Elane Nascimento
Pai de quatro filhos, o advogado Thiago Silva costuma dizer que a família é o seu “fã-clube” particular. É nela que encontra apoio nos momentos difíceis, celebra as conquistas e compartilha a missão de educar os filhos. A história construída ao lado da esposa, Ana Maria, no entanto, começou de uma forma diferente da maioria das famílias.
Quando iniciou o relacionamento, Ana já era mãe de duas meninas pequenas: Celina, hoje com 19 anos, e Andreza, de 17. À época, elas tinham apenas três e dois anos de idade. O casamento aconteceu rapidamente e, junto com ele, nasceu também uma relação de pai e filhas.
“Como nós nos casamos rápido, passei a conviver com elas cedo e o relacionamento foi construído naturalmente”, contou Thiago.
O vínculo surgiu de forma espontânea. As meninas passaram a chamá-lo de pai ainda pequenas e, anos depois, a família descobriu que poderia formalizar legalmente aquela relação por meio da adoção unilateral.
“Nós não sabíamos da possibilidade. Até começamos a trabalhar como voluntários no Projeto Acalanto e conhecemos a possibilidade da adoção unilateral. Conversamos com elas duas, a mais velha tinha seis anos e a mais nova cinco, as duas ficaram empolgadas com a ideia, já me chamavam de pai desde sempre, então só formalizamos”, relatou.
Para Thiago, nunca houve um momento específico em que passou a se sentir pai das meninas. A relação foi sendo construída na rotina da família, de forma leve e natural.
“Na verdade, foi um processo bem natural, elas me adotaram de imediato, sempre foram muito carinhosas. Até mesmo Andreza, que sempre foi muito fechada para qualquer pessoa, comigo era muito leve”, disse.
Hoje, além de Celina e Andreza, a família também é formada por Isabela, de oito anos, e Samuel, de 11 meses.
Os desafios da paternidade atípica
A caminhada da família ganhou novos desafios quando as duas filhas mais velhas receberam o diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA), nível 1 de suporte.
Andreza iniciou acompanhamento ainda muito nova, mas o diagnóstico definitivo só veio aos 15 anos, após anos de investigação. Já Celina descobriu o transtorno durante uma série de exames realizados após enfrentar uma crise depressiva.
Segundo Thiago, as maiores dificuldades apareceram no ambiente escolar.
“As escolas não estavam preparadas para o apoio necessário”, afirmou.
Ele conta que Andreza estudou em três escolas particulares antes de encontrar, na rede pública, o acompanhamento de que precisava.
“Andreza passou por três escolas particulares, até que o melhor acompanhamento ela recebeu exatamente onde a gente menos esperava, na escola pública. Hoje ela faz o 3º ano no Anísio Teixeira e tem conseguido ter o suporte mínimo para vencer as limitações”, comentou.
Já Celina enfrentou dificuldades para manter a frequência escolar durante o período mais crítico da depressão. Ela precisou deixar o curso que fazia no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN), concluiu o ensino médio e, por intermédio do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) atualmente cursa Enfermagem na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
Samuel chegou quando tudo parecia impossível
Depois do nascimento de Isabela, a família acreditava que não teria mais filhos biológicos. Ana havia realizado uma laqueadura e o casal pensava, no futuro, em adotar outra criança.
Por isso, a descoberta de uma nova gravidez foi recebida com surpresa.
“Não estava nos planos, para nós parecia impossível, mas quando recebemos a notícia e passou a fase do susto, compreendemos que era propósito de Deus”, afirmou.
Segundo ele, meses antes da descoberta da gestação, o casal acreditava ter recebido de Deus a promessa de que teria um filho chamado Samuel.
“Alguns meses antes de descobrir a gravidez, Deus havia falado que teríamos um Samuel, porém, como tínhamos planos de adotar outra criança quando as nossas já estivessem maiores, achamos que era sobre isso. Até que descobrimos a gravidez e compreendemos que Ele já estava nos preparando para Samuel”, contou.
Hoje, o menino tem 11 meses e completa a rotina de uma casa movimentada por quatro filhos.
Para Thiago, criar quatro filhos exige equilíbrio entre trabalho, presença e parceria dentro de casa.
Ele explica que a esposa renunciou à carreira como professora logo no início do casamento para acompanhar o desenvolvimento das filhas.
“Minha esposa já desde o início do casamento abriu mão da vida profissional dela, era professora multidisciplinar, largou faculdade e escolheu ficar em casa para acompanhar o desenvolvimento das duas mais velhas e depois de Isabela também. Hoje retornou para faculdade, cursa Pedagogia na UFRN, mas para poder cursar, leva Samuel todos os dias para assistir aula com ela”, relatou.
Apesar da rotina intensa, Thiago afirma que a família procura viver os momentos de lazer sempre reunida.
“Normalmente nossos programas são sempre com os seis juntos, além da igreja, tentamos manter a rotina de ter momentos de conversas e brincadeiras. Elas gostam muito de jogos de roda, de carta, de tabuleiro; até os jogos do ABC voltaram a ser um programa em família”, disse.
Ele reconhece que a esposa está mais presente na rotina dos filhos por causa da sua carga de trabalho, mas destaca que ambos procuram compartilhar os cuidados sempre que possível.
“Hoje, Aninha é bem mais participativa do que eu, fico muito ausente. Mas, ainda conseguimos compartilhar o cuidado e aproveitar os momentos que podemos estar juntos”, afirmou.
O exemplo que veio do pai
A forma como Thiago exerce a paternidade também foi inspirada pela educação que recebeu.
Filho de um médico que trabalhava em regime de plantão no interior do Estado, ele cresceu convivendo com períodos de ausência do pai, compensados pela dedicação quando estava em casa.
“Meu pai é médico e trabalhava em regime de plantão no interior, então passava muito tempo longe, mas quando estava em casa, ele buscava suprir essa ausência”, recordou.
Ele lembra que o pai sempre foi um conselheiro e utilizava exemplos bíblicos para orientar a família.
“Além da fé, esse foi também o maior aprendizado que ele nos transmitiu, o respeito às escolhas e a prontidão para socorrer”, afirmou.
Os domingos no antigo Machadão (atual Arena das Dunas) acompanhando os jogos do ABC ao lado da família, também ficaram marcados na memória e hoje inspiram novos momentos ao lado dos filhos.
Ao falar sobre o significado da paternidade, Thiago resume aquilo que procura viver diariamente com a esposa e os quatro filhos.
“Ser pai é viver um chamado de Deus para proteger, cuidar, educar e conduzi-los no caminho de Cristo, formando uma geração que O conheça e glorifique. E assim foi a forma que Deus encontrou de nos lembrar cada dia que Ele cuida de nós”, afirmou.
É também na família que ele encontra a maior motivação para seguir em frente.
“É o nosso ‘fã-clube’ privado, sei que estão sempre torcendo por mim, chorando comigo em minhas dores e me dando força pra superar, são as primeiras a se alegrar nas minhas vitórias, muitas vezes são mais esperançosas em mim do que eu mesmo. No trabalho na igreja, estamos sempre juntos cumprindo o chamado em família e dentro de casa, o porto seguro. Embora às vezes existam dificuldades e caras feias, mas sempre as mãos estão estendidas para apoiar”, concluiu.

