstica, ações de guarda, alimentos, visitas e dissolução conjugal. Pelo menos é esse o caso de quem trabalha no Poder Judiciário, sobretudo nas Varas de Família.
Uma dessas pessoas é a juíza Fátima Soares, que acumula 32 anos de magistratura, dos quais 17 foram dedicados à Vara de Família, na Comarca de Natal – uma área extremamente sensível e humana, que exige não apenas conhecimento jurídico, mas também equilíbrio, escuta e sensibilidade social.
Ao longo da trajetória, ela sempre entendeu que ser mãe e magistrada são dois propósitos profundamente ligados ao cuidado, à responsabilidade e ao compromisso humano.
Evidentemente, surgiram desafios, sobretudo na administração do tempo e das emoções, mas Fátima procurou viver ambas as funções com dedicação, equilíbrio e amor. “A magistratura exige firmeza; a maternidade, acolhimento. Aprendi que é possível exercer ambas com harmonia”, disse.
Fátima lembra que sempre incentivou seus filhos a estudarem, buscarem independência e realizarem-se profissionalmente naquilo que os fizessem felizes. Naturalmente, por conviverem em um ambiente jurídico, o filho mais velho teve proximidade com a área do Direito. Contudo, frisou a magistrada, nunca houve imposição. “Entendo que cada pessoa deve encontrar sua própria vocação”.
O primogênito, Isaac, foi o único a seguir a carreira da mãe. Inicialmente, exerceu por quatro anos, o cargo de Juiz de Direito em Goiás. Depois, fez concurso para a magistratura em Sergipe e por lá permaneceu por quase 11 anos. Atualmente, é Juiz de Direito em Caicó, titular da 3ª Vara.
Já o filho do meio, Felipe, trilhou os passos do pai e do avô materno. Tornou-se bacharel em Contabilidade, mas desempenha as atividades de empresário, no ramo de medicamentos. Quanto à caçula, Sara Isabella, é bacharel em Publicidade, Gastronomia e Especialista em Gestão de Empresas e Negócios pela USP/SP. Atualmente, executa a profissão de empresária, no ramo de consultoria internacional.
Mesmo sendo uma mãe presente e dedicada, a administração do tempo nunca foi simples para Fátima. “A magistratura exige muito, especialmente em Varas de Família, onde lidamos, diariamente, com conflitos emocionais intensos. Procurei, contudo, estabelecer prioridades, reservar momentos de qualidade para a família e compreender que presença afetiva muitas vezes vale mais que quantidade de tempo. Organização, apoio familiar e equilíbrio emocional foram fundamentais”, relatou a juíza.

Desafios da carreira
Diante das nuances da conciliação do papel de mãe com a carreira no Poder Judiciário potiguar, a juíza Fátima Soares destaca não só a responsabilidade com ambas, mas também sensibilidade e as exigências peculiares.
Atualmente, as Varas de Família enfrentam desafios muito complexos. São conflitos cada vez mais judicializados, relações familiares fragilizadas e, muitas vezes, profundas desigualdades econômicas e emocionais entre as partes. Segundo a magistrada, as mulheres ainda enfrentam dificuldades significativas, especialmente em questões relacionadas à sobrecarga materna, violência psicológica, dependência financeira e descumprimento de obrigações alimentares. Para ela, o grande desafio do Judiciário é assegurar proteção integral sem perder de vista a imparcialidade e o melhor interesse das crianças e adolescentes.
De acordo com Fátima, situações de ocultação patrimonial e inadimplência alimentar ainda são relativamente frequentes nas Varas de Família. Em muitos casos, frisou, percebe-se que tais condutas ultrapassam a mera questão financeira e acabam funcionando como formas de manutenção de poder, controle emocional ou retaliação após o término da relação. “O Judiciário tem buscado mecanismos mais eficazes para coibir essas práticas e garantir a efetividade das decisões judiciais”.
Outro tema extremamente delicado e que exige análise cuidadosa caso a caso é a alienação parental. Para a magistrada, é importante evitar generalizações. “Existem situações reais de alienação parental, assim como também há casos em que alegações são utilizadas de forma estratégica em disputas familiares. Por isso, o magistrado precisa atuar com extrema cautela, ouvindo equipes interdisciplinares, analisando provas e priorizando sempre a proteção integral da criança e do adolescente”, explicou.
Muitas vezes, as mulheres enfrentam revitimização nos tribunais, onde estereótipos de gênero influenciam decisões, ignorando o contexto de desigualdade. Nesse sentido, a magistrada potiguar reconhece essa realidade como sendo uma preocupação legítima e que precisa ser constantemente enfrentada pelo sistema de justiça. Apesar do Poder Judiciário brasileiro estar evoluindo nesse debate, especialmente com maior conscientização acerca dos estereótipos de gênero, Fátima observa que, ainda assim, é necessário permanente capacitação e sensibilidade institucional. Quanto aos movimentos contemporâneos, que reforçam discursos de intolerância ou de antagonismo entre homens e mulheres, a juíza entende que o caminho mais saudável continua sendo o diálogo, o respeito mútuo e a construção de relações baseadas na dignidade humana e na igualdade de direitos.
Frequentemente, mulheres que possuem medidas protetivas também buscam no Juízo de Família soluções relacionadas aos filhos e à reorganização familiar. Na percepção de Fátima, trata-se de uma realidade presente em diversos estados brasileiros, inclusive no Rio Grande do Norte. “Isso demonstra como violência doméstica e conflitos familiares muitas vezes caminham interligados, exigindo atuação articulada e humanizada do sistema de justiça”.

