Por WG
Você já percebeu que em cada grande avenida ou supermercados e shoppings de Natal surge uma nova ‘academia de rede’? Tratam-se de franquias nacionais e até internacionais, onde seus gestores adquirem o direito de operar uma unidade, utilizando a marca reconhecida e seguindo padrões definidos. Entretanto, se por um lado esse ‘boom’ proporciona mais opções e comodidade aos praticantes ao terem academias mais próximas as suas residências, por outro abre um precedente quanto à sobrevivência das tradicionais. E essa ameaça é muito real.
Com mensalidades mais em conta e a promessa de uma estrutura física robusta, as academias de rede acabam criando, de certo modo, uma competição desleal com as academias de bairro, que já estão estabelecidas há anos. Pelo menos é esse o entendimento de Wescley Garcia, diretor do Conselho Regional de Educação Física do RN (CREF). Segundo ele, muitas redes estão abrindo em locais onde a população não é suficiente para consumir os serviços, fazendo com que a oferta supere a demanda. “Esse cenário é comum em mercados em expansão, mas pode gerar, em breve, uma guerra de preços e o fechamento de unidades por falta de espaço, já que todos brigam pelo mesmo cliente. Por outro lado, as academias de bairro são mais próximas da comunidade, o que facilita a criação de relacionamentos e, consequentemente, permite entregar mais valor ao aluno”, pontuou.

Diante da expansão das gigantes de redes, seja Smart Fit, Selfit, entre outras, as academias tradicionais estão cada vez mais se reinventando se quiserem permanecer no mercado. E não se trata de ‘papo fofo’. São nesses pequenos nichos do mundo fitness, encravados há anos no bairro, onde proprietário ou instrutor sabe de longe o nome de cada aluno, interage de forma mais legítima, formando até mesmo laços de amizade.
De acordo com o coordenador Emerson Silva, da Moving Life, em Candelária, a rápida ascensão de academias de rede na capital potiguar, notadamente percebida no pós-pandemia, causa espanto. Contudo, não seria motivo para tanta preocupação na possibilidade de fechar as portas.
O segredo do sucesso das academias de bairro é mais simples do que parece: o atendimento como diferencial. “Estamos tranquilos porque nosso público é diferente. Geralmente, quem vai para as redes são pessoas que buscam preço, ambiente instagramável para postar nas redes. São alunos que gostam de novidade. Já o nosso público é aquele que busca contato real, que gosta de ser chamado pelo nome, que se sente acolhido; que, de fato, tem o acompanhamento de um profissional. Entro na academia, falo com todo mundo, abraço o povo, pergunto pelas amigas que não estou vendo, brigo quando vejo que faltaram muito, parabenizo pelos resultados. Aqui, em todas as reuniões, falamos sobre esse cuidado. A gente cura a dor do corpo com exercício, e da alma, com nosso atendimento humanizado. Por isso, geralmente um aluno que vai se aventurar para conhecer a novidade acaba voltando”.
Se acolhimento é palavra de força nas tradicionais, a assistência próxima e constante dos instrutores também subscreve a permanência de seus alunos. Considerado um dos educadores físicos “raiz” mais antigos em Candelária, Jácome Neto, da Physis, destaca que, por ser um ambiente de espaço mais reduzido que as academias de rede, e ter um menor número de alunos, o acompanhamento do instrutor durante a execução dos treinos é mais precisa. Ele também observa outros pontos pelos quais as academias de bairro vêm se sustentando ao longo do tempo.
“Parece contra intuitivo, mas muitos praticantes que fazem opção pelas academias de bairro relatam não gostar de treinar em ambientes climatizados, principalmente, por motivos de alergia no trato respiratório. “Outro fator percebido é a questão do pagamento ser mensal. O aluno não fica amarrado a planos anuais, onde pode gerar multa rescisória em caso de quebra de contrato antes do prazo estabelecido em cláusula”.
Em Candelária, as quatro academias, sistematicamente posicionadas na parte central do conjunto, seguem ativas no momento, cercadas por três franqueadas de rede.
“Cavernas do Dragão” que resistem ao tempo e modernização
Também conhecidas pelos praticantes de musculação mais antigos, como ‘cavernas do dragão’, as academias mais modestas também resistem à evolução do maquinário fitness, bem posicionadas nas ‘gigantes de rede’. São nessas academias, cada vez mais raras na capital potiguar, onde estão os ‘monstros’ – fisiculturistas ‘raiz’ – que não fazem questão de máquinas sofisticadas ou personal trainers. Preferem, por exemplo, treinar peitoral nas ‘solitárias’ pranchas horizontais com barra a utilizar modernas máquinas de supino sentado.
Outra curiosidade nas ‘cavernas’ é a vasta quantidade de peso livre por toda parte. São anilhas e halteres de todos os tamanhos, sistematicamente empilhados pela numeração do peso. Nessas academias não há ar condicionado e nem supostos motivos para selfies entre as séries. A única intenção é ‘puxar o ferro’ e cumprir a missão do dia. Essa é a perspectiva do analista George Santos, frequentador assíduo de uma ‘academia raiz’ no Alecrim. “Gosto e já me habituei a treinar em academias de bairro, principalmente aquelas sem frescura de ter que levar toalhinhas. Prefiro essas porque tem menos gente em todos os horários. Não tenho tempo para ficar revezando máquina e sempre que chego tenho o parque de diversão todo ao meu dispor. Isso me entrega resultados mais satisfatórios”, observou.

Profissão de educador físico acompanha tendência de crescimento no RN
Atualmente, o Brasil é o segundo maior mercado de academias do mundo em número de unidades, atrás apenas dos Estados Unidos. Com dezenas de milhares de estabelecimentos, o país se consolidou como uma potência fitness, impulsionado por um crescimento de quase 50% no número de alunos entre 2019 e 2024, consolidando a saúde preventiva. O mercado fitness brasileiro tem registrado um crescimento médio de 35% ao ano, impulsionado pela percepção da atividade física como essencial.
Proporcionalmente a isso, a profissão do educador físico acompanha essa expansão exponencial, sendo considerada uma das que mais crescem no país. Esse movimento é impulsionado pelo aumento da conscientização sobre saúde, qualidade de vida e busca por bem-estar. Ao Diário do RN, Wescley Garcia afirmou que essa tendência deve seguir nos próximos anos. “Estamos observando o melhor momento para os profissionais de Educação Física em Natal. Enquanto os bares ficam vazios, as academias, praças, avenidas e praias estão cheias de pessoas se exercitando”.
Segundo ele, o uso das ‘canetas emagrecedoras’, inclusive, deve potencializar a relevância das intervenções do profissional da área, seja para o ganho de massa muscular ou para a manutenção da saúde. “Hoje, podemos afirmar que o profissional de educação física subiu na lista de prioridades da população, e o mercado ainda carece de profissionais qualificados para atender a essa demanda que não para de crescer”.
Atualmente, o CREF-RN contabiliza 2.158 academias no Estado, além de 10.989 profissionais de educação física registrados junto ao Conselho de classe.

