Aprender política nos livros é um caminho. Mas só teórico. Porque o aprendizado ocorre entre as paredes das escolas e das universidades, lendo os mais diversos autores. Ali é possível conhecer as teorias, distinguir as correntes, saber onde termina uma doutrina e começa outra. A política, porém, é uma senhora que anda pelas ruas e entra sem pedir licença nas casas das pessoas, e nem sempre se deixa compreender pelos livros. Ela tem segredos que só revela a quem sabe escutar o rumor das massas, da multidão, o silêncio de uma sala e o desconforto de um aperto de mão. Luiz Inácio Lula da Silva pertence à segunda escola.
A vida não deu a Lula um diploma universitário, mas lhe entregou uma coisa bem mais difícil de ensinar: o faro. Não o faro metafórico dos discursos, mas uma espécie de instinto, quase animal, que lhe permite perceber a mudança dos ventos antes que os outros procurem no céu algum sinal de tempestade. Não voto nele, nem em candidatos do PT, há quase uma década e meia. Mas, quando olho para Lula, reconheço algo daquele animal político aristotélico, despido da gravidade dos filósofos e vestido com a roupa comum dos homens que aprenderam a viver.
No final dos anos 1970, no ABC paulista, havia muita gente discutindo a revolução em salas fechadas. Falava-se do proletariado, da história, das leis que governariam a transformação do mundo, da revolução. Enquanto isso, nos pátios das fábricas, um metalúrgico de barba cerrada começava a falar de coisas mais próximas: o salário, o cansaço, a inflação etc.
Vieram as derrotas eleitorais. Uma, duas, três para presidente, em 1989, 1994 e 1998. Antes, para governador, em 1982. A cada uma delas, os analistas tinham suas explicações, e os adversários, seus festejos. Os mais impacientes talvez julgassem encerrada aquela história. Lula, não.
Obstinado entendeu que a porta do poder não se abriria apenas com a chave que trouxera do movimento sindical. Era preciso mudar o tom, aceitar conversas, tranquilizar os desconfiados. E assim fez em 2002, com a Carta aos Brasileiros.
Há quem veja nisso pragmatismo e há quem prefira chamar de oportunismo. A política é feita dessa matéria ambígua, em que a virtude e o cálculo nem sempre se deixam separar nem mesmo com um bisturi. Lula tem a habilidade do homem que conversa na calçada, sabe quando insistir e quando oferecer um café, quando apertar a mão e quando esperar que o outro se aproxime. Não é pouca coisa num país em que tantos confundem firmeza com teimosia e convicção com incapacidade de ouvir.
Vieram as tempestades. O Mensalão, o Petrolão, a prisão em Curitiba, a longa travessia de um homem que parecia ter sido retirado da história. Houve quem imaginasse que sua carreira terminara ali. Mas o bicho político continuava vivo, recolhido, talvez ferido, sem perder inteiramente a capacidade de farejar o ambiente. O país mudou e os adversários se desgastaram.
Lula voltou. Não por milagre, nem por destino escrito em algum livro, mas porque soube reconhecer uma oportunidade que muitos julgavam impossível.
Não é necessário gostar de Lula (eu mesmo não gosto) para admitir essa qualidade. A história não costuma perguntar se simpatizamos com seus personagens antes de lhes conceder um lugar. Lula erra, contradiz-se, carrega as marcas de suas escolhas e não está acima das críticas. Mas possui algo raro: sabe que a política não se faz apenas com ideias sobre o povo; faz-se também com a capacidade de perceber o que o povo sente, teme e espera. É uma lição que os livros não ensinam inteiramente.
A razão organiza, em muitos momentos, o mundo. É instinto, porém, que por vezes encontra a passagem.
Lula não é um homem que conhece as palavras com que os sábios explicam a vida. Mas é um daqueles que aprendem a ouvi-la no seu rumor mais profundo. E isso, como quase tudo na política, fica para a história decidir.
Historiador
