Por Ana Beatryz Fernandes
A perspectiva do fim da escala 6×1, modelo de jornada em que o trabalhador atua durante seis dias para ter apenas um de descanso, tem sido recebida com entusiasmo por profissionais de diferentes setores. Para quem convive com a rotina de trabalho exaustiva, a mudança representa mais do que uma alteração na legislação trabalhista: significa a possibilidade de recuperar o tempo dedicado à família, ao lazer, à saúde e à própria vida.
A discussão ganhou força com o avanço da proposta de redução da jornada de trabalho no Brasil, mobilizando trabalhadores que enxergam na medida uma conquista histórica. Entre os principais relatos estão o desgaste físico e psicológico, as dificuldades de conciliar compromissos pessoais e a sensação de que a vida se resume ao trabalho.
Funcionário de uma rede de supermercados atacadistas há dois anos e quatro meses, Rian Edson conhece de perto os impactos da escala 6×1. Para ele, a mudança representa uma vitória de quem enfrenta diariamente jornadas desgastantes.
“Eu, como trabalhador, estou muito feliz de ver que a 6×1 caiu. Já estou nesse regime há dois anos e quatro meses e não entendia mais como o pessoal que veio antes de mim suportava continuar nessa escala. É desumano, você não tem tempo nem para si próprio”, relata.
Rian também critica os questionamentos sobre o que os trabalhadores fariam com um dia adicional de descanso. “A gente descansa, a gente arruma outro trabalho. Isso vai da escolha da pessoa”, afirma. Apesar da comemoração, ele demonstra preocupação com possíveis retrocessos políticos e defende a continuidade da mobilização popular.
“É uma vitória da classe trabalhadora. Espero que o nosso povo continue lutando pelos direitos dele, porque é a gente que está fazendo esse país”, acrescenta.
Entre o trabalho e o transporte, o descanso desaparece
Atualmente desempregado, Júlio Cesar Ribeiro já trabalhou como auxiliar de professor e vendedor, acumulando experiências nas escalas 6×1 e 5×2. Segundo ele, a diferença entre os dois modelos é perceptível na qualidade de vida. “Não é só o período que você passa trabalhando. Você ainda tem o período no transporte público, que interfere muito na sua vida. Com a 6×1, a gente não consegue descansar”, explica.
Para Júlio, a jornada 5×2 proporciona uma recuperação física e mental significativamente maior.
Ele também participou de manifestações pelo fim da 6×1, motivado pela situação de trabalhadores que sequer conseguem comparecer aos protestos. “A gente luta pelos nossos direitos, mas também pelos outros, inclusive por pessoas que não conseguiram ir porque estavam trabalhando na 6×1. O único dia de folga delas precisava ser usado para resolver tudo o que não conseguiram durante a semana”, afirma.
A ausência de convivência familiar também aparece no relato de Romão Ceuta, atualmente estagiário e ex-entregador de compras online. “Eu já passei duas semanas sem ver meu pai, mesmo morando debaixo do mesmo teto. Isso é bizarro e desumano”, conta.
Segundo Romão, a combinação entre expediente e deslocamento pode fazer com que trabalhadores saiam de casa às cinco ou seis da manhã e retornem apenas à noite. “Conheço uma mulher que trabalha na 6×1 e, no dia de folga, dorme o dia todo de exaustão. Ter direito a dois dias de descanso é um pequeno passo na vitória do trabalhador brasileiro”, avalia.
A chefe de cozinha Alessandra Castro compartilha a percepção de que o descanso pode melhorar tanto o bem-estar quanto o desempenho profissional.
“É uma grande conquista para nós, trabalhadores. Cada dia de descanso proporciona maior produtividade, e o trabalhador se sente até mais feliz em desempenhar sua função. É um direito muito merecido”, destaca.
Disputa pelo tempo e desigualdades sociais

Para o professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e doutor em Ciências Sociais Antonino Condorelli, o fim da escala 6×1 representa uma transformação que ultrapassa as relações trabalhistas.
“O fim da escala 6×1 representa uma conquista histórica, uma conquista social gigantesca do ponto de vista da efetivação de direitos sociais previstos na Constituição Federal de 1988”, afirma.
Segundo o pesquisador, a redução da jornada integra uma disputa histórica entre capital e trabalho pelo controle do tempo. Ele relaciona a discussão ao conceito de “sociedade do cansaço”, desenvolvido pelo filósofo Byung-Chul Han, marcado pela intensificação da exploração e pela dificuldade de separar trabalho e vida pessoal.
Condorelli destaca que a conquista de mais tempo livre também representa uma forma de enfrentamento das desigualdades.
“A desigualdade não é somente socioeconômica, mas diz respeito também a quem tem a condição estrutural de dispor de forma livre e autônoma do tempo e quem não tem”, explica.
O especialista considera que os benefícios podem ser especialmente relevantes para mulheres de baixa renda, mães solo e trabalhadoras periféricas, frequentemente submetidas à dupla jornada de trabalho remunerado e cuidados domésticos.
“Essa é uma grande conquista da classe trabalhadora, mas especialmente das trabalhadoras de baixa renda, periféricas, racializadas e das mães solo”, ressalta.
Sobre os argumentos de que a redução da jornada prejudicaria a economia, Condorelli contesta a associação automática entre menos horas trabalhadas e menor produtividade.
“Trabalhadoras e trabalhadores mais motivados, mais saudáveis, mais descansados, com maior disposição tendem a produzir mais”, afirma, recorrendo a discussões históricas sobre a redução das jornadas industriais.
O professor ressalta, entretanto, que a efetividade da mudança dependerá da atuação do poder público e dos mecanismos de fiscalização.
“Será preciso um investimento maciço em políticas públicas, numa ação efetiva do Ministério do Trabalho, articulada com o Ministério Público do Trabalho, para que esse direito conquistado no papel seja efetivado nas relações de produção reais”, defende.
Para os trabalhadores entrevistados, a expectativa é que o avanço legislativo se traduza em mudanças concretas no cotidiano. Mais do que um dia adicional de folga, a reivindicação é pelo direito de viver para além do expediente.

