Que os tempos estão sombrios, os valores distorcidos e a sociedade adoecida, sabemos. Mas nem todos calejaram o suficiente para seguir tão indiferentes. Menos mal. Espero que, se, assim como eu, você prefere acreditar que um mundo sem violência é possível (e melhor), se permita observar racionalmente como a situação caminha para precipícios já superados (por outras mulheres). O embrulhamento, a indignação e a incredulidade não devem ser só meus. Tenho fé que não sejam. Há dias, saber que uma jovem recém-eleita deputada estadual de São Paulo conquistou a cadeira com um discurso não vazio, mas pesado de ódio, ódio à sua própria condição de ser mulher, me embrulha. Vi rapidamente o short (agora tudo é recorte, não é mesmo?) no qual ela dizia que, pasme, feminicídio não existe. Desde então, minha memória não para de resgatar os casos “inexistentes” com os quais me deparei por toda a vida, que ainda não é longa. Disse que tudo agora é recorte, não é? A verdade é que, na vida das mulheres, o recorte corta a carne e sangra muito desde que o mundo é mundo, e carrega a responsabilidade política e moral do sangue derramado quem, como a recém-eleita deputada e seus eleitores, escolhe invisibilizar essa dor.
Sempre que tenho a oportunidade de alertar sobre casos de violência contra a mulher, lembro-me do mesmo entristecimento sentido no dia em que eu tinha apenas 11 anos e passei na frente da casa de uma jovem mulher, mais nova do que sou hoje e que deixou dois filhos, de 2 e 6 anos, após ter a cabeça arrancada pelo marido, no bairro Santarém, na Zona Norte de Natal/RN, em 2010. A rua estava cheia de viaturas, pessoas caminhando (que era o meu caso, indo para a casa da minha avó), carniceiros e curiosos. Eu ouvia gritos: “ele enterrou a cabeça”. Relendo a reportagem hoje, vi que ele a tinha jogado no Rio Doce. Notícia que amarga a alma. Lembro que, quando criança, chorei muito; os filhos dela estudavam na mesma escola que eu, e eu ficava pensando: “poderia ter sido com a minha mãe”. Dava medo. Ela só tinha 25 anos. Dava, e continua dando, muita revolta. Desde essa idade, ainda criança, eu já tinha medo dessa agressividade que a recém-eleita diz ser “necessária ao macho”. Eu acompanhava de perto o que era uma mulher quase apanhar ou “apanhar só um pouco”; da janela, até via apanharem muito. Em casa, era habitual o “só quase”, mais ignorância. Na esquina, às vezes havia marcas de sangue, de mulher ou de travesti, mas essa dor fica para outro texto.
Digo tudo isso para relembrar o que já vemos todos os dias: o machismo mata e as antifeministas matam junto. Não precisa de esforço para descobrir quantos crimes dessa natureza acontecem por dia no mundo: são 137, segundo relatórios da Organização das Nações Unidas (ONU). Sim, 137 mulheres e meninas são mortas todos os dias por parceiros íntimos ou familiares. Uma a cada 10 minutos. Quem normaliza, mata junto. Quem invisibiliza, mata junto também. A nossa leitura de mundo nunca é formada de um lugar só.
Destaco com carinho a frase que ouvi pela primeira vez na Marcha Mundial das Mulheres: “um mundo bom para as mulheres é um mundo bom para todas as pessoas”. Eu já sabia o quanto aquilo era verdade. Você também deve saber, não tenho dúvidas. E acredito na sua capacidade de avaliar se o caminho que estamos seguindo construirá um mundo bom para todas as pessoas.
jornalista formada pelo ProUni, especialista em Gestão Pública e Comunicação Pública. Nascida no Passo da Pátria, na Zona Leste de Natal/RN, é fruto das políticas públicas
