Por Elane Nascimento
A mulher citada como “Fátima” em uma conversa gravada entre sócios da DISMED Distribuidora, empresa fornecedora de medicamentos para a Prefeitura de Mossoró, é apontada pela Polícia Federal como Maria de Fátima Dantas dos Santos. A informação consta em relatório da investigação da Operação Mederi, que apura suspeitas de irregularidades em contratos públicos da área da saúde durante a gestão do então prefeito de Mossoró e atual candidato ao Governo do Estado, Allyson Bezerra (União Brasil).
Cadu de Lula para Allyson: “Quem é a ‘sua Fátima’? Responda, enfrente essa questão”
O nome da “Fátima”, citado na gravação também foi mencionado pelo candidato ao Governo do RN, Cadu de Lula (PT), na última segunda-feira (21) durante o debate com os candidatos promovido pela TV Tropical.
Durante o debate, Cadu chegou a questionar Allyson sobre quem seria “Fátima”.
“Eu nunca tive a Polícia Federal na minha casa. Eu queria dar mais uma oportunidade para ele (Allyson), de explicar para o povo do Rio Grande do Norte, ele que diz que tem coragem, que diz que tem “mãos limpas”, quem é a personagem “Fátima”, citada nos áudios, e inclusive agora vídeos que estão vazando por aí, que é citada no suposto escândalo de corrupção da Operação Mederi, em Mossoró? Ele me chama de Cadu de Fátima, de Fátima Bezerra, eu não tenho problema nenhum com isso. Tem vídeos de gente dizendo, de empresários dizendo que ele é ladrão. Quem é a sua “Fátima”? Responda, enfrente essa questão”, questiona.
Durante os dois minutos concedidos para a resposta, Allyson não respondeu quem seria “Fátima”, acusou Cadu de Lula de “baixar o nível” e manteve o discurso de que tem “as mãos limpas”, embora siga como investigado na Operação Mederi.
Quem é Maria de Fátima Dantas dos Santos?
Allyson não respondeu no debate quem seria ‘a Fátima’, no entanto, o documento da Polícia Federal revela que trata-se de Maria de Fátima Dantas dos Santos. O documento ao qual o Diário do RN teve acesso revela ainda divisões de lucros e mencionam que a ausência de repasses ilícitos poderia impedir a realização de um show do cantor Gustavo Lima em Mossoró. A investigação identifica Maria de Fátima Dantas dos Santos como a provável destinatária dos valores, ligando sua empresa de eventos às negociações suspeitas. O relatório ressalta que o grupo utilizava licitações públicas para camuflar o pagamento de comissões indevidas a terceiros. Por fim, as autoridades indicam a necessidade de novas diligências para confirmar a participação exata de todos os envolvidos no suposto crime.
“Há nos arquivos da escuta ambiental várias referências feitas ao nome “FÁTIMA” como sendo destinatária de valores pagos pelos sócios da DISMED a título de supostas propinas ou comissões.
Em consultas ao Portal da Prefeitura de Mossoró/RN e em fontes abertas foi possível identificar a pessoa de nome MARIA DE FÁTIMA DANTAS DOS SANTOS, CPF:904.474.684-72, titular da empresa com razão social Maria de Fatima Dantas dos Santos, CNPJ 46.927.710/0001-62, com endereço declarado à Rua Vicente Leite, 420 – Planalto Treze de Maio, em Mossoró/RN. Sua atividade principal é de Serviços de organização de feiras, congressos, exposições e festas, de acordo com o código CNAE N-8230-0/01. Referida empresa tem como data de abertura registrada em 27/06/2022. Consubstanciado no teor dos referidos áudios, sobretudo no exato momento em que há referência direta ao nome do cantor GUSTAVO LIMA que, segundo os interlocutores, não cantaria no evento em MOSSORÓ caso os valores acertados nas licitações da DISMED a título de comissões/propinas não fossem repassados, há indicativos aqui de que a FÁTIMA destinatária desses valores provavelmente seja a empresária MARIA DE FÁTIMA DANTAS DOS SANTOS.
Entretanto, essa confirmação demandará a realização de novas diligências para tal”, mostra o documento.
Ainda segundo o relatório da Polícia Federal, posteriormente aos fatos, Maria de Fátima Dantas dos Santos foi nomeada para um cargo comissionado na Prefeitura de Mossoró, onde atuou como Assessora de Comunicação, vinculada à Secretaria Municipal de Comunicação Social, ligada diretamente ao gabinete do prefeito.
O nome de “Fátima” aparece em um vídeo analisado pela PF, no qual os sócios da DISMED, Oseas Monthalggan Fernandes Costa e José Moabe Zacarias Soares, conversam sobre uma suposta divisão de valores relacionada a contratos de fornecimento de medicamentos ao município.
Na gravação, um dos empresários apresenta uma espécie de cálculo sobre a distribuição de valores e menciona supostos repasses destinados a Allyson Bezerra e à mulher identificada como “Fátima”.
“Como é a matemática de Mossoró: Mossoró tem uma ordem de compra de R$ 400 mil, desses R$ 400, ele entrega R$ 200, tudo a preço de custo. Dos R$ 200, ele pega 30%, então aqui ele comeu R$ 60, fica R$ 140 para ele entregar 100%. Dos R$ 140, ele ganha R$ 70. R$ 70 com R$ 60, é meu, R$ 130; só que dos R$ 130, nós temos que pagar R$ 100 mil a Allyson e a Fátima. É 10% de Fátima e 15% de Allyson; só ficou R$ 30 mil para a empresa. ‘Tá’ aí o problema. Antigamente, a gente vendia R$ 400, nós ‘estava’ ganhando R$ 200; que é 100%. Dava os R$ 100 de Fátima e ficava os R$ 100 da empresa”, afirma um dos sócios na gravação.
Investigação da Operação Mederi
O vídeo integra o conjunto de elementos reunidos pela Operação Mederi, conduzida pela Polícia Federal, que investiga suspeitas de favorecimento em contratos públicos na área da saúde durante a administração municipal de Allyson Bezerra.
A operação analisa contratos firmados entre a Prefeitura de Mossoró e empresas fornecedoras de medicamentos, incluindo a DISMED Distribuidora.
O relatório da PF relaciona a identificação de “Fátima” a partir dos elementos reunidos na investigação, incluindo informações sobre pessoas que tiveram vínculo com a administração municipal.

