Ana Beatryz Fernandes
Em meio às prateleiras de um grande atacado varejista em Natal, o jovem trabalhador Vex Silva (nome fictício para preservar a identidade) enfrenta uma rotina que, segundo ele, vai além do cansaço físico. O relato foi obtido em entrevista concedida ao DIÁRIO DO RN. Aos quase dois anos submetido à escala 6×1, modelo em que se trabalha seis dias consecutivos para folgar apenas um, ele descreve um cotidiano marcado por sobrecarga, desgaste emocional e dificuldades para manter a própria saúde.
“Já trabalho há 1 ano e 10 meses na 6×1. Hoje estou no turno da noite, mas passei a maior parte do tempo no horário da tarde, das 13h40 às 22h”, conta. No sistema adotado pela empresa, as folgas são organizadas de acordo com o tempo de casa. Funcionários mais antigos têm prioridade na escolha dos dias, enquanto os mais novos ficam com as opções restantes. “Quem tem menos tempo acaba sempre com as piores folgas”, afirma.
Um dos pontos que mais incomodam Rian é a forma como a empresa lida com os domingos trabalhados. Pela legislação trabalhista, o descanso semanal deve ocorrer preferencialmente aos domingos, e há regras que limitam a quantidade de domingos consecutivos trabalhados. No entanto, segundo ele, a prática no local de trabalho envolve o uso do banco de horas para contornar essa limitação.
“Você folga no terceiro domingo, mas precisa ‘pagar’ essas horas depois. No fim, não é uma folga real”, relata.
Além disso, há períodos de maior exigência. “Nos dois últimos dias do mês e nos dez primeiros, todo mundo tem que fazer duas horas extras”, diz. Para ele, a obrigatoriedade dessas horas adicionais intensifica ainda mais o desgaste em um ambiente já exigente, especialmente em datas de maior movimento no comércio.
Impactos na saúde
O relato de Rian revela consequências que vão além do trabalho. Ele afirma ter enfrentado crises de ansiedade, isolamento social e mudanças no comportamento ao longo do tempo.
“Teve momentos em que eu estava a ponto de surtar. Passei semanas sem energia para falar com ninguém”, conta. O aumento no consumo de cigarro também foi uma consequência direta do estresse: “Antes eram dois por semana, depois passou para três por dia. Teve época de fumar cinco ou seis por dia”.
Segundo ele, a pressão constante e a dificuldade de mudar de setor após críticas internas agravaram a situação. “Depois que comecei a apontar problemas, fui ainda mais sobrecarregado e impedido de trocar de área”, afirma.
Hoje, Rian diz estar em um turno “mais confortável”, mas já planeja deixar o emprego nos próximos meses. “Todo mundo sabe que eu quero ser demitido, mas a empresa tenta fazer a pessoa pedir demissão”, relata.
Debate nacional sobre a escala 6×1
Casos como o de Rian têm impulsionado discussões no Congresso Nacional sobre mudanças na jornada de trabalho no Brasil. Atualmente, há diferentes propostas em tramitação, incluindo projeto de lei do Executivo e Propostas de Emenda à Constituição (PECs), que buscam alterar ou extinguir a escala 6×1.
O principal texto em debate foi enviado pelo governo federal em abril de 2026, com pedido de urgência constitucional. A proposta prevê a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, a garantia de dois dias de descanso remunerado por semana e a proibição de redução salarial. Na prática, o modelo predominante passaria a ser o 5×2 (cinco dias de trabalho e dois de folga), substituindo a lógica atual da escala 6×1.
Além disso, o projeto altera regras da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) para que o novo limite de 40 horas semanais seja aplicado também a regimes especiais, mantendo a jornada diária de até 8 horas e permitindo ajustes por negociação coletiva em setores específicos.
Paralelamente, o Congresso analisa propostas mais amplas, como a PEC 221/2019, que prevê a redução gradual da jornada para 36 horas semanais ao longo de dez anos, e a PEC 8/2025, que propõe a adoção de uma semana de quatro dias de trabalho. Ambas já tiveram a admissibilidade aprovada na Comissão de Constituição e Justiça e seguem em tramitação.
Essas propostas têm como objetivo ampliar o tempo de descanso, melhorar a qualidade de vida dos trabalhadores e reduzir problemas de saúde associados a jornadas prolongadas. Por outro lado, o tema ainda enfrenta resistência de setores empresariais, que apontam possíveis impactos econômicos e operacionais.
Realidade compartilhada
A experiência de Rian não é isolada. Ele próprio observa um padrão entre colegas: alta rotatividade, afastamentos frequentes e trabalhadores que, segundo ele, passam a fazer apenas o mínimo necessário para suportar a rotina.
“Você entende por que tem pouca gente querendo trabalhar nisso. É muito desgaste”, resume.
Enquanto o debate legislativo avança, histórias como a dele colocam em evidência os efeitos concretos da escala 6×1 na vida de milhares de trabalhadores brasileiros, especialmente jovens que entram no mercado em busca de oportunidade, mas encontram uma rotina que, muitas vezes, cobra um preço alto demais.

