AQUITA, DA PELE À TELA, A ARTE COMO MOVIMENTO CONSTANTE
DA TATUAGEM NASCEU O ARTISTA
José Jonas de Aquita, artisticamente conhecido como Aquita, nasceu em Cerro Corá, no Rio Grande do Norte, há 56 anos. Filho de Áurea Bernabé de Oliveira e órfão de pai, construiu sua trajetória artística longe dos caminhos acadêmicos tradicionais. Sua primeira escola foi o desenho; depois, a pele humana tornou-se suporte, desafio e profissão.
Aquita pertence à geração que acompanhou a consolidação da tatuagem profissional no Brasil.
Abriu seu primeiro estúdio na praia de Ponta Negra, em Natal, numa época em que tatuar ainda significava enfrentar preconceitos e trabalhar com referências obtidas principalmente em revistas especializadas. Conserva exemplares históricos de publicações brasileiras de tatuagem, memória de um período anterior à internet e aos celulares. Participou de diversas convenções e recebeu prêmios e comendas. Hoje trabalha em Pium e continua tatuando, mas a pintura conquistou espaço decisivo em sua vida.
QUANDO A PELE ENCONTROU A TELA
Foi o artista Rafael Seridó quem o incentivou a experimentar os pincéis. O que começou como alternativa nos intervalos da tatuagem transformou-se em paixão e, atualmente, constitui parte importante de sua atividade profissional.
Há nessa passagem uma continuidade evidente. O tatuador precisa dominar contorno, composição, equilíbrio, preenchimento e leitura da superfície. Na tela, Aquita transporta esses fundamentos para outra escala e conquista maior liberdade cromática. Sua pintura não procura esconder a origem do desenhista. Pelo contrário: assume-a.
CERRO CORÁ: ARQUITETURA TRANSFORMADA EM MEMÓRIA

Na obra dedicada à igreja de Cerro Corá, Aquita transforma um marco arquitetônico em centro afetivo da composição. A frontalidade da igreja, os contornos definidos e as áreas de cor relativamente planas aproximam a tela de certas vertentes da arte naïf, linguagem na qual a representação não depende da perspectiva acadêmica para adquirir força expressiva.
A igreja amarela ocupa o espaço como símbolo de pertencimento. Ao redor dela, vegetação, caminhos, postes e elementos urbanos constroem uma paisagem que é menos documentação fotográfica do que memória reorganizada pela pintura. É justamente aí que a obra ganha interesse, Aquita não pinta apenas um edifício, pinta o lugar de onde veio.
A MULHER, A COR E A AFIRMAÇÃO DA IDENTIDADE

Na segunda tela, a figura feminina domina inteiramente o campo visual. O rosto frontal, o grande turbante e os adornos produzem monumentalidade. Vermelhos, amarelos, azuis e alaranjados estabelecem um contraste vigoroso com o fundo claro.
O retrato dialoga com uma longa tradição da representação da figura humana, mas sua construção também se aproxima da linguagem gráfica contemporânea e da própria tatuagem, linhas marcadas, volumes simplificados e atenção especial aos elementos ornamentais.
O turbante e os brincos não funcionam apenas como acessórios. Tornam-se signos de ancestralidade, presença e afirmação cultural. O olhar direto da personagem impede qualquer leitura passiva, ela ocupa a tela e exige ser vista.
Aquita já participou de exposição coletiva do Arte Sertão, onde recebeu menção honrosa. É um reconhecimento significativo, mas sua maior conquista talvez esteja na própria transformação de sua trajetória. Depois de décadas desenhando sobre corpos, descobriu que a tela também podia guardar histórias.
E segue pintando-as, entre Cerro Corá, Ponta Negra e Pium, com a segurança de quem compreendeu que a arte pode mudar de suporte sem perder sua identidade.
