Por Elane Nascimento
O Hospital Infantil Varela Santiago promove, nos dias 30 de setembro e 1º de outubro, a Cleft Week 2026, uma mobilização voltada à conscientização sobre as fissuras labiopalatais e ao fortalecimento da rede de atendimento no Rio Grande do Norte. A iniciativa é realizada pelo Centro de Reabilitação de Fissuras Labiopalatais do Rio Grande do Norte (CREFIRN), com apoio da Smile Train, e pretende ampliar o encaminhamento de novos pacientes ao serviço especializado.
Além de apresentar os resultados do trabalho desenvolvido pelo CREFIRN, a programação busca aproximar maternidades e profissionais da rede pública de saúde para que crianças nascidas com fissuras labiopalatais sejam encaminhadas precocemente ao tratamento. Segundo o Centro, o número de pacientes regulados pelo SUS atualmente está abaixo da capacidade de atendimento da unidade.
No dia 30 de setembro, o evento reunirá representantes das secretarias municipal e estadual de Saúde, pacientes e familiares para apresentação de indicadores sobre atendimentos, cirurgias e atuação da equipe multidisciplinar. Já em 1º de outubro, a programação será voltada às crianças e suas famílias, com atividades recreativas e momentos de convivência.
Diagnóstico precoce melhora resultados do tratamento
A odontopediatra do CREFIRN, Vanessa Barbosa de Freitas, explica que a fissura labiopalatina é uma malformação congênita provocada pela falta de união completa de estruturas da face entre a quarta e a 12ª semana de gestação.
“A fissura labiopalatina é uma anomalia craniofacial congênita, ou seja, é uma alteração no desenvolvimento embrionário provocada pela falta de união completa de algumas estruturas faciais no período entre a 4ª e a 12ª semana de gestação”, explicou.
Segundo a especialista, alguns tipos de fissura podem ser identificados ainda durante o pré-natal, por meio da ultrassonografia morfológica. Já os casos que atingem apenas o palato costuma ser diagnosticados somente após o nascimento do bebê.
Com base em dados do Ministério da Saúde, a incidência da condição no Brasil é de um caso a cada 650 nascidos vivos. Embora não existam estatísticas públicas atualizadas para o Rio Grande do Norte, a estimativa é que o Estado registre cerca de 53 a 54 novos casos por ano, sendo aproximadamente 15 a 16 apenas em Natal.
Vanessa destaca que o impacto da fissura varia conforme sua extensão, podendo comprometer alimentação, audição, fala, desenvolvimento dentário, crescimento facial e autoestima da criança.
“Os desafios e dificuldades a ser enfrentadas estão diretamente atrelados à complexidade da fissura que o bebê possa apresentar”, explicou.
O atendimento no CREFIRN começa com uma avaliação multiprofissional, envolvendo psicóloga, fonoaudióloga, nutricionista e odontopediatra. A partir dessa primeira consulta, é definido o plano terapêutico individual.
A especialista ressalta que o tratamento não se resume à cirurgia.
“Esse tratamento não se restringe apenas à realização de uma cirurgia”, afirmou.
O acompanhamento, ainda conforme a odontopediatra, envolve assistência social, apoio psicológico, nutrição, fonoaudiologia, odontopediatria, ortodontia e cirurgia, formando uma rede integrada de cuidados para garantir o desenvolvimento da criança.
Apesar de ser referência no Estado, o CREFIRN ainda recebe menos pacientes do que poderia.
“Acreditamos que ainda deva existir desconhecimento sobre a existência e modo de funcionamento do nosso centro, por isso a importância de divulgar nosso serviço e facilitar o acesso ao agendamento da primeira consulta”, explicou Vanessa.
Ela ressalta que não há dificuldade para o encaminhamento dos pacientes.
“Não existe dificuldade. Caso qualquer profissional de saúde diagnostique um bebê fissurado, o encaminhamento pode ser realizado pelo referenciamento do SUS ou por ligação direta à central de agendamento do HIVS”, esclareceu.
Segundo a odontopediatra, famílias que recebem o diagnóstico devem procurar um centro de referência o mais cedo possível.
“Primeiramente, fiquem tranquilos, pois a fissura labiopalatina tem tratamento. Segundo passo é procurar um centro de atendimento de referência para o tratamento da fissura labiopalatina o quanto antes”, orientou.
Mobilização quer ampliar acesso ao tratamento
De acordo com Vanessa, a principal mensagem da Cleft Week é conscientizar profissionais de saúde e famílias sobre a importância do encaminhamento precoce.
“A intenção é levar a mensagem de que ‘30 dias mudam 20 anos’. A importância desse encaminhamento precoce precisa chegar à população e a todos os profissionais da área de saúde”, explicou.
Ela afirma que aproximar maternidades, unidades de saúde e o CREFIRN permitirá que mais crianças iniciem rapidamente o acompanhamento especializado.
“O estreitamento dessa relação vai impactar diretamente na agilidade com que esses pacientes possam ser direcionados ao nosso centro. Assim nenhuma família ficará sem saber onde pode levar seu bebê fissurado para iniciar o tratamento”, concluiu.

