Todo movimento político revela sua natureza quando chega a hora de repartir o poder. Enquanto há aplausos, fala-se em princípios. Quando chega a sucessão, desaparecem os princípios e surgem os herdeiros. Foi o que aconteceu com o bolsonarismo. Bastou a perspectiva de um futuro sem Jair Bolsonaro no centro do palco para que o debate deixasse de ser sobre o Brasil e passasse a ser sobre a administração de seu espólio eleitoral.
Um grande literato dos séculos XVI e XVII que resolvesse esquadrinhar Brasília, dispensaria os monarcas. Encontraria sucessores, vazamentos, conspirações, juramentos, traições e enforcamentos em quantidade suficiente para escrever uma biblioteca. A diferença é simples: no teatro, o pano cai. Na política brasileira, muda apenas o elenco.
A disputa entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro interessa pelo conflito doméstico, afinal gostamos de uma fofoca, mas vale bem mais pelo que genuinamente revela. Durante muito vendeu-se a ideia de que o bolsonarismo era um movimento unido por uma missão nacional. Bastou surgir a discussão sobre a sucessão para aparecer o verdadeiro assunto: quem ficará com a marca.
Está o retrato da coisa. Quando uma organização depende do sobrenome do fundador para decidir quem pode falar em seu nome, deixa de ser uma corrente política e se torna patrimônio familiar. O eleitor deixa de ser cidadão e se converte em ativo eleitoral. O detalhe decisivo é que a partilha começou antes da retirada do fundador. Jair Bolsonaro continua presente, os seus pretensos sucessores, entretanto, já discutem o espólio. O inventário foi aberto antes do funeral político. E em nenhum instante o centro da conversa é o Brasil.
Não se discutem produtividade, crescimento econômico, educação, saúde e segurança públicas, infraestrutura, reforma administrativa ou competitividade. Discute-se quem herdará o direito de representar o mito. Em miúdos, é só uma disputa de propriedade.
O bolsonarismo sobrevive porque o antipetismo – um sentimento real que mobiliza milhões de brasileiros e permitiu a Jair Bolsonaro construir uma força eleitoral – alimenta-o. Transformar rejeição em governo, contudo, exige mais do que escolher um adversário. Ser contra Lula venceu eleições. Nunca governou um país, porque governar significa responder perguntas que não cabem em vídeos, transmissões ao vivo, palavras de ordem e jargões. O desempregado não paga o aluguel com discursos.
O agricultor não leva a safra ao porto com slogans, o paciente não recebe atendimento médico por fidelidade ideológica, a escola não ensina porque alguém descobriu um novo inimigo. Tudo isso está na fila e, portanto, o Brasil quase todo segue na fila, esperando hospitais, escolas, estradas, produtividade, investimentos, segurança e um Estado que trabalhe para quem o financia. Essas tarefas, sejamos claros, produzem pouco entusiasmo para quem depende da agitação permanente.
Penso que Michelle, ao expor a disputa com Flávio Bolsonaro, prestou involuntariamente um serviço público, porque levantou uma ponta da cortina, e permitindo, de forma mais clara, que muita gente possa observar o palco sem a iluminação da propaganda.
Movimentos sólidos atravessam divergências porque possuem instituições, programas, lideranças e mecanismos de decisão. Quando tudo depende da família, a política desaparece. Resta a sucessão, um hábito que atravessa a história brasileira. Mudam os partidos, mudam os discursos, mudam os símbolos e permanecem as dinastias.
Faço duas perguntas:
1) Enquanto milhões de brasileiros discutem quem herdará o bolsonarismo, quem pretende governar o Brasil?
2) Quem ficará com as cinzas depois que o fogo consumir a República?
