Quem nunca se deparou com perguntas que parecem inocentes? Você gosta de Machado de Assis? Torce pelo ABC? Você é vascaíno? Você gosta café sem açúcar? Todas aí permitem uma resposta e, em geral, não exigem explicações. Sim ou não é a resposta, e a conversa continua.
Outras, porém, não querem saber da resposta e sim de que lado você está.
A nossos pais e avós, aqui no Rio Grande do Norte dos anos 1960, perguntava-se: aluizista ou dinartista?, numa época em ser dinartista ou aluizista, em período eleitoral, dava briga e inimizade. Passada a campanha, as coisas iam voltando ao normal.
Em outros tempos, havia gente encarregada de fazer perguntas. Eram os patrulheiros ideológicos.
A expressão ganhou força nos anos 1960-70, quando o Brasil vivia sob um regime autoritário e parte da vida intelectual se dividia entre os que queriam resistir e os que achavam que a arte, a cultura e até o pensamento deviam assumir uma posição política determinada.
Cacá Diegues usou a expressão para criticar todos que pretendiam estabelecer o caminho obrigatório da criação artística. Uma obra podia ser bonita, profunda, original, mas, se não fosse suficientemente engajada, corria o risco de ser acusada de alienação. Havia fiscais da consciência alheia. É preciso lembrar, no entanto, que aqueles eram tempos em que a patrulha não estava apenas na cabeça das pessoas. Havia também o Estado. Depois de 1964 a repressão política criou um ambiente no qual a censura, a vigilância e o medo passaram a fazer parte da vida cotidiana.
Com o AI-5, editado em dezembro de 1968, o espaço público se estreitou ainda mais. Jornalistas, artistas, professores, estudantes e opositores políticos aprenderam que uma palavra podia custar caro. Em muitos lugares, o silêncio deixou de ser timidez e passou a ser prudência.
Depois, lenta e progressivamente, o país foi abrindo as janelas, num longo processo de distensão política, dividido em duas partes, a abertura e a redemocratização.
A abertura não aconteceu de uma vez. Não foi uma porta que se escancarou numa manhã ensolarada, permitindo que todos saíssem à rua cantando. Foi uma fresta que aumentou aos poucos. Vieram a anistia, a reorganização partidária, a volta de exilados, a campanha pelas Diretas, a eleição de Tancredo Neves, a Constituição de 1988. Entre uma coisa e outra, o Brasil foi reaprendendo a falar, e reaprender a falar talvez tenha sido mais difícil do que parece, afinal durante anos muita gente havia aprendido a medir as palavras. Havia os que tinham sido perseguidos e os que tinham medo de sê-lo, havia os que resistiam, os que colaboravam, os que se calavam e os que simplesmente cuidavam da vida. A sociedade não saiu daquele período em fila indiana, carregando a mesma memória e a mesma interpretação do passado.
A capenga democracia da Nova República trouxe de volta a liberdade de discordar. Mas não conseguiu abolir a velha vontade de vigiar o pensamento alheio e não demorou muito para os patrulheiros reapareceram até que chegamos aos dias de hoje, quando ainda não há, felizmente, censores batendo à porta para perguntarem o que você escreveu, leu ou pensou – se bem que estivemos e ainda estamos tangenciando situação assim.
O que há hoje escancaradamente é coisa mais sutil: alguém pergunta em quem você votou. Você hesita e a hesitação já é suspeita. Se diz, estando num círculo de pessoas de direita, que votou em Lula ou num candidato de esquerda, alguém pergunta como pode. Se diz, estando num círculo de pessoas de esquerda, que votou em Bolsonaro ou num candidato de centro ou de direita, outro pergunta como teve coragem. Se explica que não gosta de nenhum dos dois, então é pior: você precisa explicar duas vezes. E se disser que votou em um deles por falta de alternativa, prepare-se, porque a sua justificativa será submetida a uma pequena comissão parlamentar de inquérito formada por três amigos, dois colegas de trabalho e um sujeito que você mal conhece. Vivo num ambiente assim e – pasmem! – é uma instituição escolar, em tese um espaço no qual o confronto de ideias deveria ser uma regra.
A política brasileira inventou uma curiosa modalidade de interrogatório: não basta ter opinião, é preciso apresentar certificado de pureza ideológica, isso provavelmente seja uma herança daqueles velhos tempos. Mudaram os governos, mudaram os partidos, mudaram os meios de comunicação, mas a patrulha está lá, usando as mesmas ou outras ferramentas, mas mantendo-se impávida. Antes, perguntava-se se uma peça de teatro era engajada ou se determinada música servia à luta política e ideológica. Hoje pergunta-se se uma pessoa é bolsonarista ou lulista. Há quem queira saber se determinado amigo serve à sua tribo. E as tribos são exigentes: é preciso saber votar, mas principalmente é preciso gostar das pessoas certas, detestar as pessoas certas, indignar-se na hora certa e, sobretudo, indignar-se com a indignação do adversário.
A democracia não foi inventada para produzir unanimidades. Se fosse, não seria democracia. Ela nasceu justamente da ideia desconfortável de que pessoas diferentes podem viver juntos sem precisar pensar da mesma maneira. O conflito político não é uma doença da democracia e sim uma de suas matérias-primas, por isso discordar é uma forma de conversar. O oponente é apenas alguém que pensa diferente e não alguém que, por pensar diferente, precisa ser moralmente explicado.
Eu não me dobro a patrulheiro algum. Se é educado, serei educado. Caso não seja, respondo simplesmente: “Não é da sua conta.” Não por grosseria, mas por liberdade, porque ainda quero poder gostar de Machado de Assis, de torcer pelo ABC e pelo Vasco da Gama, de votar em quem quiser, de mudar de ideia e, sobretudo, não precisar apresentar minhas credenciais ideológicas ao porteiro da democracia.
Já temos patrulheiros demais e, se a história ensinou alguma coisa, é que eles nunca se contentam com uma resposta.
Historiador
