O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ainda não havia reconhecido publicamente a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas eleições presidenciais brasileiras até a manhã desta segunda-feira (26). O silêncio da Casa Branca contrasta com a postura adotada por governos norte-americanos em eleições anteriores e pode representar uma demonstração de frustração política com a derrota de Flávio Bolsonaro (PL), segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil.
Lula foi reeleito neste domingo (25) com 64 milhões de votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos, contra 59 milhões de Flávio Bolsonaro, que recebeu 48,21%. O resultado foi proclamado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) às 21h08.
De acordo com reportagem do jornalista Luis Barrucho, da BBC, a ausência de manifestação de Trump ocorre enquanto diversos líderes internacionais, incluindo presidentes de direita da América Latina, já reconheceram a vitória do petista.
Para Christopher Sabatini, pesquisador sênior para América Latina do centro de estudos Chatham House, em Londres, o silêncio é politicamente significativo, especialmente diante do apoio demonstrado por Trump à família Bolsonaro.
“Sim, é muito significativo. Ele deveria ter sido o primeiro”, afirmou o especialista à BBC.
Sabatini avalia que o presidente norte-americano pode estar enfrentando uma derrota política importante, já que apostava no fortalecimento de governos alinhados à sua administração na América Latina. Segundo o pesquisador, Trump chegou a afirmar que havia contribuído para levar nove presidentes ao poder na região e esperava ampliar esse número com a eleição brasileira.
“Acho que ele imaginava que este seria o décimo e o maior prêmio”, declarou.
Apoio a Bolsonaro e expectativas frustradas
A reportagem da BBC destaca que Trump recebeu Flávio e Eduardo Bolsonaro na Casa Branca durante a campanha eleitoral. Um dia depois do encontro, em 28 de maio, o Departamento de Estado norte-americano anunciou a designação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.
Para Sabatini, esses movimentos representaram um endosso político à candidatura de Flávio Bolsonaro.
Anthony Pereira, diretor executivo do Centro para Estudos Latino-Americanos da Universidade Tulane, nos Estados Unidos, também considera que a vitória de Lula frustrou expectativas da administração republicana.
Segundo ele, Washington esperava que um eventual governo Flávio Bolsonaro aproximasse o Brasil da agenda internacional de Trump, incluindo a participação no chamado Escudo das Américas, coalizão de segurança criada em março para combater o narcotráfico e ampliar a influência norte-americana na região.
O Brasil não integra a iniciativa, que também é interpretada por analistas como uma tentativa de conter a presença chinesa na América Latina.
Pereira avalia que o resultado brasileiro pode ter repercussões até mesmo na política interna dos Estados Unidos, especialmente diante das eleições legislativas de meio de mandato.
Silêncio rompe tradição diplomática
A demora de Trump também chama atenção pelo histórico das relações diplomáticas entre Brasil e Estados Unidos.
Em 2022, o então presidente Joe Biden parabenizou Lula pela vitória antes mesmo de Jair Bolsonaro reconhecer formalmente a derrota. Na ocasião, o democrata destacou a realização de eleições livres e confiáveis.
Em 2018, Trump telefonou para Jair Bolsonaro ainda na noite do segundo turno. Já Barack Obama cumprimentou Dilma Rousseff no dia seguinte à votação de 2014, enquanto George W. Bush entrou em contato com Lula aproximadamente um dia depois de sua primeira eleição, em 2002.
O contraste reforça as interpretações de que a ausência de pronunciamento pode estar relacionada às expectativas políticas da Casa Branca sobre o resultado brasileiro.
Lula defende independência diante dos Estados Unidos
Durante o discurso da vitória, na noite de domingo, Lula defendeu uma política externa independente e criticou interferências estrangeiras na política brasileira.
O presidente relembrou uma frase do cantor Chico Buarque ao afirmar que o Brasil não deve “falar grosso com a Bolívia e fino com os Estados Unidos”.
“A gente falava igual com todo mundo”, declarou.
Lula também afirmou que o Brasil “não aceita ser quintal de ninguém” e criticou a interferência externa por meio das plataformas digitais, embora não tenha citado diretamente o governo norte-americano.
Para Sabatini, ainda não está definido se o novo mandato de Lula será marcado por um posicionamento mais crítico em relação aos Estados Unidos ou por uma tentativa de estabelecer uma relação diplomática em novos termos.
Reconhecimento de Trump pode enfraquecer contestação de Flávio
Outro ponto destacado pela BBC é o possível impacto de uma manifestação de Trump sobre a tentativa de Flávio Bolsonaro de contestar o resultado das eleições.
Segundo Sabatini, um reconhecimento público da vitória de Lula pela Casa Branca poderia reduzir o espaço político para questionamentos do candidato derrotado.
“Eles não vão se arriscar se Trump basicamente reconhecer o resultado”, afirmou.
Apesar das divergências ideológicas, os especialistas consideram que interesses econômicos e comerciais devem favorecer a manutenção do diálogo entre os dois governos.
Anthony Pereira avalia que Trump tende a adotar uma postura pragmática, uma vez que Brasil e Estados Unidos possuem empresas, investimentos e relações comerciais importantes para ambos os países.
No cenário internacional, a vitória de Lula também pode ampliar o papel diplomático do Brasil nas negociações envolvendo o Sul Global, a União Europeia e a China.
Para Sabatini, o presidente brasileiro poderá buscar uma posição de equilíbrio entre diferentes blocos geopolíticos, preservando a autonomia da política externa brasileira.
Além de Trump, o presidente da Argentina, Javier Milei, também não havia se pronunciado sobre o resultado eleitoral brasileiro até a publicação da reportagem da BBC.

