Sou do tempo em que alguém escolhia time pelo uniforme, pela simpatia de um jogador ou pela lembrança de uma tarde de infância. Ou por influência e/ou imposição de algum familiar. Hoje muita gente escolhe pela geopolítica. Dizem que torcerão pela Argentina, hoje, porque é uma escolha “decolonial” (estou escrevendo o texto na manhã de domingo e o jogo entre Espanha e Argentina será às 18h, hora de Brasília). A palavra é bonita, tem muitas sílabas e uma certa fragância universitária. Pena que a História, uma velha senhora mal-educada, não costuma respeitar palavras elegantes.
Ela ri, porque sabe que quase nenhum povo chegou onde está sem antes ter sido atropelado por outro. A memória humana é uma longa estrada onde todos, em algum momento, foram conquistadores ou conquistados.
A Península Ibérica, por exemplo, tão lembrada quando se fala das caravelas e das naus, é um museu de invasões. Celtas passaram por ali. Vieram romanos, impondo suas estradas, seu latim, seue costumes e suas legiões. Depois chegaram os visigodos. Séculos mais tarde desembarcaram os árabes, que permaneceram por quase oitocentos anos, deixando ciência, arquitetura, agricultura e palavras que ainda hoje habitam o espanhol e o português.
Quem colonizou quem?
Do outro lado do Canal da Mancha, a velha ilha dos bretões também não conheceu sossego. Os romanos fincaram seus estandartes. Depois vieram anglos e saxões, expulsando povos anteriores. Mais tarde apareceram os vikings, queimando vilas e mosteiros. E, como se não bastasse, os normandos atravessaram o mar em 1066 para redefinir a própria Inglaterra.
Os franceses, tão frequentemente lembrados como símbolo europeu, também conheceram o gosto amargo da submissão. Antes de serem França, foram Gália. Antes de serem gauleses heroicos das histórias em quadrinhos, dobraram-se diante das águias romanas de Júlio César e de suas legiões.
Mais a leste, a História perdeu qualquer delicadeza. Gêngis Khan e seus descendentes transformaram continentes em campos de poeira. Do Pacífico ao Mar Cáspio, cidades desapareceram, impérios ruíram, populações inteiras foram deslocadas. A violência não perguntava idioma, religião nem cor da pele. Ela simplesmente cavalgava.
E o huno Átila, o “Flagelo de Deus”, atropelando tudo da Europa Central à Europa Ocidental?
É curioso observar como alguns escolhem, ignorando as páginas anteriores, um único capítulo desse livro infinito para construir uma moral definitiva. Todas aa páginas que não interessam são solenemente rasgadas. A História torna-se, nas mãos desses “sábios, um folheto de propaganda.
E nós que caminhamos distraídos sobre um chão cheio de contradições? Sim, o Brasil
que gosta de recordar — e deve recordar — as violências sofridas durante a colonização portuguesa, raramente olha para as suas próprias relações com os vizinhos. A Guerra do Paraguai continua sendo uma ferida aberta na memória sul-americana. Questões de fronteira marcaram a convivência com Bolívia e Uruguai em diferentes momentos. O continente nunca foi um jardim de fraternidade permanente.
As nações, como as pessoas, raramente cabem nos papéis de santo ou demônio. A História também não.
Ela conhece vítimas que depois se tornaram algozes, conquistadores derrotados, impérios que nasceram das cinzas de outros impérios, povos que desapareceram e povos que sobreviveram justamente porque aprenderam a misturar sangue, língua, religião e costumes.
O irônico disso tudo é que os que hoje falam em pureza moral da geografia costumam viver em países formados exatamente pela mistura de todos aqueles que um dia se enfrentaram. Carregam sobrenomes de invasores, rezam em religiões espalhadas por conquistadores, falam idiomas impostos por antigos impérios e comem alimentos que viajaram em navios comerciais ou militares. São filhos da História, mas fingem nunca ter conhecido seus pais.
O homem continua tendo uma estranha vocação para simplificar o que nasceu complicado, esquecendo que a História não absolve ninguém e também não condena ninguém para sempre. Ela apenas registra que a humanidade inteira foi construída sobre encontros, choques, guerras, migrações, derrotas e recomeços. Nenhum povo atravessou os séculos usando apenas asas de anjo. Por isso, quando alguém proclama sua torcida “decolonial” como se tivesse descoberto um critério moral definitivo para um jogo de futebol, talvez esteja apenas repetindo velha tradição de escolher um pedaço conveniente do passado e esquecer todo o resto.
A História tem muitos culpados e nenhum virgem.
