A neblina que desce sobre a Praça dos Três Poderes, em Brasília, já não consegue esconder o cheiro de podre que exala da Suprema Corte brasileira, hoje rebaixada ao que de pior existe no país. Não é podre de comida estragada ou de tomos de jurisprudência envelhecida, mas do desarranjo moral de uma corte que perdeu a vergonha antes de perder o pudor. Nas alamedas do Supremo, o ar anda denso e pesado de sussurros, enquanto as Excelências desfilam suas capas pretas com a arrogância de quem se julga imune até ao próprio ridículo.
A farsa agora mudou de patamar, pois não se circunscreve apenas às filigranas jurídicas para soltar apadrinhados no final do expediente. O veneno escorre das conversas vazadas, dos gabinetes devassados por escândalos que fariam corar os velhacos de qualquer regime apodrecido. Membros do tribunal, com suas faces lisas de massagem e jantares de luxo, veem seus nomes arrastados no lamaçal de suspeitas que antes só frequentavam as páginas policiais.
É aí que a profecia de Millôr Fernandes ganha contornos de tragédia pastelão: “O Brasil é único país do mundo onde os ratos conseguem colocar a culpa no queijo”.
O Brasil aperfeiçoou a engenharia da impunidade. Diante dos escândalos que jogam o Supremo Tribunal Federal (STF) na sarjeta da opinião pública, a narrativa oficial é descarada. Ratos de gabinete, apanhados com as mãos sujas de manteiga e o terno salpicado de farelos, sentam-se no púlpito para dar aula de ética. Sob a batuta de uma retórica cínica, conseguem empurrar a responsabilidade para o queijo. O queijo, no caso, é o próprio país, a própria opinião pública, ou qualquer repórter incauto que ousou dar nome aos bois. A culpa nunca é dos roedores que devoram as entranhas da instituição; a culpa é do holofote que ilumina o estrago.
O espectro de Nelson Rodrigues gargalha nos bastidores desse teatro mambembe. O óbvio tornou-se a verdade mais difícil de enxergar, ou melhor, a verdade que eles se recusam terminantemente a admitir. O óbvio saltaria aos olhos até do faxineiro que encera os corredores do plenário.
O STF não está sendo desmoralizado por “ataques externos” ou por “ameaças à democracia”, mas pelas mãos, pelas canetadas e pelas contas dos seus próprios integrantes.
O óbvio ululante, como diria Nelson Rodrigues, é que a excelência da toga virou fantasia de carnaval desbotada. O óbvio ululante é que quando a alta magistratura se mistura ao balcão de negócios, o direito deixa de ser garantia para virar mercadoria de luxo. Mas vá você, cidadão comum que sustenta a farra, exigir que uma Excelência enxergue o óbvio. Acostumados ao incenso dos puxa-sacos e à blindagem dos seguranças de terno escuro, eles preferem decretar o sigilo da própria podridão. Criam inquéritos do fim do mundo para investigar a quem a eles se opuser, punem a indignação alheia e chamam a autodefesa de “defesa das instituições”.
Nas entranhas do STF, o que se opera hoje não é a distribuição da justiça, mas a gestão do pavor. O medo de que a próxima revelação desmonte o castelo de cartas e de farsas. Enquanto isso, o pagador de impostos, espremido entre a inflação e a violência cotidiana, assiste ao espetáculo de uma corte que se desmorona por dentro, roída pela vaidade e pela ambição desmedida de seus ocupantes.
A sessão prossegue. A sineta toca. Os ratos limpam os bigodes, ajeitam o cetro e fingem que nada aconteceu. E o óbvio, nu e indigesto, continua estampado na cara de um país que já cansou de ser feito de otário.
*Professor, pesquisador e escritor
