A regulamentação que autoriza o uso de canabidiol (CBD) como insumo farmacêutico em farmácias de manipulação pode reduzir em até 50% o custo dos tratamentos com cannabis medicinal no Brasil, além de ampliar o acesso dos pacientes e permitir terapias mais personalizadas. A avaliação é do farmacêutico e doutor em Farmacologia Fabricio Pamplona, sócio-diretor da Brascann Farmacêutica.
A mudança foi estabelecida pela Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) nº 1.015/2026, da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), publicada em fevereiro e em vigor desde maio deste ano. A norma autoriza o uso de CBD isolado como Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) para formulações magistrais, desde que apresente pureza mínima de 98%.
Segundo Pamplona, a medida representa um marco para a cannabis medicinal no país ao reduzir a dependência de produtos acabados importados e criar condições para uma cadeia produtiva mais eficiente.
“Isso cria uma oportunidade concreta para reduzir o preço final dos tratamentos e ampliar o acesso à cannabis medicinal no Brasil”, afirma.
De acordo com o especialista, dependendo da formulação prescrita, o custo para o paciente pode cair até 50% em comparação aos produtos atualmente comercializados em drogarias.
Tratamentos personalizados
Além da redução de custos, a nova regulamentação permite que médicos prescrevam formulações adaptadas às necessidades de cada paciente. Com o CBD disponível como insumo farmacêutico, as farmácias de manipulação poderão ajustar dosagens, formas farmacêuticas, veículos e concentrações conforme a resposta individual ao tratamento.
As formulações poderão ser produzidas em diferentes apresentações, como soluções orais, cápsulas, sprays sublinguais e produtos de uso tópico, incluindo cremes, géis e pomadas.
Segundo Pamplona, essa flexibilidade representa uma mudança significativa para a prática clínica.
“Produtos industrializados podem funcionar muito bem em determinadas situações, mas nem sempre conseguem oferecer o nível de personalização necessário para todos os casos”, destaca.
Entre as principais indicações clínicas do CBD manipulado estão ansiedade, estresse, insônia e outros distúrbios do sono, além de dor crônica, dor neuropática, epilepsia refratária e doenças dermatológicas, como dermatite, acne e psoríase.
Mercado em expansão
A autorização para o fornecimento de CBD às farmácias de manipulação faz parte de uma série de mudanças regulatórias implementadas pela Anvisa em 2026, consideradas pelo setor como decisivas para a consolidação da indústria da cannabis medicinal no Brasil.
Além da RDC nº 1.015/2026, o novo marco regulatório incluiu regras para o desenvolvimento da cadeia produtiva nacional, simplificou a prescrição de determinados produtos com baixo teor de THC e estabeleceu normas para o fornecimento de insumos destinados ao mercado magistral.
O avanço ocorre em um cenário de crescimento acelerado do setor. Segundo dados da empresa de inteligência de mercado Kaya Mind, a cannabis medicinal movimentou aproximadamente R$ 970 milhões no Brasil em 2025, um crescimento de 14% em relação ao ano anterior.
A expectativa é que o mercado ultrapasse R$ 1 bilhão em 2026 e alcance R$ 1,2 bilhão até 2027. Atualmente, cerca de 870 mil brasileiros utilizam tratamentos com cannabis medicinal, mas as projeções indicam potencial para atingir 6,9 milhões de consumidores no longo prazo.

