Existe uma curiosa habilidade da política brasileira para transformar princípios em acessórios de ocasião, os quais mudam de bolso conforme a conveniência. A soberania nacional talvez seja o exemplo mais vistoso desse fenômeno, conforme escrevi semana passada. É um conceito respeitável, consagrado pelo direito internacional, mas que, por aqui, frequentemente funciona como um casaco reversível: basta virá-lo do avesso para que ele se adapte ao clima político do dia.
Durante anos, Jair Bolsonaro construiu boa parte de seu discurso sobre a defesa da pátria contra interferências externas. Era um discurso de forte apelo emocional. Afinal, poucas ideias mobilizam tanto quanto a noção de um país que deve decidir seu próprio destino, sem tutelas estrangeiras, tese, em si, correta. Afinal, nenhuma nação madura gosta de ver governos estrangeiros opinando sobre seus assuntos internos. O problema, como quase sempre acontece na política, começou quando o princípio encontrou a realidade.
Bolsonaro jamais escondeu sua admiração por Donald Trump. A afinidade ideológica era pública, quase afetiva. Não havia problema nisso. Chefes de Estado podem ter preferências e amizades. A diplomacia, aliás, vive dessas aproximações. O problema é que os filhos do ex-presidente levaram essa identificação a um patamar diferente.
Flávio Bolsonaro e, sobretudo, Eduardo Bolsonaro passaram a atuar como personagens permanentes do universo político norte-americano, participando de eventos, cultivando alianças e comentando intensamente disputas internas dos Estados Unidos. Em diversos momentos, as eleições americanas pareciam ocupar espaço equivalente — ou até superior — às discussões sobre problemas brasileiros.
Ambos também passaram a atuar para fazer o governo dos Estados Unidos apertassem as pressões sobre o Estado brasileiro.
Nada disso seria especialmente relevante se o discurso não fosse acompanhado, em paralelo, de reiteradas acusações de ingerência estrangeira sempre que organismos internacionais, governos ou autoridades externas faziam críticas ao Brasil.
É aí que o princípio começa a ranger. Sim, porque quando um político brasileiro participa ativamente de debates eleitorais em outro país, celebra determinados candidatos e lamenta derrotas eleitorais alheias, está exercendo sua liberdade política. Quando autoridades estrangeiras fazem observações sobre o Brasil, porém, passa-se a denunciar uma afronta intolerável à soberania nacional. A conta simplesmente não fecha.
É evidente que há diferenças entre uma manifestação política e uma intervenção institucional. Nem todo apoio configura ingerência. A diplomacia convive há décadas com declarações públicas de simpatia entre líderes. Mas princípios só permanecem princípios quando sobrevivem à mudança dos personagens.
Se defender a soberania significa condenar manifestações externas sobre o Brasil, então o mesmo critério deveria recomendar prudência quando brasileiros transformam disputas eleitorais estrangeiras em extensão da política doméstica. Caso contrário, o conceito deixa de ser jurídico para tornar-se apenas emocional.
Há uma velha observação de Raymond Aron segundo a qual a política raramente é governada menos pela lógica e mais pelas paixões. Talvez isso explique por que tantos líderes conseguem enxergar com nitidez as incoerências dos adversários enquanto permanecem completamente cegos às próprias.
No Brasil, essa cegueira tornou-se quase um método.
Os simpatizantes de Lula apontam com facilidade qualquer aproximação entre bolsonaristas e atores políticos norte-americanos. Os simpatizantes de Bolsonaro identificam imediatamente qualquer gesto do governo petista em direção à Argentina, à Venezuela ou a outros aliados ideológicos.
Ambos enxergam o defeito alheio com precisão cirúrgica e ambos costumam ignorar o espelho, confirmando que a polarização não elimina os princípios, simplesmente os transformam em patrimônio exclusivo de cada torcida. A coerência deixa de ser uma obrigação universal para tornar-se um privilégio seletivo.
O resultado é curioso.
A soberania nacional continua sendo invocada em discursos inflamados, entrevistas solenes e publicações nas redes sociais. Mas ela parece funcionar como um semáforo inteligente: fecha quando o adversário avança, abre quando é o aliado quem atravessa.
Nenhum país sério constrói sua política externa dessa maneira. Relações internacionais exigem previsibilidade, estabilidade e, sobretudo, coerência. Porque a coerência traz certo conforto, mas principalmente porque ela impede que princípios se convertam em instrumentos descartáveis.
Um dos maiores desafios da política brasileira, nestes tempos de polarização, é abandonar a tentação de tratar conceitos como soberania, democracia ou liberdade apenas como armas retóricas. Enquanto isso não ocorrer, continuaremos assistindo ao mesmo espetáculo de sempre. Mudam os protagonistas, alternam-se os discursos, trocam-se as bandeiras e o roteiro, permanecendo tudo rigorosamente igual, com a soberania sendo proclamada com voz firme e a coerência esperando autorização para entrar em cena.
Historiador
