A história do acidente de trabalho que provocou a amputação do dedo mínimo da mão esquerda do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou ao centro do debate político após uma provocação do senador Flávio Bolsonaro (PL), durante o último confronto presidencial promovido pela TV Globo, na noite desta sexta-feira (23). O episódio aconteceu em 1964, quando Lula tinha 17 anos e trabalhava como torneiro mecânico em uma metalúrgica de São Paulo.
Durante uma discussão sobre o custo de vida e o poder de compra dos brasileiros, Flávio fez referência à condição física do adversário ao criticar a política econômica do governo.
“Agora, não adianta nada, Lula, se você dá com uma mão e tira com os nove dedos. Você simplesmente invade o bolso do contribuinte”, afirmou o candidato do PL.
A declaração provocou reação de Lula, que exigiu um pedido de desculpas e relembrou as circunstâncias em que perdeu o dedo enquanto trabalhava durante a madrugada.
“Ele disse uma grande asneira e eu não vou levar para casa. Ele me chamou de nove dedos. Eu quero que ele saiba de uma coisa: se tem alguém aqui nesse público que sabe o que é o mundo do trabalho, sou eu. Se tem alguém que perdeu o dedo com 17 anos, fui eu”, declarou o presidente.
Lula também criticou as condições de trabalho que expõem empregados a acidentes e afirmou que não aceitaria a referência feita pelo adversário. Durante a resposta, chamou Flávio de “miliciano” e cobrou uma retratação diante dos telespectadores.
“Você vai ter que pedir desculpa porque o povo trabalhador está vendo”, acrescentou.
Após a cobrança, Flávio Bolsonaro pediu desculpas. “Lula, se eu te ofendi porque eu te chamei de nove dedos, eu te peço desculpa de verdade”, afirmou o senador, antes de retomar as críticas ao governo federal.
Como Lula perdeu o dedo?
O acidente aconteceu em junho de 1964, na Metalúrgica Independência, localizada no bairro Vila Carioca, em São Paulo. Lula trabalhava como torneiro mecânico e cumpria uma jornada noturna quando uma prensa industrial apresentou problemas.
De acordo com relatos do próprio presidente, um parafuso do equipamento havia quebrado, e ele ficou responsável por produzir uma peça para substituí-lo.
Enquanto instalava o novo parafuso, o colega responsável pela operação da prensa teria se distraído e soltado o mecanismo que controlava a máquina. O equipamento se fechou sobre a mão esquerda de Lula.
O jovem metalúrgico conseguiu retirar a mão rapidamente, mas o dedo mínimo ficou preso e sofreu ferimentos graves.
Em entrevista ao podcast Podpah, em 2022, Lula explicou que o acidente poderia ter provocado consequências ainda maiores caso não tivesse conseguido retirar a mão a tempo.
Atendimento médico ocorreu horas depois
Após o acidente, Lula precisou esperar até o início da manhã para receber atendimento médico. O episódio ocorreu durante a madrugada, mas ele só foi atendido por volta das 7h, no Hospital Monumento, em São Paulo.
Diante da gravidade do ferimento, os médicos decidiram amputar completamente o dedo mínimo da mão esquerda.
O presidente já relatou que acredita que, com os recursos médicos disponíveis atualmente, talvez fosse possível preservar parte do dedo.
Em entrevista ao apresentador Jô Soares, em 2002, Lula também afirmou que sentia vergonha da amputação quando era mais jovem. Segundo ele, evitava usar aliança e costumava manter a mão fechada para que outras pessoas não percebessem a ausência do dedo.
Acidente marcou trajetória sindical e política
O acidente ocorreu antes de Lula iniciar sua trajetória no movimento sindical do ABC paulista, onde se tornaria uma das principais lideranças dos trabalhadores metalúrgicos.
Em 1975, ele foi eleito presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema. Nos anos seguintes, ganhou projeção nacional ao liderar greves operárias durante a ditadura militar.
A experiência como trabalhador e os problemas enfrentados nas fábricas passaram a integrar sua atuação política, especialmente nas discussões sobre direitos trabalhistas, condições de emprego e segurança no ambiente profissional.
A história também está registrada em sua biografia e em documentos históricos sobre sua trajetória.

