Por que e para que fabricar foguetes, satélites, semicondutores, robôs? O Brasil, país de grandes vocações, é inovador: fabrica, com louvor, analfabetos diplomados. E é uma indústria admirável. Até diretores de escola e reitores made in Brasil carregam o selo de qualidade das nossas fábricas de produção de diplomados analfabetos.
Saem os resultados do ENEM e começa o carnaval das escolas. Diretores aparecem em fotografias com sorrisos de ganhadores da Mega-Sena, professores são convocados para sorrir ao lado de faixas e os pais passam a examinar rankings como investidores diante da Bolsa de Valores. Descobriu-se, enfim, a fórmula da educação nacional.
Uma escola com meia dúzia de alunos brilhantes pode virar Harvard de bairro. Basta uma média conveniente, uma fotografia bem iluminada e um anúncio dizendo que ali se fabricam gênios.
Enquanto isso, uma escola com centenas de alunos, que enfrenta todas as tragédias sociais do país, pode parecer medíocre porque ousou trabalhar com gente de verdade. O ENEM, quando transformado em campeonato publicitário, deixa de medir a educação e passa a medir a habilidade de produzir propaganda. Não é preciso ensinar muito; basta marquetar bem.
O grande espetáculo, porém, não é o ENEM, é o Ideb, uma espécie de sujeito antipático, que não entende de inauguração, não se impressiona com parede recém-pintada e não sabe quem é o presidente da república, o ministro da educação o governador ou prefeito e o secretário de educação. Não aceita discurso e não recebe abraço, tampouco participa de carreata. Chega de dois em dois anos, abre a porta da sala de aula e pergunta aquilo que ninguém quer ouvir: “O menino aprendeu?”.
Silêncio tumular, porque na área educacional pouca gente anda interessada em aprendizagem. A pergunta é, para esse pessoal, indecente. Porque nós conseguimos fazer uma coisa extraordinária: colocar praticamente todo mundo dentro da escola e deixar uma multidão do lado de fora do conhecimento.
É a pedagogia do fracasso. Sim, porque o aluno entra pela porta da frente, recebe matrícula, uniforme, merenda, certificado e, em alguns lugares, até tablet. Sai pela porta dos fundos sem saber interpretar adequadamente um texto ou resolver uma fração. O Estado entrega a presença física e sonega o conhecimento. E ainda há quem, depois, faça festa.
No Rio Grande do Norte, por exemplo, houve uma grande notícia: o estado saiu de 3,2 para 4,0 no Ensino Médio. Cresceu 25%. É uma melhora real, e merece ser reconhecida. O problema é que comemoramos como se tivéssemos conquistado a Suíça. Em Natal, os anos iniciais do Ensino Fundamental chegam a 4,6. Nos anos finais, despencam para 3,4. É como se o aluno passasse os primeiros anos aprendendo a andar e, justamente quando deveria começar a correr, a escola lhe ensinasse a rastejar.
E os gestores? Ah, os gestores, esses personagens magníficos da nossa comédia administrativa.
Quando o resultado é ruim, descobrem uma circunstância excepcional. Quando melhora dois décimos, descobrem uma revolução educacional. Inauguram laboratório, climatizam escola, entregam computador, criam slogan, fazem solenidade. Tudo isso pode ser útil, naturalmente. O problema é imaginar que uma parede pintada ensina a ler ou que um ar-condicionado resolve problemas matemáticos.
A pedagogia não mora no concreto. Mora no professor preparado e na gestão competente, na continuidade e na cobrança. Na alfabetização bem-feita e na matemática ensinada de verdade.
Trabalho persistente, essa patota devia saber, não cabe em palanque.
Fazer o que tem de ser feito dá trabalho e política e corporativismo não gostam de trabalho.
Preferem uma inauguração. É muito mais fotogênico entregar um laboratório do que enfrentar a vergonha de descobrir por que o aluno continua incapaz de compreender um parágrafo depois de nove anos de escola.
Fabricamos rankings, certificados, slogans, campeões e estatísticas. Produzimos diplomas numa velocidade industrial e conhecimento em marcha de tartaruga. Depois nos espantamos com a baixa produtividade do trabalhador brasileiro, a falta de técnicos e de engenheiros, de pesquisadores e de profissionais qualificados das mais diversas áreas, inclusive a educacional.
O jovem está sentado na carteira escolar. A resposta também. Mas preferimos a fotografia. Ela não deixa ver a mediocridade – e no Brasil a mediocridade é tolerada e, quase sempre, ganha banda de música. E assim, a cada resultado do ENEM e do Ideb, celebramos não aquilo que conquistamos, mas aquilo que conseguimos esconder. Até que os números chegam. E os números, uns insolentes, não militam e não escondem o óbvio – e o óbvio está aí há anos esperando para ser resolvido, e nem precisa de dinheiro.
Historiador
