Por Elane Nascimento
A crescente popularização das apostas esportivas e dos cassinos online tem ampliado um problema que vai além das perdas financeiras. A dependência em jogos de azar, conhecida como ludopatia ou transtorno do jogo, está associada a graves impactos emocionais e apresenta um dos maiores índices de tentativas de suicídio entre todos os transtornos relacionados a dependências. O alerta é do psicólogo Renato Rosa, que acompanha pacientes com compulsão em apostas e afirma que o vício deve ser tratado como uma doença, exigindo acompanhamento especializado e apoio da família.
Segundo Renato Rosa, o número de pessoas que chegam aos consultórios com sofrimento relacionado às apostas tem aumentado, impulsionado pela intensa divulgação desse tipo de entretenimento.
“As apostas esportivas, os cassinos online, os jogos de azar em geral que estão de uma forma demasiado presentes na nossa vida, podem gerar graves impactos na vida do sujeito. É muito comum observarmos no consultório clínico o aumento de ansiedade, irritabilidade, culpa, vergonha, sintomas intensivos, pensamentos infelizmente de suicídio. E alguns dados trazem que este vício é o que mais tem a incidência de tentativas de suicídio entre todos os vícios. Dependência química, álcool e outras dependências. A dependência nos jogos é a que tem o maior índice de tentativa de suicídio, infelizmente”, afirma.
O psicólogo explica que, à medida que o apostador acumula prejuízos financeiros, o sofrimento emocional se intensifica.
“Aquilo que no início foi prazeroso, foi eufórico, acaba se tornando uma corrida, uma tentativa de recuperar o dinheiro perdido. É a corrida pelas perdas, que intensifica ainda mais o sofrimento do indivíduo. Então ele recebe um dinheiro, ele vai colocar no jogo. Se ele não recebe, ele vai atrás, que é quando nós vemos aí empréstimos, pessoas mentindo, pessoas pedindo dinheiro emprestado, pessoas pegando dinheiro com agiota, na tentativa de recuperar prejuízos”, exemplifica.
Para Renato Rosa, o momento em que o indivíduo perde a capacidade de controlar as apostas marca a transição entre o jogo recreativo e a compulsão.
“Quando o indivíduo está nesse processo de jogo, aposta, tentativa de recuperar dinheiro, ou seja, quando ele perde o controle sobre esse comportamento, é que nós entendemos que ele deixou de ser um jogador habitual, um jogador que apenas está ali para se divertir, para ser um jogador compulsivo”, explica.
O especialista ressalta que a dependência em apostas não pode ser confundida com falta de caráter, fraqueza ou ausência de religiosidade.
“É muito importante que ele e a família entendam que não é falta de caráter, não é um desvio de caráter, não é falta de força de vontade. Muitas pessoas falam, muitas famílias inclusive, que é falta de Deus no coração, falta de Jesus, mas não é falta de religiosidade. É realmente um processo neuroquímico onde algumas áreas do cérebro trabalham para que ele se mantenha naquele comportamento e, consequentemente, ele acaba perdendo o controle”, enfatiza.
Renato Rosa explica que o cérebro passa a reforçar o comportamento compulsivo, dificultando que o apostador reconheça a gravidade da situação.

“Quem entra no vício de apostas ou qualquer outro vício tem algumas áreas do cérebro ativadas que fazem com que queira repetir aquele comportamento. A área emocional fica hiperativada, enquanto a área responsável pelo controle dos impulsos fica menos ativa. O indivíduo não consegue enxergar, não percebe e perde o controle. Nesses casos, caracterizamos um transtorno do jogo, também chamado de ludopatia, e esse indivíduo precisa, primeiro, de acompanhamento psicológico”, afirma.
A psicoterapia é o principal tratamento para a ludopatia e, de acordo com o psicólogo e, dependendo da gravidade do quadro, pode ser necessária uma atuação conjunta com psiquiatra e outros profissionais da saúde.

“A psicoterapia é um padrão ouro para esse atendimento. Dependendo do caso, pode ser necessário acompanhamento médico-psiquiátrico, nutricional ou com terapeuta ocupacional. Mas o mais comum é o psicólogo e o psiquiatra. Outro detalhe importante é que, embora a terapia seja individual, ela mobiliza toda a família. Todos são convidados a participar desse processo, porque o paciente vai precisar de ajuda em casa e de quem está perto dele”, orienta.
Impactos vão além das perdas financeiras
Para o advogado Wendrill Cassol, os prejuízos das apostas online ultrapassam o aspecto econômico e alcançam diferentes áreas da vida do apostador.
“No bolso, famílias comprometem renda essencial e recorrem a empréstimo e cartão até a diversão virar dívida. No convívio, vira conflito familiar, isolamento e, não raro, perda de emprego. E há o lado psíquico, o mais delicado: muita gente desenvolve o transtorno do jogo, a ludopatia, hoje reconhecida pela Organização Mundial da Saúde, na CID-11, como uma doença. Não é falta de força de vontade. A aposta digital é desenhada para disparar gatilhos de recompensa parecidos com os de substâncias químicas. É um problema de saúde pública com desdobramentos jurídicos”, afirma.
O advogado alerta ainda para golpes praticados por plataformas ilegais que condicionam o saque dos valores ganhos ao pagamento de novos depósitos.
“Casa licenciada tem obrigações rígidas, e uma delas é que os saques sejam processados em no máximo duas horas, conforme determinação da SPA. Plataforma legalizada não segura o seu dinheiro nem condiciona o saque a um novo depósito. Quando dizem ‘você ganhou, mas para sacar precisa depositar mais’, isso é sinal clássico de golpe, quase sempre de site clandestino. No cível, é falha na prestação do serviço e enriquecimento sem causa; no penal, pode configurar estelionato. Minha orientação é direta: nenhuma plataforma legítima cobra para devolver o que é seu. Se cobrou, não deposite, guarde as provas e procure a polícia e um advogado”, orienta.
Cassol destaca que, desde a regulamentação das apostas, somente empresas autorizadas pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), do Ministério da Fazenda, podem operar legalmente no Brasil. Para identificar uma plataforma regularizada, ele recomenda verificar se o endereço eletrônico termina em “.bet.br”, se há o número da portaria de autorização no rodapé do site e se a empresa consta na lista oficial do Ministério da Fazenda.
Caso o consumidor enfrente problemas, o advogado recomenda reunir todas as provas antes de buscar seus direitos.
“Primeiro, documentar tudo desde já, porque prova é quase tudo: prints das conversas com o suporte, extratos, comprovantes de Pix, protocolos e capturas das propagandas. Depois, acionar o suporte oficial e, se não houver solução, recorrer ao Procon, ao consumidor.gov.br e à própria SPA. Se for site clandestino, cabe denúncia à Anatel e, havendo golpe, boletim de ocorrência. Por fim, o Judiciário, sendo que para valores menores o Juizado Especial Cível permite até ingressar sem advogado, embora eu sempre recomende orientação técnica”, conclui.
Se você ou alguém próximo está enfrentando o vício em apostas, é importante destacar que existe tratamento e apoio disponível. Dentre eles estão:
CVV (Centro de Valorização da Vida): Ligue 188 (atendimento 24 horas, gratuito e sigiloso) ou acesse o Site do CVV e o do Grupo de Jogadores Anônimos (JA). As reuniões presenciais em Natal acontecem no bairro de Candelária, próximo à OAB, localizado na Rua Domingos Amado, 3393-D, Candelária.

