Tempos atrás os gestos tinham mais peso do que os discursos. Um aperto de mão podia selar amizades, romper desavenças ou inaugurar traições. Um homem tirava o chapéu diante da igreja, a mulher baixava os olhos ao passar pela praça e até os inimigos mantinham certa liturgia de distância. O Brasil era pobre, injusto, atrasado e meio incivilizado (como ainda é hoje) mas conhecia o valor simbólico dos gestos. Hoje, não. Hoje o gesto é apenas uma fotografia esperando o melhor ângulo.
Vi, nesses dias de tanta espuma digital, a cena do beijo que incendiou as trincheiras políticas. Não era um beijo de amor, desses que os poetas antigos colocavam em sonetos desajeitados. Também não tinha a grandeza dramática das despedidas de cinema. Era apenas um beijo protocolar, desses que se dão entre sorrisos burocráticos, mas carregado de uma simbologia que o país transformou em novela.
Os que ontem gritavam contra os palácios agora disputam lugar nos salões. Os que pregavam a guerra santa da moralidade descobriram, quase que repentinamente, os confortos do convívio republicano. O poder tem dessas seduções silenciosas. Ele vai lixando as arestas da indignação como o mar faz com as pedras da praia de Areia Preta ou com a areia nova de Ponta Negra. Quando a gente percebe, o rochedo virou seixo e a areia se foi.
Não há novidade nisso. A política brasileira sempre viveu de aproximações improváveis. Os adversários mais ferozes terminam dividindo mesa, cafezinho ou uisquinho e fotografia oficial.
No interior do Rio Grande do Norte, antigamente, dizia-se que inimigo político só existia até o resultado da eleição. Depois, todos se encontravam na missa de domingo ou na varanda do prefeito, comendo bolo de milho e falando da seca.
O que mudou foi o teatro. Antigamente, havia pudor. O sujeito traía seus discursos com certo constrangimento, como quem sabe estar cometendo pecado. Hoje, não. Hoje a incoerência posa para selfie. Os personagens parecem saídos de um espetáculo de revista, desses antigos teatros mambembes nos quais o exagero substituía a profundidade.
Enquanto a militância se esgoela nas redes sociais, os líderes reais trocam gentilezas nos bastidores acarpetados de Brasília. O povo briga no calor do celular; os donos do poder brindam no ar-condicionado. Talvez seja esse o grande drama: a substituição da crença pela conveniência.
Os seguidores ainda vivem de fé, mas seus líderes vivem de cálculo. E cálculo não tem paixão, só interesse. Lembrei-me, incontinenti, vendo toda essa encenação, de uma fotografia antiga que sempre me impressionou. Em meio à multidão alemã rendida ao delírio nazista, um homem aparece de braços cruzados, imóvel, recusando-se a aderir ao gesto coletivo. Não precisou discurso. Bastou o silêncio do corpo. Há também outra imagem, mais próxima de nós, de uma menina que se recusou a apertar a mão de um general-presidente nos estertores do nosso último regime autoritário. Pequena, franzina, mas inteira dentro da própria dignidade. São esses instantes que atravessam o tempo porque carregam alguma substância moral. Hoje, ao contrário, parece haver uma fome desesperada de acomodação. Ninguém deseja perder espaço, influência, fotografia ou convite. Os antagonismos tornaram-se flexíveis como borracha quente. O adversário de ontem pode ser o aliado de amanhã, desde que a conveniência autorize.
E o povo assiste cansado, desconfiado, dividido e ironicamente raivoso, transformando a política numa espécie de campeonato de torcidas emocionais. Uns enxergam heroísmo em qualquer gesto do seu lado. Outros veem monstruosidade absoluta no campo adversário. No meio disso, desaparece a capacidade de perceber nuances, detalhes, contradições e ironias.
O Brasil talvez seja hoje uma grande arena de ressentimentos digitais. Cada grupo constrói sua própria fantasia moral e passa a viver dentro dela como se habitasse um condomínio fechado da verdade. Quem está fora vira oportunista, escroque, inimigo, herege, traidor. A vida real, porém, é menos épica, porque ela é feita de homens frágeis, vaidosos, contraditórios – humanos. Gente que sobe em palanque com voz de trovão e desce procurando um cafezinho e uma conversa amistosa. Gente que transforma princípios em moeda de ocasião.
Por isso o beijo causou tanto barulho. Não pelo beijo em si, tão banal quanto esquecível, mas porque ele desmonta narrativas. E nada irrita mais os tempos atuais do que a destruição das narrativas. A cena talvez tenha servido – e não é pouco – para lembrar uma velha verdade brasileira: o poder nunca dorme sozinho. Ele sempre encontra companhia, mesmo entre aqueles que juravam odiá-lo na véspera.
E o país segue adiante, entre escândalos de ocasião, paixões inflamadas, disputas reais e imaginárias e fotografias cuidadosamente calculadas, como um velho teatro no qual os atores mudam de figurino, mas a peça continua rigorosamente a mesma.
