Pe. Matias Soares
Pároco da Paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório
Natal-RN
Capelão da UFRN
A reflexão sobre a pastoral e os seus desafios tem sido objeto de debate, reflexões e preocupação da pastoralidade da Igreja em nossos tempos. O tema ainda não caiu efetivamente nas atitudes evangelizadoras dos nossos métodos. Isso porque nos falta uma consistente teologia pastoral. Os nossos paradigmas ainda são sacramentalistas. Temos o horizonte voltado à pastoral da conservação. Principalmente dos nossos seminários, somos forjados para sermos “sacerdotes do altíssimo”. Homens que “vivem do culto” e para este, a partir, só e somente só, das sacristias das igrejas, com poucas motivações ao testemunho comprometido para uma “igreja em saída missionária”, com atenção aos dramas existenciais e sociais da humanidade contemporânea, que, inclusive, nos levaria ao discurso atualizado sobre a “Eucaristia com sacramento do amor”. Nesta direção, há uma obra do monge Thomas Merton, que situa a grandiosidade da espiritualidade eucarística num cenário em que o ser humano “perdeu toda capacidade de controlar o seu egoísmo” (cf. T. Merton. O Pão Vivo, pág. 25).
Thomas Merton, situando a necessidade do aprofundamento da espiritualidade eucarística em nossos tempos, parte da constatação de que “todo o problema de nossa época é o problema do amor: de que maneira vamos recuperar a capacidade de nos amarmos a nós mesmos, e de nos amarmos uns aos outros? A razão por que nos odiamos e nos tememos mutuamente é que, secreta ou abertamente, nos odiamos e tememos a nós próprios. Odiamo-nos porque as profundezas de nosso ser são um caos de frustração e miséria espiritual. Solitários e desamparados, não podemos estar em paz com os outros porque não temos paz conosco, e não podemos ter paz conosco porque não estamos em paz com Deus”. Ainda pontua Merton que “o materialismo moderno alcançou o ponto onde todas as técnicas que possui tendem a convergir, sistematicamente ou não, para a desintegração do homem em si mesmo e na sociedade” (cf. Idem. O Pão Vivo, pág. 24). A ponderação do autor continua atual. Quiçá com um agravamento, já que estamos num cenário de “sufocamento do Eros” (cf. Byung-Chul Han), ou seja, as nossas relações estão em crise. A vida em comunidade está em situação de liquidez e transitoriedade.
O pressuposto antropológico da Sacramentum Caritatis – Sacramento do Amor -, apresentado pelo Papa Bento XVI também vai nesta direção. O ser humano tem sede do amor, pelo qual ele – o humano – pode fazer a experiência com a verdade. Por isso, o Papa Bento XVI afirma que é “no sacramento do altar, que o Senhor vem ao encontro do homem, criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1, 27), fazendo-Se seu companheiro de viagem. Com efeito, neste sacramento, Jesus torna-Se alimento para o homem, faminto de verdade e de liberdade. Uma vez que só a verdade nos pode tornar verdadeiramente livres (Jo 8, 36), Cristo faz-Se alimento de Verdade para nós. Com agudo conhecimento da realidade humana, Santo Agostinho pôs em evidência como o homem se move espontaneamente, e não constrangido, quando encontra algo que o atrai e nele suscita desejo” (cf. SC, 2). Essa dimensão antropológica da espiritualidade eucarística é fundamental para repensarmos os caminhos contemporâneos à catequese mistagógica do amor à Santíssima Eucarística e o seu valor espiritual para a vida da Igreja.
Ainda motivado pelos frutos espirituais do V Congresso Eucarístico Paroquial, que realizamos em nossa comunidade paroquial e preocupado com os desafios da ação evangelizadora da Igreja nos cenários e cultura urbana, faço aceno à recomendação pastoral dada pelo mesmo Pontífice “aos pastores da Igreja e ao povo de Deus acerca da prática da adoração eucarística tanto pessoal como comunitária”. Segundo ele, “será de grande proveito uma catequese específica na qual se explique aos fiéis a importância deste ato de culto que permite viver, mais profundamente e com maior fruto, a própria celebração litúrgica. Depois, ‘na medida do possível e sobretudo nos centros mais populosos, será conveniente individuar igrejas ou capelas que se possam reservar propositadamente para a adoração perpétua’. Ainda recomenda que na formação catequética, particularmente nos itinerários de preparação para a Primeira Comunhão, se iniciem as crianças no sentido e na beleza de demorar-se na companhia de Jesus, cultivando o enlevo pela sua presença na Eucaristia” (cf. SC, 67). Enquanto Igreja Particular de Natal, seria muito importante, já que temos essas questões antropológicas e eclesiológicas que nos motivam, que tivéssemos um lugar apropriado para a adoração perpétua. Seria algo de muito valor espiritual favorecido ao povo de Deus.
Enfim, tudo isso poderia ser amadurecido e construido sinodalmente, a partir da realização de um Congresso Eucarístico Arquidiocesano (cf. https://www.arquidiocesedenatal.org.br/post/artigo-o-congresso-eucaristico-e-o-seu-significado). A Igreja Particular de Natal, é chamada repensar a sua dinâmica missionária, com os desafios de uma autêntica reforma das suas estruturas formativas e administrativas, considerando a Eucaristia como questão axial. Fundamentada nela, a força para seguirmos em comunhão, com participação à missão no mundo contemporâneo, seria garantida. A teologia, as celebrações, as questões pastorais, demandas sociais, liturgia e proposições seriam densamente desenvolvidas, tendo como referência a nossa realidade local, com a força do testemunho dos Santos Mártires e a vivência do nosso primeiro Sínodo Arquidiocesano (cf. https://ihu.unisinos.br/categorias/643702-o-sinodo-e-a-eucaristia-artigo-de-matias-soares). A Igreja Particular de Natal, é chamada a avançar na sua dinâmica missionária, com coragem e unidade nas diferenças, com mais liberdade e sem tantas burocracias, com mais respeito à sua história e maior valorização das comunidades, constituídas pelo povo de Deus. Deste modo, fica a propositura da realização do nosso Congresso Eucarístico para refletirmos, amadurecermos e enfrentarmos estes desafios e possibilidades, a partir do coração da Igreja, que é a Santíssima Eucaristia. Assim o seja!
