Por Elane Nascimento
Mensagens publicadas nas redes sociais, ameaças direcionadas a trabalhadores e manifestações de empresários relacionadas a posicionamentos políticos colocaram casos de assédio eleitoral e político no radar do Ministério Público do Trabalho no Rio Grande do Norte (MPT-RN). Entre as situações acompanhadas pelo órgão estão episódios envolvendo uma empresária de Macaíba que publicou restrições a currículos de pessoas identificadas politicamente e o caso do empresário conhecido como “Hot Dog do Negão”, que utilizou as redes sociais para manifestações relacionadas ao período eleitoral.
Para o procurador-chefe do MPT-RN, Gleydson Gadelha, o ambiente profissional não pode ser utilizado como espaço de pressão política. Segundo ele, a liberdade de manifestação é um direito garantido, mas não permite condutas que afetem a relação de trabalho.
“Na época da eleição e logo após, chamamos de assédio eleitoral porque ataca o direito de voto. Nos outros períodos, passa a ser assédio político. O MPT atua da mesma forma, pois a coação por entendimento ideológico é proibida da mesma maneira que a discriminação de gênero ou racial”, explica.
Casos envolvendo empresas chegaram ao MPT-RN
Entre os episódios acompanhados pelo Ministério Público do Trabalho está o caso de uma empresária de Macaíba que publicou uma mensagem afirmando que não receberia currículos de pessoas identificadas como apoiadoras do Partido dos Trabalhadores (PT).
“Se você é petista, não me mande currículo”, afirmou Camila Rodrigues. Ela é responsável pelas empresas de moda feminina Pitanga Brasil e PB Move. No Instagram, os perfis das duas empresas foram trancados.
A publicação gerou repercussão nas redes sociais e passou a ser analisada dentro do debate sobre os limites da manifestação política no ambiente profissional.
Em outro caso citado pelo MPT-RN, vídeos publicados no Instagram mostram manifestações político-partidárias em um ambiente de construção civil, na presença de trabalhadores. Entre os episódios relatados estão uma fala sobre colocar em uma betoneira um trabalhador que demonstrasse preferência por determinado candidato e uma declaração de que trabalhadores deixariam de ser contratados caso um candidato específico vencesse as eleições.
“Hot Dog do Negão”: ameaças e possíveis retaliações profissionais
O proprietário do “Hot Dog do Negão”, Victor Cunha, publicou vídeos com declarações relacionadas ao cenário eleitoral e manifestações direcionadas a trabalhadores e eleitores.
Também foram registrados relatos envolvendo ameaças e possíveis retaliações profissionais relacionadas ao posicionamento político de empregados.
“Agora eu faço questão de não dar nenhum real pra um petista”, declarou.
Victor citou profissionais que prestavam serviços à família, incluindo pessoas responsáveis por cílios, unhas, cabelo, tranças e aulas de reforço escolar para suas filhas. Segundo ele, os pagamentos seriam interrompidos por causa da orientação política dessas pessoas.
“Eu faço questão de trocar, de procurar profissionais que tenham o mesmo pensamento que eu”, afirmou.
Para o promotor-chefe do MPT-RN, situações como essas exigem atenção porque a relação entre empregador e trabalhador envolve uma diferença de poder econômico.
“O trabalhador tem uma relação de dependência econômica com o empregador e isso não pode ser utilizado para limitar a liberdade de consciência ou de escolha política”, afirma.
O procurador destaca ainda que empresas têm responsabilidade na construção de um ambiente profissional livre de discriminações.
“O empregador tem o dever de garantir um ambiente de trabalho saudável, onde as pessoas possam exercer suas atividades sem sofrer qualquer tipo de perseguição”, comenta.
Anderson Lopez relata impacto profissional após posicionamento político

O jornalista e influenciador Anderson Lopez também relatou ter enfrentado consequências profissionais após manifestações políticas nas redes sociais.
Segundo ele, uma relação contratual foi encerrada após uma conversa em que questionou se a decisão poderia estar relacionada ao seu posicionamento político.
“Ela disse assim: ‘Oi Anderson, bom dia, tudo bem? Infelizmente a gente não vai dar continuidade no contrato. Aí eu até falei: Oi, bom dia. Tudo bem? Mas foi por quê? Foi por conta do meu posicionamento político?’ Ela visualizou e não respondeu. O trabalho que eu estava fazendo era de gerenciamento de rede social. Tinha uns 3 meses. Pronto. Foi isso. Ela não falou mais nada”, disse.
O caso, segundo Anderson, levanta uma preocupação sobre os limites entre a opinião pessoal de um profissional e possíveis impactos na sua trajetória de trabalho.
Juliana Celli mobiliza seguidores após casos de discriminação política

A jornalista Juliana Celli decidiu transformar o debate sobre posicionamento político nas relações comerciais em uma mobilização nas redes sociais. A iniciativa surgiu após episódios em que empresas passaram a associar atendimento ou relação profissional ao posicionamento político de clientes e trabalhadores.
Segundo Juliana, a proposta não era discutir preferência partidária, mas defender que empresas e profissionais não utilizem suas posições para constranger pessoas por suas escolhas políticas.
“Gente, tá rolando aí, uma campanha para demissão em massa de petistas, de pessoas que votaram no Lula. E tem algumas empresas também dizendo que não querem clientes que votaram no Lula. Então faz o seguinte, para gente organizar aqui, não ser maltratado nos lugares, né, porque a gente não gosta de ser maltratado, aí você já coloca aqui nos comentários o nome da sua empresa, colocar aí o ‘@’, para gente não ir lá comprar. E se você tem uma empresa e quer aceitar todo mundo, ama as pessoas de todos os partidos e que que votaram no Lula vai ser bem tratado aí, também coloca aqui para gente saber. Vamos facilitar, organizando tudo dá certo”, disse Juliana em vídeo publicado na rede social Instagram.
A mobilização ganhou repercussão nas redes sociais e dividiu opiniões entre seguidores. Enquanto alguns apoiaram a iniciativa, outros criticaram a postura adotada.
Entre as mensagens de apoio recebidas, seguidores destacaram a defesa do respeito e da liberdade de opinião.
“Você é uma pessoa que dá voz a muitos que não conseguem se posicionar. Seu trabalho vai além da comunicação, ele representa coragem e compromisso”, comentou um seguidor.
Para Juliana, o debate mostra a necessidade de discutir limites nas relações entre consumidores, empresas e posicionamentos ideológicos.

