Por Elane Nascimento
Por trás das paredes frágeis de compensado e cobertas por lonas na ocupação Luiz Beltrame, no conjunto Parque dos Coqueiros, Zona Norte de Natal, a sobrevivência é testada não apenas pela escassez de recursos, mas também pelo rigor das condições climáticas e pelas tragédias da vida. Para mulheres como Tereza e Jarlene, cada tempestade que atinge a capital potiguar representa uma ameaça direta à integridade de suas famílias e de seus lares improvisados sobre a terra batida.
Tereza: “Se eu dormir aqui cai”

Nas chuvas de julho e do início de agosto, a estrutura do barraco de Tereza Cristina da Costa, de 29 anos, não resistiu à força do vento e da água. O lar de lona e compensado ficou parcialmente destruído, forçando-a a buscar abrigo provisório.
“Ficou tudo alagado”, relatou Tereza.
Mãe de seis filhos, ela precisou se deslocar temporariamente para a residência de um parente no Vale Dourado, também na Zona Norte de Natal, enquanto tenta reforçar as frágeis estacas de madeira de sua estrutura. A decisão foi tomada sob o medo iminente do desabamento total.
“Se eu dormir aqui cai”, desabafou, apontando para o que sobrou de seus únicos bens danificados: duas cadeiras e uma mesa de plástico.
A vulnerabilidade habitacional de Tereza soma-se a graves problemas de saúde que marcaram seus últimos anos. Após o diagnóstico de uma grave insuficiência renal, ela precisou passar por um procedimento cirúrgico complexo para a retirada de um de seus rins. Diante da adversidade, ela se apega à espiritualidade para seguir em frente.
“Eu precisei retirar um rim, mas Deus me deu minha cura e estou vivendo minha vida”, disse.
Hoje, além de lutar pelo pão de cada dia como catadora, Tereza enfrenta a batalha de reconstruir o barraco para que possa retornar ao lar com os seus filhos.
Questionada sobre o que mais necessita no momento, com uma certa timidez e simplicidade ao falar, ela responde: lençol, colchão, toalha. Ficou tudo perdido.
Jarlene: “Tem dia que tem, tem dia que não tem”
A dor física e material de Tereza encontra paralelo na dor emocional de sua vizinha, Jarlene Simone da Costa, de 41 anos e mãe de oito filhos, que enfrentou em maio de 2023 a perda de um de seus meninos devido a complicações de uma pneumonia. Jarlene reconta, com a dureza de quem carrega a cicatriz do luto, o desespero de ver o filho adoecer sem a devida assistência.
“Ele ficou internado, mas mandaram ele de volta para casa, quando chegou aqui ele piorou, então levamos ele para o Maria Alice Fernandes. Lá no Maria Alice ele foi bem atendido, fez muitos exames, mas não resistiu”, conta com um olhar vazio.
Após a perda precoce, Jarlene vivenciou duas novas gestações e vê no rosto das filhas caçulas o retrato vivo daquele que partiu: “Elas são a cara dele (do filho falecido), o clone mesmo”.
Na entrada do barraco, uma cerca de arame farpado e um portão improvisado fazem a “segurança” do local. Até chegar a porta de entrada, estão restos de telha, lona, baldes de tinta vazios, brinquedos quebrados, dois colchões velhos e uma geladeira deitada sobre o chão de terra com água acumulada.
Ao passar a porta, logo nos deparamos com um velho fogão com panelas que guardam o pouco que sobrou do almoço: feijão e um pouco de arroz.
Na bancada ao lado do fogão, estavam um pacote de leite em pó, dois quilos de arroz, um caixa de aveia para o mingau das crianças pequenas, um quilo de açúcar, três pacotes de flocão de milho, uma garrafa de temprero, um molho de tomate e uma vasilha com sal. Logo à frente, uma cama de casal quase encostada ao local onde os alimentos são preparados.

Em um móvel de madeira compensada, Jarlene guarda os poucos lençóis, toalhas e roupas para ela e para os filhos.
Por trás de mais compensado e um lençol amarrado à estrutura de madeira fincada na terra para sustentar o telhado, um vaso sanitário sem instalação de tubulação, um balde para o recolhimento dos dejetos e uma mangueira. Embora hoje comemore ter alimentos básicos como arroz, macarrão e cuscuz para oferecer aos filhos, a ausência de proteínas e a escassez de leite ainda lhe causam profundo sofrimento.
“Tem cuscuz, tem arroz, macarrão. Hoje tem, graças a Deus. Mas a mistura (proteína) não tem”, explica Jarlene.
O momento de maior aflição ocorre quando o leite de suas filhas mais novas acaba. É nesses momentos de dor e aperto que a rede de apoio formada pelas mulheres de Luiz Beltrame se manifesta como o verdadeiro esteio da comunidade.
“Me aperta muito quando acaba o leite das meninas. Tem dia que eu vou para um lado, vou para o outro até conseguir. A gente recebe também o leite do posto, mas quando não tem, eu vou atrás.
Quando falta comida para eles eu choro. Mas elas (Josiana, Tereza e Simone) me ajudam muito”, revela, evidenciando o vínculo de afeto e socorro mútuo que une as moradoras da ocupação.
Abandonadas por seus parceiros e responsáveis sozinhas por famílias numerosas, Tereza e Jarlene encontram na união da comunidade e nos cultos realizados às segundas e sextas-feiras dentro da própria ocupação a força necessária para enfrentar o a dura realidade do cotidiano. “A fé é tudo o que a gente tem”, considera Jarlene.
Sobre o futuro dos seus filhos, ela não tem dúvidas: “Eu estou criando para não ser como o pai deles”.
Inscritas em programas de habitação popular desde 2016, elas resistem sob lonas e compensados à espera de uma vida com estrutura física e social digna.

