Por Elane Nascimento
A música autoral produzida no Rio Grande do Norte vive um momento de transformação, impulsionado pelas novas possibilidades digitais, mas ainda enfrenta desafios relacionados à valorização cultural, formação profissional e acesso a espaços de circulação. Esse cenário será discutido durante a III Semana Cultural da Música Potiguar, que acontece de 27 a 30 de outubro, na Escola de Música da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (EMUFRN).
Promovido pela Rede Potiguar de Música (RPM), o evento reúne artistas, produtores, profissionais e integrantes da cadeia produtiva musical do estado em uma programação com palestras, minicursos, encontros e apresentações voltadas à criação, produção, circulação e valorização da música potiguar.
Para Pollyana Guimarães, produtora cultural e integrante do Caninga Selos Musicais, o momento atual abre novas possibilidades para artistas independentes, mas também revela dificuldades na sustentabilidade da carreira musical.
“Estamos vivendo uma época de algumas facilidades digitais, que permitem que os compositores e intérpretes consigam chegar num lugar de divulgação do trabalho bem mais amplo do que há alguns anos atrás, quando a gente não tinha plataformas de streaming e era muito difícil conseguir uma gravadora”, comentou Pollyana.
Segundo ela, apesar das novas ferramentas, ainda existe a necessidade de fortalecer o consumo da produção local. “O que falta para o potiguar é o orgulho de consumir o som potiguar, a própria cultura, e a gente acaba muito preso numa bolha. Os próprios músicos consomem suas músicas e a gente quer que toda a comunidade escute, toda a comunidade valorize, como acontece nos estados vizinhos”, explicou.
Entre os principais desafios apontados pela produtora está a valorização dos artistas potiguares em grandes eventos e a criação de condições para que a música autoral consiga alcançar novos públicos.
“Primeiro desafio, acho que essa barreira cultural do potiguar ter orgulho e querer ouvir, querer conhecer os artistas daqui”, afirmou Pollyana.
Ela também destacou a necessidade de ampliar políticas e projetos voltados para gravação, divulgação e circulação da produção musical. “Falta suporte financeiro e logístico para desenvolver um mercado com pessoas mais capazes, mais antenadas, usando os recursos que se tem para usar”, comentou.
A presença nas plataformas digitais também será tema da programação da Semana Cultural. Para Pollyana, estar em serviços de streaming é importante para participar do mercado atual, mas não representa, sozinho, uma garantia de reconhecimento ou retorno financeiro.
“É uma ilusão pensar que estar numa plataforma de streaming vai resolver a carreira ou vai tornar aquele músico reconhecido ou muito menos vai gerar alguma renda”, explicou.
De acordo com a produtora, o desenvolvimento de uma carreira musical depende de planejamento, produção e estratégias além da publicação de uma música na internet.
“Não é só colocar no streaming, é todo um pensamento de carreira em volta disso, de planejamento artístico, de visão para tentar envolver a música num produto que as pessoas queiram consumir”, esclareceu.
A proposta da III Semana Cultural é justamente ampliar o acesso à informação e contribuir para a profissionalização do mercado musical potiguar. A programação formativa inclui o CriProCó Musical (Criação, Produção e Comunicação Musical), com palestras e minicursos sobre distribuição digital, direitos autorais, produção de vinhetas e criação artística.
O projeto é uma iniciativa da Rede Potiguar de Música, com apoio do Caninga Selos Musicais, projeto de extensão da Escola de Música da UFRN, e do Comitê de Cultura do Ministério da Cultura no Rio Grande do Norte.
“A semana é uma ideia da Rede Potiguar de Música e, a partir dessa ideia, a Escola de Música deu o suporte de somar junto e, através da existência do nosso selo, que se chama Caninga Selos, resolvemos promover a semana cultural com essa parceria”, explicou Pollyana.
Programação reúne palestras, oficinas e apresentação musical
A programação começa na terça-feira (27), às 14h, com o bate-papo “Panorama da Música Potiguar: Educação, Acervo e Memória”, com Esso Alencar, da RPM. Na quarta-feira (28), serão realizadas as palestras “Distribuição e Lançamento Digital”, com Polly Guimarães, e “Direito Autoral na Era Digital”, com Giselle Luz, gerente regional do ECAD Nordeste.
Na quinta-feira (29), acontecem os minicursos “Vinhetas Sonoras para Rádio, TV e Publicidade”, com Ciro Pedroza, e “Criação e Produção Artística”, conduzido por Polly Guimarães. O encerramento será na sexta-feira (30), às 17h, com o Caninga Jams – Música no Estacionamento, reunindo músicos da Rede Potiguar de Música e participantes do evento.
Para Pollyana, incentivar a música autoral significa preservar a identidade cultural do estado.
“A música autoral diz muito sobre a cultura local, sobre como as pessoas compartilham o mesmo clima, as mesmas influências, as mesmas paisagens. É muito importante que a gente tenha esse registro e essa valorização do próprio trabalho musical que é cultura local”, afirmou.
As inscrições para participar da Semana Cultural serão abertas no dia 22 de outubro e seguem até o primeiro dia do evento. A participação é gratuita e os participantes recebem certificado.

