A paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório está para celebrar o seu quinto Congresso Eucarístico Paroquial, que acontecerá no período de 26/09 a 02/10/26. O acontecimento é aberto ao povo de Deus das demais comunidades eclesiais, que desejarem viver conosco este evento ímpar de densa vivência eucarística. Este será composto de celebrações eucarísticas, confissões e visitas aos enfermos, vigílias, exposições, catequeses e adoração ao Santíssimo Sacramento.
Gosto de pensar esse evento como um tempo de mistagogia – condução ao mistério – oferecido ao povo fiel de Deus. Nele teremos a graça de poder “despertar e aumentar nos crentes a fé eucarística, para melhorar o cuidado das celebrações e promover a adoração eucarística, para encorajar uma real solidariedade que, partindo da Eucaristia, atinja os necessitados” (cf. Bento XVI, SC, 4). O reconhecimento do que é a Eucaristia faz com que a comunidade alcance a maturidade da fé, tanto evangélica, quanto eclesial. Deveríamos investir mais, em nossas comunidades, em experiências como esta, já que “a Eucaristia é o Sacramento da Caridade, é a doação que Jesus Cristo faz de Si mesmo, revelando-nos o amor infinito de Deus por cada homem. Neste sacramento admirável, manifesta-se o amor ‘maior’: o amor que leva a ‘dar a vida pelos amigos’” (cf. Idem. SC, 1; Jo 15, 13).
Sou devoto dos ‘congressos eucarísticos’ pelos fundamentos teológicos supracitados e pela minha história vocacional, considerando que sou filho de uma paróquia, a da Imaculada Conceição – Nova Cruz – com uma espiritualidade marcadamente eucarística. Fui pároco, por seis anos e sete meses, de uma paróquia, a de Sant’Ana e São Joaquim – São José de Mipibu – com seu histórico de congressos eucarísticos e, chegando à de Santo Afonso, também encontrei a marca destes pios acontecimentos. Tenho percebido, já como consequência de discernimento eclesial, que os frutos espirituais são grandiosos. Acontece um grande mergulho eucarístico. Tudo torna-se ainda mais relevante, porque vivemos numa cultura que encaminha-se a um pós-cristianismo, com uma profunda e preocupante ‘crise de comunidades humanas’. A virtualidade e tantos outros fenômenos sociais, como a violência, têm sufocado as vivências personalizadas das relações humanas, com suas genuínas possibilidades de reconhecer o outro com sua face e o seu nome, com sua carne e sua condição humana, com o seu mundo real e complexo. Há desafios prementes à fé, como também à eclesialidade, que não podem passar desapercebidos à nossa pastoralidade e ao nosso modo de ver e contemplar a história de cada ser humano. A nossa fé é testemunhada eclesialmente, com e na comunidade.
Em nossa Arquidiocese também temos o dever eclesial a chamar em causa o testemunho eucarístico dos nossos Protomártires, com sua atualidade. Tanto em Cunhaú, onde aconteceu o primeiro morticínio, enquanto estava sendo celebrada a Santa Missa, quanto em Uruaçu, que teve em Mateus Moreira a consagração do amor eucarístico dos demais sacrificados, no seu imperativo enquanto era barbaramente martirizado, assim ele exclamou: Louvado seja o Santíssimo Sacramento! Temos a clarividente realidade do que a Eucaristia é para a nossa identidade eclesial mais profunda. Na integralidade dos ensinamentos testemunhais dos nossos mártires, perpassa uma densa e categórica espiritualidade eucarística, além de outras dimensões a serem exploradas em nossa eclesiologia contemporânea e circunstancial.
É providencial que o nosso Congresso aconteça no período em que também celebramos os nossos Protomártires, que têm suas festividades antecipadas por causa das eleições; mas com a celebração ainda demarcada no calendário litúrgico para o dia 03/10. A coincidência nos coloca em situação de trazer para as nossas celebrações as comoções e o significado teológico da espiritualidade integral dos nossos ‘filhos do Rio Grande’. É maravilhoso.
A Arquidiocese de Natal, que tem no seu DNA esta grandiosidade eucarística, que já foi reconhecida inclusive como sede de um Congresso Eucarístico Nacional, com a presença do Santo Padre, São João Paulo II, deveria realizar o seu Congresso Eucarístico, no encerramento do seu primeiro sínodo arquidiocesano. Esse seria o coroamento do Sínodo, que só pode ser compreendido, na sua profundidade, tendo a Eucaristia como ponto de partida e ponto de chegada. Ainda, com ele, teríamos as possibilidades teológicas de refletir acerca de questões pastorais que, em nossos dias, têm causado dubiedades e confusões no modo como têm sido vividas as suas celebrações.
Num mundo onde a crise da fé tem batido às nossas portas, o cuidado em promover uma ação missionária séria e a partir do que nos confirma enquanto povo de Deus, sustentado na Santíssima Eucaristia, é o modo mais autêntico de testemunhar a nossa caridade pastoral. Não temos nenhum direito de vacilar nesse caminho, que nos identifica como pastores e servidores dos fiéis. Assim o seja!
(*) Pároco da paróquia de Santo Afonso Maria de Ligório – Natal-RN
Capelão da UFRN
