Ana Beatryz Fernandes
A decisão de ser pai por meio da adoção nasceu de uma mudança de perspectiva na vida de Gullyver Garção. Depois de enfrentar um câncer em 2013, um seminoma de testículo, ele passou a lidar com a impossibilidade de ter filhos biologicamente. O que inicialmente não despertava nele a possibilidade da adoção foi, com o tempo, se transformando em um desejo.
“Eu não tinha o coração aberto com relação à adoção. Mas, com o tempo, fui amadurecendo a ideia e vendo que tem tanta criança no mundo que precisa de um pai. Por que não ser pai dessa forma?”, contou.
Gullyver e a família decidiram entrar na fila de adoção, reuniram a documentação necessária e passaram pelo processo de habilitação. A espera, no entanto, foi acompanhada de ansiedade e expectativas.
“Durante esse processo a gente criou muita expectativa. A gente sofreu bastante em muitos momentos, porque o nosso coração queria que fosse logo. Mas tudo era no tempo de Deus e não do jeito que a gente queria”, relatou.

Heitor e a chegada de Arthur
Em 2017, a família recebeu a ligação que esperava. Havia uma criança disponível para adoção.
A notícia trouxe uma mistura de emoção e alegria. Era o início da experiência de Gullyver como pai.
“Nosso coração se encheu de alegria quando a gente recebeu a notícia de Heitor. A gente foi e recebeu esse presente maravilhoso, que foi o nosso primeiro filho”, lembrou.
Depois da chegada de Heitor, a família seguiu a vida. Oito anos se passaram até que uma nova criança entrasse no caminho de Gullyver.
A história de Arthur começou de maneira diferente. O bebê havia sido abandonado na Maternidade Divino Amor após o nascimento. A criança tinha síndrome de Down e também apresentava necessidades de saúde que exigiriam acompanhamento.
Quando Gullyver viu a foto do bebê pela primeira vez, a reação foi de surpresa. “Eu pensei: como é que um bebezinho desse tamanhinho, tão lindo, ninguém quer?”, contou.
A família decidiu que queria adotar Arthur. Havia, porém, um obstáculo: o cadastro de adoção estava inativo e, além disso, não contemplava crianças com necessidades específicas.
“Nosso cadastro era para crianças típicas, não era para crianças atípicas. Então a gente não aparecia para o sistema de adoção para poder linkar a gente a essa criança”, explicou.
A família correu para atualizar a documentação. Durante aproximadamente um mês, passou pelo processo necessário para alterar o cadastro enquanto Arthur permanecia na maternidade, onde recebeu os cuidados necessários.
Quando a atualização foi concluída, a família foi vinculada ao bebê e pôde finalmente conhecê-lo pessoalmente.
“Quando chegou lá na maternidade, que a gente colocou ele no braço, foi só bater o martelo de que realmente o desejo que a gente tinha de adotar era correto. A gente sentiu realmente que ele era o nosso filho”, afirmou.

Medos deram lugar às descobertas
A chegada de Arthur também trouxe inseguranças. Gullyver tinha dúvidas sobre como seria a rotina com uma criança com necessidades específicas, quais cuidados seriam necessários e se a família enfrentaria dificuldades maiores.
“Eu tive muito medo com relação a ser uma criança assim, nos cuidados que deveria ter, se ia dar mais trabalho, se ia ser mais custoso na nossa rotina”, revelou.
A realidade, segundo ele, foi diferente dos receios iniciais.
Arthur nasceu com cardiopatia e teve suspeita de laringomalácia. A família buscou acompanhamento médico e tratamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS), além do apoio da Fundação Amico e de profissionais da área de cardiologia.
“Ele é uma criança super saudável. Apesar de ele vir com cardiopatia, com suspeita de laringomalácia, a gente fez os tratamentos e buscou ajuda direitinho”, disse.
Com acompanhamento e medicação, Arthur apresentou evolução. Recentemente, recebeu alta do acompanhamento com o cardiologista, uma conquista que, para a família, representa muito mais do que uma consulta encerrada.
“Cada vitória que ele tem, cada evolução que ele tem, é uma alegria enorme para a gente”, afirmou Gullyver.
Uma paternidade presente
Para Gullyver, ser pai significa estar presente na rotina dos filhos. Ele participa das terapias de Arthur, acompanha as reuniões escolares e procura estar envolvido nas diferentes etapas da vida das crianças.
“Eu gosto de estar participando das terapias, eu gosto de estar participando das reuniões de escola, eu gosto de estar por dentro de tudo que acontece com o Arthur. Eu sou muito feliz mesmo de ter ele”, contou.
Ele também destaca a importância da parceria com a mãe de Arthur. Para Gullyver, os cuidados e responsabilidades precisam ser compartilhados.
“Eu continuo sempre do lado dela. A gente se ajudando. E principalmente amando esse bebê com todo o nosso coração”, afirmou.
A experiência também transformou a maneira como ele enxerga a chamada paternidade atípica. O que poderia ser encarado como um obstáculo passou a fazer parte naturalmente da vida da família.
“Para muitos é um tabu, uma dificuldade. Para mim é algo tão natural que eu não vejo a minha vida sem essas duas crianças”, declarou.

‘Ele é uma criança, é um filho que precisa ser amado’
Hoje, Gullyver define a família como um dos maiores presentes que recebeu. “O sentimento que eu tenho é de pura felicidade. Eu tenho uma família linda, uma família maravilhosa, dois filhos lindos. E o sentimento que eu tenho é de gratidão a Deus pelo presente maravilhoso que Ele me deu”, afirmou.
Para ele, a experiência de ser pai de uma criança com síndrome de Down também reforçou uma mensagem que considera importante para outras famílias: antes de qualquer diagnóstico ou necessidade específica, existe uma criança que precisa de afeto, cuidado e presença.
“Independentemente de ser típico, de ser atípico, ele é uma criança, é um filho que precisa ser amado”, disse.
A história de Gullyver é marcada, segundo ele, pela transformação de um desejo em uma família. Primeiro, com Heitor. Anos depois, com Arthur. Dois filhos que, para ele, mudaram definitivamente a própria compreensão sobre paternidade.
“Meu coração é só amor, meu coração é só esse sentimento que eu tenho. Vai muito além de ver necessidade. É muito além de tudo isso. Eu amo demais minha família”, concluiu.

