Por Ana Beatryz Fernandes
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teve 18 declarações classificadas como verdadeiras durante o debate presidencial da TV Globo, realizado na sexta-feira (23), enquanto seu adversário, Flávio Bolsonaro (PL), acumulou oito afirmações falsas. Os números são de uma contagem realizada pela reportagem do Diário do RN, com base nas informações verificadas pela agência de checagem Aos Fatos.
Ao todo, foram consideradas pela agência de checagem Aos Fatos 46 afirmações, sendo 23 de cada candidato. Segundo o levantamento da reportagem, Lula apresentou 18 declarações verdadeiras, quatro classificadas como “não é bem assim” e uma falsa. Já Flávio Bolsonaro teve cinco afirmações verdadeiras, dez enquadradas como “não é bem assim” e oito falsas.

Em termos proporcionais, 78,3% das declarações verificadas de Lula foram consideradas verdadeiras, contra 21,7% das afirmações de Flávio Bolsonaro. No campo das informações falsas, o candidato do PL registrou 34,8% das falas analisadas, enquanto o presidente teve 4,3%.
A categoria “não é bem assim”, utilizada para declarações que apresentam informações incompletas, imprecisas ou fora de contexto, reuniu dez afirmações de Flávio, equivalentes a 43,5% de suas falas verificadas, e quatro de Lula, correspondentes a 17,4%.
Declarações falsas de Flávio envolveram Santas Casas, pandemia, segurança pública e morte de criança
Entre as afirmações falsas identificadas na checagem do Aos Fatos está a declaração de Flávio Bolsonaro de que o governo Lula não teria adotado medidas para reduzir as dívidas das Santas Casas. Durante o debate, o senador afirmou: “E você não fez nada para ajudar a reduzir a dívida das Santas Casas”. Segundo a agência, a informação é falsa. Em junho de 2026, o Ministério da Saúde firmou um acordo com a Caixa Econômica Federal para disponibilizar R$ 1 bilhão em crédito a hospitais filantrópicos e Santas Casas, cujas dívidas chegaram a R$ 15 bilhões em 2025. Em agosto, Lula também sancionou uma lei originada do projeto de autoria do deputado Paulo Pimenta (PT), que reabriu o programa Caixa Hospitais FGTS e prorrogou até 2030 a possibilidade de utilização de recursos do fundo para financiar essas instituições.
Outra declaração desmentida envolveu a postura do ex-presidente Jair Bolsonaro durante a pandemia de Covid-19. Flávio negou que seu pai tivesse debochado de pessoas com dificuldades respiratórias, afirmando que essa interpretação seria uma mentira. Entretanto, o Aos Fatos identificou ao menos duas ocasiões, em março e maio de 2021, nas quais o então presidente imitou pessoas com falta de ar durante transmissões ao vivo. As encenações ocorreram enquanto Bolsonaro criticava orientações do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta e defendia o chamado tratamento precoce, sem eficácia comprovada contra a doença.
Na área da segurança pública, Flávio também reproduziu uma informação falsa ao afirmar que Lula defenderia a impunidade para autores de roubos de celulares. “Lula, por que você defende ladrão de celular?”, questionou o candidato, após alegar que o presidente teria dito que criminosos não deveriam ser presos por roubarem para comprar cerveja. De acordo com o Aos Fatos, a acusação surgiu de edições e distorções de declarações feitas pelo petista em 2017 e 2022. Nas ocasiões, Lula relacionou a criminalidade à desigualdade social e defendeu a criação de oportunidades de trabalho para jovens, sem afirmar que autores de roubos deveriam ficar impunes.
O senador também apresentou uma versão contrariada pelas investigações sobre a morte de Ana Clara, criança atingida por um disparo de fuzil durante uma operação policial no Rio de Janeiro. Flávio afirmou que o episódio ocorreu em meio a uma troca de tiros em uma comunidade conflagrada. No entanto, conforme a checagem, a própria Polícia Militar informou à época que não houve confronto naquele dia. A perícia encontrou apenas munições de calibre 7,62, compatíveis com o armamento utilizado pelo policial militar Bruno Dias Delaroli, acusado de matar a menina. Não foram identificadas cápsulas de outras armas que sustentassem a hipótese de troca de tiros. O policial, solto em novembro de 2021, responde ao processo em liberdade e ainda não havia sido julgado. Durante o debate, Flávio também errou ao se referir à mãe da criança, Cristiane Gomes da Silva, que estava na plateia, chamando-a pelo nome da filha.

