Um pequeno molusco originário da Ásia está se espalhando por rios e reservatórios brasileiros e preocupa pesquisadores pelos riscos à biodiversidade e à infraestrutura de abastecimento de água e geração de energia elétrica. Conhecido como mexilhão-dourado (Limnoperna fortunei), o animal tem alta capacidade de reprodução e pode formar colônias com milhares de indivíduos, provocando o entupimento de tubulações e equipamentos utilizados em usinas hidrelétricas.
O avanço da espécie ganhou novos registros em outubro de 2026. Pesquisadores da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) confirmaram a presença do molusco em um novo trecho do Rio São Francisco, no Norte de Minas Gerais, a aproximadamente mil quilômetros do registro anterior mais próximo. A descoberta foi divulgada pela universidade na quarta-feira (21) e publicada na revista científica Check List.
Segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o mexilhão-dourado é considerado uma espécie exótica invasora porque apresenta elevada capacidade de reprodução e dispersão, além de encontrar poucos predadores naturais nos ecossistemas brasileiros.
O animal chegou à América do Sul provavelmente no início da década de 1990, transportado acidentalmente pela água de lastro de navios cargueiros. Após os primeiros registros na Argentina, espalhou-se por diferentes bacias hidrográficas brasileiras.
Amazônia registra milhares de moluscos por metro quadrado
A expansão da espécie também preocupa pesquisadores na Amazônia. Um estudo publicado em dezembro de 2025 na revista científica Acta Limnologica Brasiliensia identificou concentrações de até 15.849 mexilhões por metro quadrado em trechos do Rio Tocantins, no Pará.
O levantamento foi realizado em outubro de 2024, na região do Pedral do Lourenço, entre Marabá e Tucuruí. Os pesquisadores encontraram indivíduos de diferentes tamanhos, indicando que o molusco já havia estabelecido populações reprodutivas na região.
Dados divulgados pela revista Pesquisa FAPESP também mostram o crescimento acelerado da população da espécie no Tocantins, com densidade média de 11.940 indivíduos por metro quadrado, contra 88 indivíduos por metro quadrado registrados em 2023.
No Nordeste, pesquisas publicadas em 2026 identificaram a presença do mexilhão-dourado na bacia do Rio Pajeú, em Pernambuco. No reservatório Barra do Juá, a espécie foi encontrada inicialmente em embarcações e, posteriormente, em diferentes pontos de amostragem.
Como o molusco pode prejudicar hidrelétricas?
O principal risco está na capacidade do mexilhão-dourado de se fixar em superfícies submersas, formando grandes aglomerados. Esse processo, conhecido como bioincrustação, pode reduzir ou bloquear a passagem de água por tubulações, filtros e sistemas de captação.
Nas usinas hidrelétricas, a presença do molusco pode comprometer equipamentos utilizados na geração de energia e nos sistemas de resfriamento. Segundo o Ibama, o acúmulo dos animais exige intervenções frequentes de limpeza e manutenção, elevando os custos operacionais e podendo provocar interrupções no funcionamento de equipamentos.
Os impactos também atingem estações de tratamento de água, sistemas de irrigação, embarcações e atividades pesqueiras.

