O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou, na noite deste domingo (25), que sua reeleição representa uma derrota do negacionismo, da mentira e das tentativas de interferência externa no processo eleitoral brasileiro. Em seu primeiro pronunciamento após vencer Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno, o petista fez duras críticas ao adversário, prometeu mudanças na forma de governar e anunciou prioridades para seu quarto mandato à frente da Presidência da República.
“Essa eleição foi uma derrota do negacionismo. Foi uma derrota da mentira”, declarou Lula, ao comentar a campanha eleitoral. O presidente também criticou o comportamento de Flávio Bolsonaro durante os debates e afirmou que nunca imaginou enfrentar o que classificou como um representante do “milicianismo” brasileiro.
“Eu nunca pensei em me deparar com o representante genuíno do milicianismo deste país. Nunca imaginei que uma pessoa pudesse mentir tanto”, afirmou. A declaração foi feita em referência ao adversário, sem apresentação de provas específicas durante o pronunciamento.
Reeleito com 51,76% dos votos válidos, conforme os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) atualizados às 21h20, Lula conquistou 64.113.797 votos, contra 59.752.214 de Flávio Bolsonaro, que recebeu 48,24%. O resultado tornou o petista o primeiro presidente brasileiro a conquistar quatro eleições presidenciais pelo voto popular.
Lula critica plataformas digitais e denuncia interferência externa
Um dos principais pontos do discurso foi a atuação das grandes empresas de tecnologia durante as eleições. Lula acusou plataformas digitais de tentarem influenciar o resultado eleitoral e defendeu que crimes cometidos na internet recebam tratamento semelhante aos praticados fora do ambiente virtual.
“Não é possível que a gente não tenha consciência de que o crime no mundo digital tem que ser tratado igual ao crime na vida real”, afirmou.
O presidente também criticou empresas que, segundo ele, obtêm receitas bilionárias no país sem oferecer a devida contrapartida tributária e tentam interferir nas decisões políticas dos brasileiros.
Lula associou a vitória eleitoral à defesa da soberania nacional e destacou a mobilização realizada na Avenida Paulista, em São Paulo, durante a reta final da campanha.
“Este país não aceita ser quintal de ninguém”, declarou, ao defender uma política externa independente e relações diplomáticas baseadas no respeito entre os países.
“Vamos mudar o jeito de governar este país”
O presidente afirmou que a campanha eleitoral trouxe aprendizados e anunciou mudanças na relação entre o Governo Federal e a população durante o próximo mandato.
“Essas eleições me ensinaram muitas lições. Eu posso garantir para vocês que nós vamos mudar o jeito de governar este país”, afirmou.
Segundo Lula, a comunicação digital terá maior importância na administração federal, com ampliação dos canais de participação popular e maior presença do presidente nas redes sociais.
“Nós vamos fazer o povo participar mais das nossas decisões, e a comunicação digital vai ganhar um espaço muito grande no meu governo”, declarou.
Lula também afirmou que pretende estabelecer uma comunicação mais direta com os brasileiros, reduzindo a dependência da mediação jornalística para transmitir suas decisões e posicionamentos.
Durante o pronunciamento, agradeceu ao deputado federal André Janones pela atuação na campanha digital e destacou a participação de jovens, mulheres e idosos na mobilização eleitoral.
Presidente promete defender o SUS e ampliar políticas sociais
Na área social, Lula afirmou que a defesa do Sistema Único de Saúde (SUS) foi uma das principais motivações para disputar a reeleição. Segundo ele, a vitória impediu que adversários políticos chegassem ao poder com propostas que, em sua avaliação, ameaçariam o sistema público de saúde.
O presidente também anunciou que pretende fortalecer políticas de cuidado com a população idosa, ampliar a proteção às mulheres e garantir a liberdade religiosa.
“As mulheres serão tratadas com muito mais respeito. As religiões serão todas respeitadas em igualdade de condições”, afirmou.
Na saúde, Lula destacou projetos relacionados ao tratamento do câncer e à utilização de tecnologias avançadas nos hospitais brasileiros. Entre as iniciativas mencionadas está a implantação de 15 unidades de terapia intensiva inteligentes.
O presidente também citou investimentos em hospitais inteligentes e parcerias para ampliar a capacidade de atendimento da rede pública.
Lula quer criar inteligência artificial brasileira
Outro destaque do pronunciamento foi a defesa da soberania tecnológica nacional. Lula afirmou que pretende ampliar investimentos em educação científica, engenharia e desenvolvimento de inteligência artificial no Brasil.
“Eu não quero ficar dependendo de inteligência artificial chinesa ou americana, quero criar uma brasileira”, declarou.
O presidente também defendeu a instalação de centros de processamento de dados no território nacional, aproveitando o potencial brasileiro de produção de energia renovável.
Segundo Lula, o objetivo é reduzir a dependência tecnológica de outros países e garantir maior controle sobre os dados produzidos no Brasil.
A estratégia anunciada também prevê investimentos na economia digital, na economia verde e na economia criativa, setores considerados importantes pelo presidente para transformar o Brasil em um país desenvolvido.
Na área ambiental, Lula destacou a redução do desmatamento durante seu governo e agradeceu à ministra Marina Silva e a João Paulo Capobianco pela atuação nas políticas de proteção ambiental.
Segurança pública terá maior participação do Governo Federal
Ao abordar a segurança pública, Lula afirmou que pretende ampliar a responsabilidade da União no enfrentamento ao crime organizado.
O presidente argumentou que os estados enfrentam dificuldades para combater a criminalidade e que o Governo Federal deverá assumir uma atuação mais efetiva na área.
“Para o povo trabalhador, a gente vai dar proteção. Para o bandido, a gente vai dar prisão”, declarou.
Lula também defendeu maior coordenação nacional das políticas de segurança, com o objetivo de oferecer mais tranquilidade à população.
“Tenho que governar para 215 milhões”
Apesar das críticas ao adversário durante o pronunciamento, Lula afirmou que pretende governar para todos os brasileiros, independentemente do candidato escolhido nas urnas.
“Eu tenho que governar para 215 milhões. Eu tenho que governar todas as cidades”, declarou.
O presidente também comentou a composição do Congresso Nacional e rejeitou a avaliação de que terá dificuldades para governar em razão do fortalecimento de parlamentares conservadores.
“Eu não escolhi o Congresso, foi o povo que escolheu, e é com ele que eu vou trabalhar e aprovar as coisas”, afirmou.
Lula ressaltou que o respeito à Constituição será a base de sua relação com o Legislativo e com os demais setores da sociedade.
“Vou fazer o melhor mandato que um presidente já fez”
Ao comentar o significado histórico da vitória, Lula destacou sua origem como metalúrgico e o fato de ter conquistado quatro eleições presidenciais sem possuir diploma universitário.
“Tenho um orgulho muito grande por ser o único metalúrgico sem diploma universitário eleito quatro vezes democraticamente para o poder”, declarou.
O presidente também relembrou sua trajetória eleitoral e afirmou que nunca venceu uma eleição presidencial no primeiro turno, mas também nunca foi derrotado em uma disputa de segundo turno.
Aos 80 anos, Lula afirmou que pretende dedicar integralmente os próximos quatro anos à Presidência e prometeu superar os resultados de seus governos anteriores.
“Vou fazer o melhor mandato que um presidente já fez na história deste país. Vou dedicar 24 horas por dia para fazer deste país o país que todo mundo sonha”, afirmou.
Antes do pronunciamento, o vice-presidente Geraldo Alckmin também agradeceu aos eleitores e destacou a participação popular na eleição. Dirigindo-se a Lula, afirmou que o presidente havia, em sua avaliação, salvado a democracia brasileira pela segunda vez.

