O STF DECEPCIONOU A TODOS NÓS
Quem teve estômago para acompanhar a tumultuada sessão plenária do Supremo Tribunal Federal nesta terça-feira, 15, assistiu a um espetáculo constrangedor de acrobacia retórica. A pauta que o país exigia ver enfrentada — a apuração rigorosa sobre as ligações do ministro Alexandre de Moraes com o banqueiro Daniel Vorcaro e o fabuloso contrato de R$ 131 milhões firmado entre o Banco Master e o escritório de sua esposa, com direito a emendas e revisões do próprio magistrado — transformou-se em mero detalhe incômodo diante de uma bancada decidida a falar sobre tudo, menos sobre o elefante na sala.
O que se viu no plenário foi a coroação do corporativismo de toga. Em vez de admitir a gravidade institucional de um ministro atuar nos bastidores de acordos milionários e ainda interferir no andamento de apurações correlatas, articulou-se a costumeira blindagem. O próprio Moraes, em postura que desafia qualquer noção elementar de suspeição, votou contra o andamento independente da investigação sobre seus atos, defendendo a manobra de juntar e diluir o caso ao processo conduzido pelo ministro André Mendonça.
A estratégia diversionista encontrou solo fértil na ala governista. Cristiano Zanin e Flávio Dino alinharam-se com presteza, secundados pelo decano Gilmar Mendes — o veterano artífice de malabarismos hermenêuticos que outrora sepultou a Lava Jato. Juntos, orquestraram debates protelatórios sobre acesso a relatórios e queixas regimentais, até que um oportuno pedido de vista veio travar de vez a decisão. O clima de degradação institucional chegou a tal ponto que até a ministra Cármen Lúcia se viu constrangida a admitir o vexame diante das câmeras. Em tom melancólico de confissão, declarou: “Eu peço desculpas ao povo brasileiro por talvez ter esperado de mim uma postura diferente. Queria ter sido melhor, ter ajudado a acalmar as coisas, e não consegui… O Judiciário existe para tranquilizar o povo, e nós geramos intranquilidade”.
A bofetada moral nos cidadãos não poderia ser mais descarada. Para o brasileiro comum, o STF sempre ostentou uma mão pesadíssima, implacável e inflexível — a mesma que condenou Débora Rodrigues e tantos outros envolvidos nos atos de vandalismo a penas draconianas, sem direito a rodeios ou meias-palavras. Para quem porta batom e quebra vidraça, todo o rigor e a fúria da lei; para quem opera no Olimpo e revisa minutas de R$ 130 milhões para banqueiro sob suspeita, a solidariedade incondicional e o compadrio dos pares.
O cidadão assistiu, boquiaberto, à desfaçatez de uma corte que já não se preocupa em disfarçar o desdém pelo senso comum de decência. Nem mesmo o pedido de desculpas de Cármen Lúcia atenua a gravidade do cenário: serve apenas como certidão de óbito moral de um tribunal que preferiu acobertar os seus a prestar contas à nação. A República desce mais um degrau, confirmando que a igualdade perante a lei, no Brasil de hoje, não passa de ficção jurídica atropelada pela conveniência do poder.
RACHADO
Em seu principal editorial, a Folha de São Paulo, de ontem, 16, abriu a chamada: “Supremo rachado rumo à desmoralização”. E nas entrelinhas, o editorial diz que “Quase nada se falou do mais importante: que um ministro da mais alta corte do país se conectou ao maior fraudador da história do sistema financeiro nacional por meio de um contrato de R$ 131 milhões com o escritório de sua família”.
GOLPISTA
Em seu segundo editorial, o mesmo jornal, Folha de São Paulo, abre a manchete: “Flávio é inexperiente e herdeiro de visão golpista”.
GOLPISTA 2
No intertítulo, o jornal focaliza: “Merece escrutínio a tentativa de se desvincular das relações mantidas ao longo dos anos por seu currículo político com personagens posteriormente apontados como envolvidos em atividades criminosas”.
GOLPISTA 3
Ao final do editorial o jornal paulista sentencia: “Antes de postular à Presidência, Flávio precisa demonstrar que está preparado para exercê-la – e que aceita sem ambiguidades os limites que a Constituição impõe a quem ocupa o poder”.
GLOBO
O jornal carioca O Globo abriu seu editorial com a chamada “Gilmar e Dino mantêm agonia de Moraes”. E dá o mote: “Com a manobra dos ministros, STF adia decisão e frustra expectativa de abertura de investigação”.
TUMULTO
Ao concluir o seu editorial, O Globo cita: “Ao final, aqueles que desde o inicio queriam tumultuar lograram seu objetivo. Ficou claro que o Supremo decepcionou…” “A agonia persiste na mais alta Corte – enquanto o Brasil assiste a tudo com perplexidade e consternação”.
ESTADÃO
Em sua edição de ontem, 16, a Coluna Estadão abriu a chamada: “Lula não larga Moraes, e adiamento no STF deixa sua campanha sangrando”. E cientifica: (…)”O governo e o PT agiram para indiretamente proteger o “herói” do julgamento de 8 de janeiro”.

