O perfil @allysonarrochado se apresenta como coisa de fã: montagens, jingle, forró e entusiasmo pelo pré-candidato ao governo Allyson Bezerra. Mas nos registros internos do Instagram, entregues pela Meta à Justiça Eleitoral e aos quais o Blog do Dina teve acesso, o cadastro do perfil guarda um endereço que eleitor comum não tem: secom@prefeiturademossoro.com.br — o e-mail institucional da Secretaria de Comunicação da Prefeitura de Mossoró, que Allyson comandou até março deste ano.
A Lei das Eleições proíbe agente público de ceder ou usar bens da administração — e serviço de servidor pago pelo erário — em benefício de candidato. É a régua das chamadas condutas vedadas, cujas sanções vão de multa à cassação de registro. Quando o uso da máquina se soma a uma operação continuada, a Justiça Eleitoral examina outra moldura, mais grave: abuso de poder político, que pode custar oito anos de inelegibilidade. Se o e-mail da Secom no cadastro de um dos perfis pró-Allyson se encaixa numa dessas molduras, é pergunta que ainda não tem dono na Justiça Eleitoral: as ações em curso sobre os perfis tratam, até aqui, da propaganda antecipada em si.
Até aqui, a única explicação pública veio de João Carlos Medeiros, o comissionado da Câmara de Mossoró que admitiu administrar um dos perfis da rede, o @rncomallyson: “Eu fiz esse perfil por conta própria, para produzir minhas próprias postagens e defender aquilo em que acredito. Sou admirador e apoiador de Allyson desde a época em que ele era deputado estadual. Não sou remunerado e todas as produções são feitas por mim”, disse ao Diário do RN. Sobre o e-mail da Secom no @allysonarrochado, não há resposta de ninguém.
O e-mail que não é de eleitor
O documento em que o endereço aparece é um Business Record — o extrato cadastral que a Meta fornece quando a Justiça manda. No campo “Registered Email Addresses” do @allysonarrochado, o registro lista o e-mail da Secom como endereço verificado, com data de verificação em 22 de dezembro de 2019.
Há um detalhe técnico nessa data: ela é anterior à criação do próprio perfil, registrada em 19 de setembro de 2020. O que o documento crava é que o endereço institucional da prefeitura está entre os e-mails verificados da conta — dentro do cadastro do perfil mais antigo da rede investigada por propaganda antecipada em favor do ex-prefeito.
O Google, também por ordem judicial, acrescentou um dado sobre essa caixa postal: secom@prefeiturademossoro.com.br é conta de Google Workspace administrada pelo setor de Tecnologia da Informação da própria Prefeitura de Mossoró. Quem tinha acesso a ela, e quando, a prefeitura pode dizer.
A futura secretária

O segundo endereço verificado no mesmo perfil tem nome e sobrenome: valeriapersali@gmail.com, verificado em 28 de outubro de 2022.
Pouco mais de dois meses depois, no início de janeiro de 2023, Valéria Persali foi nomeada por Allyson secretária de Comunicação de Mossoró. E, como o Blog do Dina mostrou em julho, é noiva de João Carlos Medeiros — o administrador confesso do perfil mais ativo da rede, aquele que chamou Álvaro Dias de “caloteiro”.
A sequência que os documentos registram, portanto, é esta: o e-mail pessoal com o nome da futura secretária entrou no cadastro do perfil antes da nomeação — e ainda constava lá no extrato que a Meta gerou em junho de 2026, mais de três anos e uma gestão inteira da pasta depois.
Cinco perfis, um cadastro
A rede é composta por @allysonarrochado, @allyson_humorado, @timeallyson, @allysondopovo e @rncomallyson — juntos, somavam mais de 68 mil seguidores nas capturas juntadas aos autos. As publicações saíam em modo colaborativo, com a mesma identidade visual, o mesmo jingle, o mesmo beneficiário.
Mas o elo mais duro entre perfis não está na estética. Está no cadastro — e liga dois deles. O e-mail verificado do @allyson_humorado, registrado em 2023, é allysondopovo@gmail.com — o nome exato do perfil @allysondopovo, que só seria criado quase três anos depois, em março de 2026. Quem batizou a caixa postal de um perfil já sabia o nome do outro.
A data de nascimento do chefe
A resposta do Google sobre essa conta guarda o detalhe mais difícil de explicar como coincidência. A caixa allysondopovo@gmail.com foi criada em junho de 2023 sob o nome “Allysson Prefeito” — e com a data de nascimento 12 de maio de 1992. É a data de nascimento de Allyson Bezerra, conforme seus registros públicos de candidato.
Fã cria página, cria bordão, cria meme. Preencher cadastro com a data de nascimento do político é outra categoria de intimidade.
O e-mail de socorro dessa conta — o endereço que a recupera em caso de bloqueio — é rikellyfreitas5@gmail.com. Em petição apresentada à Justiça comum em 2022, esse endereço aparece como sendo de Rikelly Priscila de Freitas Costa, que ali já se qualificava como servidora pública e que acumulou quatro nomeações para cargos comissionados na gestão Allyson, incluindo assessora especial no Gabinete do Prefeito, conforme atos publicados no Diário Oficial do Município. O perfil verificado de Allyson segue no Instagram a conta @rikellyfreitas01, registrada como “Rikelly Freitas”. Os registros não dizem quem operava a conta; dizem qual chave a destranca.
E há um segundo fio. Na mesma petição de 2022, Rikelly declarou seu telefone. Esse número, segundo os registros da Meta, é exatamente o que está verificado no cadastro do @allyson_humorado — o perfil cujo e-mail é o allysondopovo@gmail.com. Na operadora, a linha consta em nome de outra pessoa. Pelos documentos, o mesmo par de contatos — um e-mail e um telefone — costura dois perfis da rede.
O dia 22 de junho
Em 22 de junho de 2026, a Justiça Eleitoral determinou que a Meta preservasse os dados cadastrais dos cinco perfis. Os registros mostram que, nesse mesmo dia, um e-mail novo apareceu verificado no @allysonarrochado: arrochadoallyson@gmail.com, criado — segundo o Google — naquela mesma data, sob o nome “Allyson Arrochado”, que não corresponde a pessoa física identificável. Os horários dos dois registros não se conciliam entre si — a Meta anota a verificação pela manhã, o Google anota a criação da conta à tarde —, mas ambos cravam o mesmo dia.
O e-mail da Secom continuou no cadastro. Mas, a partir daquele dia, deixou de estar sozinho.
O que a rede já custou
As decisões sobre os perfis pró-Allyson são públicas. Entre junho e julho, o TRE-RN deferiu cinco liminares contra publicações dos perfis, e em julho condenou Allyson, por unanimidade, a multa de R$ 10 mil por propaganda antecipada — com uma tese que pesa: o prévio conhecimento do beneficiário pode ser extraído do próprio comportamento da rede, como as biografias apontando para o perfil oficial dele e as marcações diretas. Três perfis estão suspensos por ordem judicial até 15 de agosto.
E há uma conta que ainda não fechou. A Justiça também mandou a Meta entregar os dados de impulsionamento dos perfis: contas publicitárias, valores gastos, formas de pagamento. Quando essa resposta chegar, a pergunta que os cadastros já insinuam terá número: quem pagava a espontaneidade?
O espaço está aberto para manifestação.
Fonte: Blog do Dina

