Não confio em alguém que, para demonstrar ser democrático, precisa frequentemente dizer que é democrático. Confio menos ainda naqueles que dizem ser tolerantes, até porque existem certas formas de intolerância que se apresentam com a delicadeza de uma virtude. Não levantam a voz, não batem portas e não precisam sequer de uma palavra mais áspera. Basta que alguém entre numa sala e alguns rostos se fechem, que uma conversa se interrompa, que um cumprimento se perca no caminho entre duas pessoas que até recentemente se tratavam com alguma cordialidade e tinham até certa amizade. É uma maneira econômica de condenar, pois dispensa o julgamento público, economiza argumentos e deixa ao condenado o trabalho de adivinhar seu(s) erro(s).
Nas universidades e nos institutos federais, onde se supõe que o pensamento deva andar à vontade, essas pequenas sentenças podem ser particularmente severas. Ali se fala muito em liberdade, diversidade, tolerância e pensamento crítico, palavras bonitas que, de vez em quando, são submetidas a uma curiosa condição: são aceitas desde que o pensamento, a diversidade e a crítica permaneçam dentro dos limites estabelecidos pela turma. A liberdade, nesse caso, é uma espécie de casa espaçosa, desde que ninguém tente entrar pela porta errada.
Vou citar um único exemplo do que ocorreu com um colega (tenho vários casos a contar, mas mencionarei apenas este). Pois bem, há quase dez anos um colega foi participar de uma mesa-redonda sobre o golpe de 1964, organizada por um grupo que se opunha à esquerda. Ele não nutria simpatia alguma pelo movimento, mas aceitei o convite. Disse o que pensava: 1964 fora um golpe, embora houvesse bibliografia que apontasse para revolução, contrarrevolução e contragolpe. Não lhe pareceu necessário mudar sua visão, amparada em sólidos textos acadêmicos, para agradar aos organizadores, assim como não lhe pareceu necessário recusar a conversa apenas porque não simpatizava (embora não antipatizasse) com quem a promovia.
Afinal, se a liberdade de pensamento e de expressão dependem da concordância entre os participantes, talvez seja mais prudente fechar as salas de debate e deixar as pessoas conversando consigo mesmas diante do espelho.
A reação veio antes e depois, nos grupos de WhatsApp. Colegas lhe esculhambaram, indignados com a presença dele naquela mesa. Não sei se esperavam que ele pedisse licença para pensar ou que apresentasse um atestado de fidelidade ideológica antes de abrir a boca. O fato é que o colega continuou a ser o que sempre fui: um professor que conserva o direito de pensar por conta própria, mesmo quando o pensamento não coincida com o dos amigos, dos colegas ou dos donos ocasionais da verdade.
Desde então (e até antes disso, pela postura que tinha), alguns passaram a lhe olhar de esguelha e outros preferem não olhar. Há quem diga horrores a respeito dele, como se a divergência intelectual fosse uma espécie de enfermidade moral que se pudesse diagnosticar à distância. Ele não se preocupa nada com isso, pois aprendeu que a opinião alheia merece consideração quando vem acompanhada de argumentos. Se vier apenas com a necessidade de enquadrar o outro, é melhor deixá-la seguir seu caminho.
O meu colega não é homem de se entregar às extremidades da política, nem à direita nem à esquerda. Desconfia das certezas que dispensam perguntas e das virtudes que precisam de palco e plateia. Isso, sim, certamente é um problema. Os doidinhos radicais gostam de adversários previsíveis, gente que se possa colocar numa prateleira e identificar por uma etiqueta. Aqueles que não aceitam a classificação, que concordam num ponto e discordam noutro, que conversa com quem não deveria e conserva a própria opinião depois da conversa, é uma presença incômoda, porque não se sabe muito bem onde guardá-lo.
Penso nisso quando vejo histórias de pessoas submetidas ao tribunal informal das próprias comunidades. A cor da pele, o partido, a origem social ou a posição política podem mudar de uma história para outra mecanismo, porém, é conhecido. Em nome de uma causa justa, estabelece-se quem pode falar, com quem se pode conversar e quais perguntas são permitidas. E, assim, a defesa da liberdade corre o risco de se transformar na vigilância sobre a liberdade alheia.
Não espero que todos – nem mesmo a maioria – concordem comigo. Seria uma ambição modesta demais para quem acredita na liberdade de pensamento e de expressão. Quero, melhor, exijo o meu direito de discordar sem ser tratado como inimigo e de pensar e me expressar sem precisar jurar fidelidade a seitas, partidos ou comitês.
Quanto aos colegas que viram as costas para os que deles discordam, não peço e nunca pedirei que mudem de atitude. Cada um administra como pode suas convicções e suas amarguras, afinal aquele que mais se orgulham de sua superioridade moral são, às vezes, os que menos suportam a liberdade de um homem que não lhes deve obediência. E certamente poucas coisas irritam tanto os pretensos virtuosos quanto descobrir que, depois de tantas condenações silenciosas, o condenado continua andando por aí, sem pedir absolvição e sem renunciar à própria consciência.
