Por Elane Nascimento
O que te impede de realizar os seus sonhos? Para Iracema Morais, 91 anos, nada é capaz de frustrar o desejo de alcançar os seus planos. No próximo dia 28 de agosto, ela participa da formatura de conclusão do ensino médio.
Iracema conta que sempre quis estudar. Filha única, o pai sentia medo de mandá-la para a escola.
“Eu tinha vontade de estudar. Muita vontade mesmo. Pelejei muito. Com 10 anos, eu entrei na escola, lá em Areia Branca, mas eu era filha única e meu pai tinha medo que acontecesse alguma coisa. Não me deixava ir para a casa de ninguém, nem para escola. Só consegui estudar até a quarta série”, conta.
Quando perguntava ao pai sobre a volta às aulas, a resposta sempre era a mesma: “você já sabe ler e escrever, já sabe demais”.
“Quando eu via fotografia de formatura, coisas de escola, eu tinha muita vontade (de estudar)”, comenta.
O tempo passou, veio o casamento e, dessa união, nasceram 16 filhos. “Aí cadê conseguir estudar com 16 meninos, não é?”, brincou.
A jornada com as crianças em casa não permitia que Iracema tivesse tempo para realizar o próprio sonho, mas não a impedia de lutar para vê-lo realizado nos filhos. Pelo contrário: virou incentivo. “Eu incentivava, mandava estudar, queria que estudassem. E, graças a Deus, todos estudaram”, diz, com um sorriso nos lábios.
Mãe de 16 filhos, avó de 37 netos, bisavó de 27 bisnetos e tataravó de um tataraneto, ela conta que já não acreditava mais que conseguiria voltar um dia para a sala de aula.
“Eu dizia: agora não tem mais jeito não. Com oitenta e tantos anos não têm mais jeito de eu estudar não”, diz.
Após 76 anos desde a última vez que pisou em uma escola, foi em São Paulo do Potengi, a cerca de 64 quilômetros de Natal, na Escola Municipal Cívico-Militar Deputado Djalma Marinho, que ela encontrou a oportunidade de tirar os planos do papel.
Animada, foi para a escola preparada, com material na bolsa e fardada.
“Era assim que eu queria: fardada, com a bolsinha do lado. Eu fui tão feliz que parecia que ia para o céu. Aquela farda, para mim… eu estava no céu!”, conta, sempre com muito sorriso e bom humor.
Terminar o ensino fundamental para ela era pouco. Iracema quis ir adiante.
“Terminei o primário, recebi meu diploma, aí me perguntaram: e agora? Eu disse: vou continuar.
E esse ano, pela graça de Deus, eu estou recebendo o diploma do ensino médio. Tinha aluno lá (na escola), com sessenta e tantos anos já caducando”, descreve Iracema.
Bem-humorada, com uma memória invejável e, como ela mesma costuma dizer, “alegre, bonita, cheirosa e rica”, a jovem de 91 anos, sim, porque ninguém ousa chamá-la de idosa, conta que sempre enfrentou as dificuldades que surgiram ao longo da vida de forma leve e que o segredo é “pensar mais na gente do que nos outros”.
Sobre a volta aos estudos, ela conta que precisou se dedicar ainda mais justamente à matéria em que mais sentia dificuldade: matemática.
“A matéria que eu mais gosto é matemática, a que mais tive dificuldade. Fora ela, português”, afirma.
Nada é capaz de afastar alguém do seu sonho quando se tem força de vontade. A força de Iracema não tem limites. Os joelhos prejudicados, já sem cartilagem, “osso no osso”, não a impediram de estar todas as noites na escola.
“Nunca é tarde para a gente realizar o sonho da vida”, enfatiza.
Para ela, o estudo representa uma das belezas da vida e a idade não é sinônimo de limite.
“Eu digo que ainda vou fazer gastronomia para aprender a cozinhar coisas bem gostosas!”, afirma.
E por que gastronomia? A resposta é simples e direta: “Eu gosto de comer!”
“Crie juízo e coragem”
Sobre quem acha que está “tarde” para voltar aos estudos, o recado é direto:
“Crie juízo e coragem. O negócio é ter fé em Deus e ter força de vontade.”
“Imagine se eu fosse me preocupar com esse monte de filho que eu tenho? Mas eu tinha duas sacolas: uma completa e uma furada. Na completa, eu jogo as coisas boas, na furada eu jogo o que me preocupa. Sempre tive uma vida leve. Três coisas que eu não tenho na minha vida é: pobreza, feiura e tristeza. Eu não sei o que é isso. E vou morrer feliz, se Deus quiser”, destaca.

“É a morte correndo atrás de mim e eu correndo dela”

Certa vez, após apresentar pequenos lapsos de memória, os filhos decidiram levá-la ao psiquiatra para avaliar se Iracema poderia estar com Alzheimer.
“Disseram que iam me levar ao médico e eu fui. Cheguei lá, o médico me perguntou: a senhora sabe o seu nome? Eu disse: Iracema Morais da Silva. Depois ele perguntou: sabe a sua idade? Eu falei: nasci no dia 11 de março de 1935. Ele perguntou outras coisas e eu fui respondendo. Aí disse: agora, para encerrar, a senhora tem cartão? Eu disse: tenho. Ele falou: me diga o número dos seus cartões. Eu respondi: o número dos cartões eu não falo para ninguém, que eu não sou doida! Ele disse: a senhora pode ir, que a senhora não tem mal de Alzheimer coisa nenhuma!”, relembra.
Aventureira, como ela mesma se define, para ela não existe essa história de ficar em casa descansando.
“Quando vejo alguém se arrumando para sair, eu pergunto logo: vai para onde? Eu vou também.
Vou viajar para Petrolina (PE) agora”, conta.
Para Iracema, o importante é viver a vida e não se conformar em vê-la passar.
“É a morte correndo atrás de mim e eu correndo dela”, afirma.
Sobre os planos para o futuro, ela nem pensa em parar de viajar e conhecer novos lugares. “Eu quero conhecer Paris. Me chame que eu estou dentro.”

