A INACEITÁVEL ESCAPADA
Dizem que na arte da guerra — aquela escrita por Sun Tzu, e não a praticada nos acalorados grupos de WhatsApp —, a regra de ouro de qualquer grande líder é jamais abandonar o front no meio da fumaça. Pois bem: parece que o senador Flávio Bolsonaro (PL) prefere a arte da aviação comercial e o conforto das altitudes.
Apenas alguns dias após as urnas de 25 de outubro registrarem uma votação monumental, em que quase 60 milhões de brasileiros confiaram a ele a esperança de liderar o país e comandar os destinos do Brasil, o parlamentar protagonizou uma das cenas mais pitorescas do anedotário político nacional. Depois de encher o peito, ajustar a gravata diante das câmeras e bradar que jamais deixaria o solo pátrio, prometendo encabeçar com punho de ferro a oposição ao governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o “líder” afivelou os cintos e empreendeu uma fuga tão inesperada quanto estabanada.
O movimento deixou atônita, perplexa e de queixo caído uma multidão de eleitores que acabara de depositar nas urnas uma expressiva demonstração de apoio político. Aliados e amigos mais próximos correram para passar o tradicional pano quente, alegando um suposto clima de pavor institucional. O estopim para a debandada teria sido mais uma investida revanchista do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal — o arqui-inimigo estimado da família Bolsonaro desde os bons e barulhentos tempos de Planalto. Moraes determinou a apreensão dos passaportes do senador que, embora investigado em inquéritos da Polícia Federal, sequer ostenta qualquer condenação transitada em julgado. Para a claque bolsonarista, um ato de pura perseguição. Para somar ao drama, os rumores de que Lula indicará mais quatro ministros para a Corte transformaram o horizonte dos opositores em uma verdadeira tempestade perfeita sobre a Praça dos Três Poderes.
Contudo, seja lá qual for a narrativa de vitimização escolhida para embalar a mala de viagem, a realidade dos fatos é implacável com os discursos de bravata. Não há malabarismo retórico que salve o papelão. O tal “comandante”, que prometia guiar as dezenas de milhões de cidadãos que nele votaram, preferiu o portão de embarque clandestino ao invés de encarar o debate político no plenário do Senado.
No fim das contas, a amarga lição que fica para os quase 60 milhões de eleitores órfãos é bastante simples: na hora em que o bicho pega e o cerco aperta, há quem prefira virar leão nas redes sociais e corajoso passageiro na classe executiva. O “líder da oposição” voou longe, para os Estados Unidos, deixou a tropa sem rumo e transformou o prometido projeto de nação em uma cômica e melancólica corrida, transpondo fronteiras – que só Deus sabe como – até chegar ao aeroporto.
Para grande parte de seus aliados políticos com mandatos recém renovados, a escapada do “líder” é simplesmente inaceitável.
INTERROGAÇÃO
Pergunta que não quer calar: será mesmo que membros da cúpula do Partido Liberal, incluindo aí o nosso conterrâneo senador Rogério Marinho, não sabiam verdadeiramente da fuga espetacular de Flávio Bolsonaro?
INTERROGAÇÃO 2
Ou será que houve um combinado para o “desconhecimento” da fuga para que não se tornassem cúmplices?
EDITORIAL
Em sua edição de ontem, quarta-feira, 28, o jornal O Estado de São Paulo trouxe no seu editorial “Politização do STF continua firme”.
EDITORIAL 2
E sintetizou: “A cogitada indicação de Pacheco como retribuição a Alcolumbre é um mau sinal.
Lula não pode usar o Supremo como moeda de troca nem governar por intermédio de ministros ligados a ele”.
AFASTAMENTO
Finalizando, o editorial do Estadão tasca: “Se se afastar dos ministros sob suspeita, de forma inequívoca, altiva e republicana, Lula se aproximará não apenas do Congresso, mas da ampla parcela da população que, tendo ou não votado nele, está estarrecida com o mau caminho que parte do Supremo decidiu trilhar”.
FOLHA
Em seu editorial principal, Folha de São Paulo, edição dia 28, trouxe: “Revanche de Moraes e fuga de Flávio maculam a política”.
FOLHA 2
O editorial abre dizendo que “Após determinação do ministro do STF para entrega de seus passaportes logo depois da derrota na eleição, senador deixa o país rumo aos EUA, decisão monocrática dá ao bolsonarismo o discurso de perseguição”.
CADU
O recém-eleito governador Carlos Eduardo Xavier vai receber da governadora Fátima Bezerra uma situação bem parecida com a que a petista recebeu de Robinson Faria.
DIFERENÇA
A diferença é que Cadu não vai receber o estado com folhas de pagamento em atraso, mas com as finanças completamente comprometidas, inclusive com parcelas de empréstimos vencidas. Cadu buscará compreensão dos Poderes Judiciário, Legislativo e do Ministério Público para adequar seus orçamentos dentro da nova realidade financeira do Estado.

