JORGE LUIZ DA SILVA DE ASSIS: A PINTURA COMO MEMÓRIA AFETIVA DO SERIDÓ
O NASCIMENTO DE UM OLHAR
Há artistas que encontram a arte, outros parecem nascer com ela. Jorge Luiz pertence a este segundo grupo. Nascido em 2 de março de 1997, em Cerro Corá, no Seridó Potiguar, carrega em sua trajetória uma relação visceral com o ato de criar. Filho de Francisca Sandra Silva de Assis e Luiz Bernardo de Assis. Desde criança, enquanto muitos se entregavam às brincadeiras convencionais da infância, ele já demonstrava uma inclinação silenciosa, porém profunda, para o desenho e a observação.
O gesto de trocar a bola por um graveto ou por um lápis pode parecer trivial, mas revela algo maior, a formação precoce de um olhar sensível. E é justamente desse olhar que nasce sua produção artística.
Sua obra é resultado não apenas de técnica, mas de percepção, memória e pertencimento.
O TERRITÓRIO COMO LINGUAGEM
Sendo autodidata, Jorge Luiz construiu sua trajetória fora dos circuitos acadêmicos tradicionais, desenvolvendo sua linguagem a partir da prática, da observação e da insistência. Sua escola inicial foi o próprio cotidiano. Aprendeu vendo, errando, refazendo e, sobretudo, sentindo.
Seu principal tema é o Seridó, não como mera paisagem geográfica, mas como território simbólico. As serras, as casas coloridas, as igrejas, o calor humano, a religiosidade popular e o labor cotidiano aparecem em suas telas como signos de identidade. Sua pintura não documenta apenas lugares, ela registra afetos.
Há em sua obra uma forte dimensão de memória. Cada pincelada parece carregada de vivências pessoais e coletivas, como se a tela se tornasse um arquivo sensível da cultura seridoense.
A FORÇA ESTÉTICA DAS OBRAS


Na tela “Saberes” (2024), acrílica sobre tela, 50 x 70 cm, Jorge apresenta uma das imagens mais potentes de sua produção. A mulher diante da máquina de costura não é apenas personagem, ela se transforma em símbolo da resistência feminina sertaneja. O enquadramento frontal, a concentração da figura e a expressividade das mãos reforçam a narrativa de trabalho, dignidade e afeto.
Esteticamente, a obra dialoga com o realismo contemporâneo figurativo, com forte atenção ao volume, à luz e às texturas. A anatomia é bem resolvida e a paleta cromática terrosa reforça a atmosfera intimista. Há também elementos de realismo social, pela valorização do trabalhador comum como centro poético da composição.
Já em “Acari” (2024), acrílica sobre tela, 70 x 100 cm, uma releitura da obra de Assis Costa, Jorge transita para outra abordagem visual. A composição urbana de uma cidade representativa, cercada pela paisagem serrana, adquire caráter quase cartográfico, afetivo e celebratório. A perspectiva é livre, não acadêmica, o que aproxima a obra da arte naïf e da arte popular brasileira.
As cores vibrantes, o desenho limpo e a organização espacial conferem à tela uma estética narrativa.
Aqui, a fidelidade fotográfica perde importância diante da fidelidade emocional. O artista pinta menos o que vê e mais o que sente sobre seu lugar.
ARTE COMO MISSÃO
Em 2024, ao expor na Pinacoteca Potiguar, Jorge Luiz alcançou um marco significativo em sua trajetória, inserindo-se em um espaço de legitimação artística ao lado de nomes consolidados. Contudo, seu maior mérito talvez esteja em não perder a essência.
Sua pintura preserva uma honestidade rara. Não busca sofisticação vazia nem experimentalismos descolados da realidade. Sua força está justamente em transformar memória em imagem.
Jorge Luiz pinta como quem resiste ao esquecimento. E talvez esta seja a maior função de sua arte, eternizar a alma do Seridó em cores, formas e afetos.

