Os acidentes de trânsito continuam impondo um elevado custo humano e financeiro ao sistema público de saúde do Rio Grande do Norte. Entre 2025 e 2026, mais de 22 mil atendimentos hospitalares relacionados a acidentes foram registrados na rede estadual, gerando um gasto superior a R$ 6 milhões. Os dados constam no relatório técnico “O impacto hospitalar e financeiro dos acidentes de trânsito no RN (2025-2026)”, elaborado por pesquisadores do Laboratório de Inovação Tecnológica em Saúde (LAIS/UFRN).
O levantamento revela que os motociclistas do sexo masculino, com idade entre 20 e 39 anos, representam o principal perfil das vítimas atendidas nas unidades de saúde do estado. Além da frequência dos acidentes, o estudo aponta que a maioria dos casos poderia ter menor gravidade caso os condutores utilizassem corretamente os equipamentos de proteção.
Walfredo Gurgel concentra maioria dos atendimentos
Segundo o estudo, o maior impacto assistencial ocorre no Hospital Monsenhor Walfredo Gurgel, em Natal, responsável por 56% dos atendimentos às vítimas de acidentes de trânsito no estado. O Hospital Regional Tarcísio Maia, em Mossoró, responde por pouco mais de 33% dos casos.
O relatório também evidencia o papel de Natal como principal polo de atendimento aos acidentados da Região Metropolitana. Embora a capital tenha registrado 5.488 ocorrências, o número de moradores de Natal envolvidos em acidentes foi de 4.744.
Para os pesquisadores, essa diferença demonstra que a cidade absorve vítimas de municípios vizinhos durante os deslocamentos diários para trabalho ou estudo.
“A prova definitiva dessa ‘esponja’ está em cidades vizinhas como Parnamirim, que possui 1.071 residentes acidentados para apenas 895 ocorrências locais. Esse excedente de vítimas residentes em ‘cidades dormitório’ prova que o acidente ocorre no deslocamento diário para o polo central”, aponta o relatório.
Finais de semana concentram maior número de acidentes
Outro dado que chamou a atenção dos pesquisadores foi a concentração dos acidentes aos fins de semana. Cerca de 35% das ocorrências acontecem entre sábado e domingo, sendo o domingo o dia com maior número de registros.
Segundo o estudo, essas informações podem auxiliar o planejamento das escalas de profissionais e da estrutura dos serviços de urgência e emergência, especialmente nas unidades que concentram o atendimento ao trauma.
Mais da metade dos motociclistas estava sem capacete
O levantamento também identificou falhas importantes no uso de equipamentos de proteção individual (EPIs).
De acordo com os pesquisadores, 34,02% das vítimas deram entrada nas unidades hospitalares sem qualquer equipamento de proteção. Entre os motociclistas, mais da metade estava sem capacete, apesar da obrigatoriedade prevista no Código de Trânsito Brasileiro.
Os dados reforçam que o uso inadequado dos equipamentos de segurança contribui para o aumento da gravidade das lesões e da necessidade de internações hospitalares.
Idosos são as principais vítimas de atropelamentos
O relatório destaca ainda a situação dos pedestres atropelados. A maioria das vítimas é composta por idosos com mais de 70 anos, grupo que apresenta maior vulnerabilidade clínica.
Segundo o estudo, esses pacientes registram índices de internação, necessidade de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e mortalidade cinco vezes superiores aos observados entre motociclistas.
Para os pesquisadores, esse cenário exige atenção especial das políticas públicas voltadas à segurança viária e à proteção da população idosa.
“O trânsito no Rio Grande do Norte não é apenas uma questão de segurança viária; ele consolidou-se como o maior gargalo logístico e financeiro da saúde pública estadual, onde a imprudência individual é subsidiada por milhões de reais do erário público”, conclui o relatório.
Além de dimensionar os impactos financeiros sobre o Sistema Único de Saúde (SUS), o estudo defende que os dados sirvam de base para ações integradas de fiscalização, educação no trânsito e planejamento da rede hospitalar, reduzindo o número de acidentes e a sobrecarga sobre os serviços públicos de saúde.

