O circo itinerante e de partida de xadrez jogada à sombra de uma mangueira, no calor potiguar, está montado e assim seguirá até que as urnas comecem a acenar no horizonte.
A política, nestas terras, nunca foi exatamente uma ciência. É mais parecida com a previsão de chuva no sertão: há sinais, nuvens, especialistas, mapas coloridos e, no fim, quem manda é o céu.
Analisando um agregador de pesquisas de um dos institutos locais, o céu, sem transformar cada nuvem em tempestade, descortina-se um pouco. Ao reunir pesquisas presenciais registradas no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e acompanhar suas tendências, o agregador permite enxergar o movimento da eleição. As curvas suavizadas, sem profetizarem nada, revelam para onde sopra o vento, o qual, neste momento, é favorável para Allyson Bezerra, o ex-prefeito de Mossoró que chega ao cenário estadual com uma narrativa própria, algo que a política tradicional costuma demorar anos para construir. Ele é candidato de um partido e de um grupo, mas acima disso é o prefeito que saiu do interior, venceu em Mossoró, consolidou uma imagem administrativa e agora tenta transformar a força municipal em fenômeno estadual, uma história que, segundo o painel traçado pelo agregador analisado, encontra correspondência nos números.
Allyson aparece na dianteira com regularidade suficiente para que sua liderança não pareça acidente estatístico. A liderança é uma casa confortável, mas tem janelas grandes. Sua probabilidade de alcançar o segundo turno, numa leitura analítica do conjunto das pesquisas, pode ser estimada hoje em torno de 95%, embora haja certa ironia escondida no alto das pesquisas: quem lidera também se transforma no alvo.
Allyson terá ainda a preciosa vantagem da propaganda eleitoral na TV, afinal seu grupo dispõe do maior tempo entre os três principais candidatos: cerca de 4 minutos e 8 segundos por programa, quase o dobro do tempo de Cadu e significativamente acima do de Álvaro, diferença que permite apresentar obras, construir biografia, explicar propostas e, naturalmente, responder aos ataques.
A questão é que a televisão oferece câmeras e microfones, mas não fabrica candidato e o líder, quando passa a ocupar mais tempo na tela, também passa a ocupar mais espaço na mira dos adversários.
Álvaro Dias aparece caminhando pelo tabuleiro com o passo de quem já conhece as armadilhas do caminho. Ele não precisa inventar uma biografia política. Ela, gostem ou não dela, está pronta.
Ex-prefeito de Natal, ex-deputado estadual e federal, homem de alianças e de memória eleitoral, carrega um capital político que não aparece inteiro nas pesquisas. O apoio do PSDB e a capacidade de reunir setores tradicionais da política estadual acrescentam musculatura à sua candidatura. Seu tempo de televisão, embora menor que o de Allyson, não é desprezível: pouco mais de 2 minutos e 23 segundos por programa. O desafio, portanto, não é simplesmente permanecer vivo na disputa e, sim, converter experiência em futuro, porque existe uma diferença entre ser conhecido e parecer necessário. Álvaro precisa convencer o eleitor de que sua experiência não é uma fotografia do passado, mas uma ferramenta para governar o futuro.
Também e principalmente precisa impedir que Cadu transforme a disputa pelo segundo lugar numa corrida de chegada.
Hoje, numa leitura probabilística do cenário, Álvaro tem aproximadamente 65% de chances de chegar ao segundo turno. Não é uma vantagem confortável o suficiente para permitir descanso, porque Cadu Xavier é justamente o personagem que impede que essa história termine antes da hora.
A candidatura de Cadu tem natureza diferente. O candidato não possui a trajetória eleitoral de Álvaro nem a narrativa administrativa construída por Allyson. Em compensação, possui uma coisa que nenhum dos dois consegue reproduzir: Lula, que já esteve no Rio Grande do Norte, subiu ao palanque e associou diretamente seu nome ao candidato governista. Mais, Cadu tem o PT, a estrutura do governo estadual e a possibilidade de nacionalizar a campanha à medida que a eleição presidencial for entrando na vida cotidiana do eleitor. A pergunta é se esse conjunto de forças consegue produzir transferência suficiente de votos.
Cadu cresceu. E esse é o dado que merece atenção. Há pesquisas em que sua evolução é perceptível, e houve até levantamento destoante do conjunto presencial colocando-o na liderança. Não se deve tomar, é verdade, uma pesquisa excepcional como retrato definitivo, mas também seria tolice jogá-la pela janela. Ela serve para lembrar que eleições têm curvas que podem mudar de inclinação.
Cadu tem, hoje, em torno de 35% de probabilidade de alcançar o segundo turno. Parece pouco, mas é muito para quem ainda precisa atravessar uma distância relativamente curta para transformar a eleição num plebiscito entre lulismo e oposição. E está aí o ponto mais interessante da sucessão.
São três candidaturas com três forças diferentes. Allyson tem a novidade, a marca administrativa própria, a força de Mossoró, uma coligação robusta e o maior tempo de televisão. Álvaro tem a experiência, a memória eleitoral, a presença política na capital e os palanques tradicionais. Cadu tem Lula, o PT, o governo estadual e a possibilidade de transformar a eleição local numa extensão da disputa nacional. Nenhuma dessas forças, entretanto, é absoluta, pois Lula não transfere votos como quem transfere dinheiro entre contas bancárias, tempo de televisão não garante convencimento, experiência administrativa não produz automaticamente renovação e liderança nas pesquisas não imuniza ninguém contra campanha, desgaste ou erro.
Se a eleição fosse hoje, a aposta mais racional seria Allyson e Álvaro no segundo turno. Como não é, a segunda vaga ainda está em leilão.
Álvaro precisa conservar seu eleitorado e impedir a ultrapassagem, Cadu precisa continuar crescendo sem carregar para si todo o desgaste do governo estadual, hoje o maior peso que ele tem de carregar e Allyson precisa administrar a liderança sem permitir que ela se transforme em acomodação ou, pior, em rejeição. Para completar, ainda há aquele personagem que não aparece inteiro em nenhum gráfico: o eleitor indeciso, uma divindade silenciosa que não confessa intenção, não atende pesquisa com entusiasmo e só revela seus segredos diante da urna. É ele quem poderá decidir se a mangueira continuará dando sombra ao mesmo jogador ou se, de repente, alguém derrubará o tabuleiro. Não esqueçamos: pesquisa mede o eleitor de hoje; campanha tenta fabricar o eleitor de amanhã.
No Rio Grande do Norte, entre uma curva do agregador, um palanque de Lula, uma aliança antiga, minutos de televisão e uma promessa de futuro, a eleição começa a adquirir aquela velha aparência de circo: todo mundo conhece os artistas, mas ninguém sabe ainda quem terminará a noite debaixo da lona.
