Por Anna Beatryz Fernandes
O Rio Grande do Norte ganhou destaque nacional no Prêmio Pop Ciência 2026, promovido pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), com o reconhecimento de sete crianças e adolescentes na categoria Embaixadores Mirins Pop Ciência. O resultado definitivo foi divulgado nesta terça-feira (25).
A categoria reconhece jovens de 6 a 17 anos que desenvolvem ações para aproximar a ciência de outros estudantes, por meio de experimentos, projetos, apresentações, conteúdos digitais e outras iniciativas de divulgação científica. Criada em 2024, a proposta busca mostrar que crianças e adolescentes também podem produzir conhecimento e atuar como protagonistas da ciência.
Entre os potiguares reconhecidos estão Rebeca Stefani Alves, de 16 anos, e Mariana Pimenta, de 14 anos. As duas estudam na Escola Estadual Imperial Marinheiro, no bairro Nordeste, em Natal, e participam do Programa Meninas no Espaço, desenvolvido em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN).
O Prêmio Pop Ciência possui nove categorias: Divulgador Científico; Espaços Científico-Culturais; Feiras e Mostras Científicas; Concursos, Competições e Olimpíadas Científicas; Diversidade na Ciência; Clube de Ciência; Instituições; Governo Pop; e Embaixadores Mirins Pop Ciência.
O resultado preliminar da categoria Embaixadores Mirins havia selecionado 129 jovens em todo o país. Diferentemente das demais categorias, o período de recursos dessa modalidade já foi encerrado.
Ciência produzida dentro da escola
Rebeca conta que fez a inscrição para o prêmio de forma independente, com autorização da mãe.
Para ela, o reconhecimento representa uma oportunidade de continuar aprendendo e incentivar outros jovens a se aproximarem da ciência.
“Eu me sinto muito feliz, eu me sinto muito realizada. Eu espero que eu consiga representar bem”, afirma.
A estudante participa do Programa Meninas no Espaço e de projetos relacionados à ciência oceânica. Em 2025, integrou uma equipe que participou da Feira Nacional GLOBE Brasil, com trabalhos sobre mudanças climáticas e a presença de mosquitos na escola, localizada próxima a uma área de mangue.
Para investigar o problema, os estudantes instalaram armadilhas em diferentes pontos da escola e acompanharam diariamente as temperaturas. Após a identificação de larvas, realizaram análises em microscópio para identificar o gênero dos mosquitos.
“É uma sensação boa saber que eu estou promovendo a ciência, estou participando de projetos, estou conquistando várias coisas. Principalmente se eu parar para pensar que há alguns anos eu nem imaginava que eu poderia estar participando disso tudo”, relata.
Rebeca também destaca o papel do reconhecimento como incentivo para outros estudantes.
“Representa uma oportunidade de aprender mais sobre a ciência e de mostrar também para os jovens que eles podem fazer parte desse mundo”, diz.
Da cultura oceânica à pesquisa científica
Mariana Pimenta, de 14 anos, está no 9º ano e também descobriu o edital pelas redes sociais. Após conversar com a mãe, preparou o portfólio e realizou a inscrição.
“Me sinto feliz, pois vejo que aos poucos estou conseguindo construir uma jornada acadêmica robusta com possibilidades de grande crescimento profissional”, afirma.
A estudante entrou na pesquisa científica em 2024, por meio do Clube de Cultura Oceânica, com o projeto “Mar da Nossa Escola”. A iniciativa desenvolve ações na escola e mantém conteúdos de divulgação científica nas redes sociais. O projeto foi selecionado para apresentação na 21ª Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, em Brasília.
Mariana também participa do Programa Meninas no Espaço, onde pesquisa a relação entre mudanças climáticas, Antártica, manguezais e proliferação de mosquitos na área próxima à escola.
Ela acumula ainda participações em olimpíadas científicas. Na Olimpíada do Oceano, conquistou sete medalhas em modalidades nacionais, regionais e internacionais. Na Feira Nacional GLOBE Brasil, participou dos projetos “Do Mangue ao Gelo” e “Quando a escola esquenta os mosquitos aparecem”, premiados nas modalidades maquete e pôster.
Para Mariana, a presença de meninas nas áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática é fundamental para ampliar a diversidade científica.
“A inserção de jovens, principalmente meninas, na área STEAM é de grande importância para se alcançar a igualdade de gênero, desenvolver nossas habilidades e potenciais, trazer novas visões e promover possíveis mudanças e soluções”, afirma.
A estudante também produziu uma história em quadrinhos sobre o projeto dos mosquitos, reunindo registros das etapas da pesquisa. O material foi levado e distribuído durante a 79ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), no Rio de Janeiro.
Professora destaca protagonismo das estudantes
A trajetória das jovens é acompanhada pela professora Luciana Fentanes, doutora em Bioquímica e Biologia Molecular. Para ela, o resultado representa uma etapa importante no processo de autonomia das estudantes.
“Foi muito gratificante, principalmente para mim, como professora delas, saber que elas já estão nesse grau de maturidade, ao ponto de se inscreverem sozinhas e conquistarem um prêmio”, afirma.
Segundo Luciana, as estudantes participaram da construção dos projetos ao longo dos últimos meses, mas a inscrição no Prêmio Pop Ciência foi uma oportunidade para que demonstrassem, sozinhas, a confiança no trabalho desenvolvido.
“Nós construímos o Meninas no Espaço juntas, mas agora essa etapa elas fizeram sozinhas, justamente para trabalhar essa parte da confiança no que tinham feito e na competência que têm para fazer”, explica.
A professora também destaca os resultados obtidos pelas estudantes em outras competições. Na Feira Nacional GLOBE, a equipe conquistou primeiro lugar na modalidade maquete e terceiro lugar no pôster.
Para Luciana, o impacto vai além dos prêmios e já aparece nas perspectivas acadêmicas das estudantes. Rebeca, que está na primeira série do ensino médio, pretende cursar Biologia.
Mariana, no 9º ano, planeja tentar uma vaga no Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN).
Professora da UFRN também é reconhecida
O RN também aparece no Prêmio Pop Ciência 2026 com a professora Mariana Rodrigues de Almeida, da UFRN. Ela foi selecionada na categoria Diversidade na Ciência, voltada a iniciativas que ampliam a participação de grupos historicamente sub-representados na ciência, incluindo mulheres e meninas.
“Eu fiz a candidatura, que é para categoria Diversidade. Tinha apenas uma vaga e conseguimos.
Ganhar esse prêmio é assim um sonho sendo reconhecido”, afirma.
À frente do Programa Meninas no Espaço, a professora desenvolve ações de educação e popularização científica voltadas principalmente a meninas de escolas públicas, aproximando universidade, pesquisadores, professores e estudantes.
Para Mariana, o reconhecimento representa não apenas uma conquista pessoal, mas o resultado de uma trajetória construída coletivamente com estudantes, professores e instituições.
“Para mim, esse prêmio significa muito mais do que um reconhecimento individual. Ele representa o resultado de uma caminhada construída com muitas meninas, muitos professores, escolas, pesquisadores, instituições e parceiros que acreditaram nesse trabalho”, destaca.
Segundo a professora, um dos principais objetivos do trabalho é ampliar os horizontes das estudantes e apresentar possibilidades que muitas vezes não fazem parte de sua realidade cotidiana.
“O que mais me emociona é dar voz a essas meninas e criar oportunidades para que elas conheçam realidades, experiências e possibilidades diferentes daquelas com as quais estão acostumadas em seu cotidiano. É permitir que conheçam a universidade, a pesquisa, a ciência e novos caminhos que talvez antes pareciam distantes”, afirma.
Mariana também destaca o impacto de acompanhar a evolução das estudantes ao longo dos projetos.
“É acompanhar a transformação de cada uma, perceber a dedicação e a vontade de aprender, pesquisar e mudar a própria história. É vê-las descobrindo que são capazes e começando a sonhar.

